Em torno do próprio rabo (ou "quando você acha que virou gay?”)

01/10/2014 21:37

Alexander Martins Vianna

A meu ver, há um desfoque simplificador quando a sexualidade é abordada em chave estritamente biológica, particularmente quando entra na arena política de disputas por direito. O fato de não haver uma chave biológica para assentar todo o comportamento humano não significa que algo tão estrutural quanto a sexualidade seja uma “livre escolha” ("opção sexual"). Isso seria o mesmo que supor que a orientação sexual equivale a decidir se vou ou não ao supermercado, se viro para a direita ou para a esquerda, ou se voto em Tarcísio Motta (sim! sim!) ou em Pezão (sai de retro!...).

A sexualidade é formada por filigranas sociogênicas e psicogênicas não mensuráveis em termos genômicos ou por equação matemática. Dizer que há escolha nessa matéria é o mesmo que afirmar que alguém pode dizer em que momento, circunstância ou situação "virou" homo, trans ou heterossexual. Discursos do tipo a "ciência" falou isso ou aquilo não problematiza o básico: De que tipo de ciência se está falando quando se tenta achar uma chave biológica para a orientação sexual? Qual o paradigma de cientificidade está sendo acionado?

Sociologicamente, o ser humano é mais do que seu genoma e menos do que todas as suas escolhas conscientes individuais em seu processo de socialização, embora possa se iludir do contrário. O fato de esta dimensão formativa da psiqué não ser mensurável ou reduzida ao genoma não deveria nos fazer cair em extremos simplificantes: ora buscando o determinismo biológico, ora ratificando o credo liberal de que tudo é escolha, inclusive a sexualidade. Simplesmente, o limite paradoxal de não se conseguir explicar com fórmulas simples como uma estrutura é configurada (no caso, a psiqué) dever-nos-ia, ao menos, tornar mais auto-reflexivos sobre nossas categorias de percepção e avaliação do mundo e das pessoas, tal como sugere Pierre Bourdieu em “Dominação Masculina”.

A sexualidade humana está no interstício borrado entre a natureza e a linguagem. No processo de socialização do ser humano, ninguém escolhe não aprender a falar, embora possa escolher quando falar ou ter dificuldades em desenvolver a fala, seja por limitações biológicas, de socialização ou a combinação de ambas. O mesmo raciocínio vale para a sexualidade: não escolhemos não ter (homo, hetero ou trans)sexualidade, da mesma forma que não escolhemos não ter linguagem – ambas dependem de suas bases biológicas para existirem, mas não se reduzem ao ponto de partida biológico. Até que me provem o  contrário, a gata de Montaigne não fala porque não tem condições biológicas para a fala; o homem tem condições biológicas para a fala e linguagem simbólica complexa, mas só as desenvolve se for socializado na sociedade humana. Quem quiser buscar um ponto de partida para tal paradoxo, que tenha boa sorte em seu exercício metafísico ocioso! O paradoxo humano não tem ponto de partida, isso não nos é dado a conhecer. Slavoj Žižek já enfrentou este tema paradoxal em “Amor Impiedoso: ou sobre a crença”.

Dou um exemplo hipotético e chão: Uma criança humana que crescesse e sobrevivesse entre lobos, entre 0 e 8 anos, embora tivesse condições biológicas para ter linguagem, não a teria ao modo humano porque não foi socializada entre humanos. E a linguagem humana é tão diversa entre os humanos!... E o processo de socialização na primeira infância é filigranática e estruturante, não apenas da sexualidade, que também está no jogo social. Muitos pais falam que criam os filhos iguais, mas não criam, pois toda vez que um ser humano novo entra na configuração social, esta muda, pois causa efeitos cumulativos imprevistos sobre o processo de edificação das personalidades. E, no final das contas, pessoas não são “coisas”, mas processos inacabados, simultaneamente estruturados e estruturantes, sem ponto inicial ou final identificável, pois se estruturam como pessoas à medida que se socializam.

Então, desconfio sempre de qualquer pretensão metafísica (mesmo travestida de “ciência”) de estabelecer ponto final ou inicial para as “coisas”, pois tendem a infantilizar o adulto em sociedade com a ilusão de preencher “vazios” que lhe gerem a sensação de plena segurança em suas demandas cosmogênicas de “apreender” o mundo “de uma vez por todas”, esquecendo-se de que o mundo é feito (e não fato) no que tange à condição humana. E o que é feito não nasce de um marco zero metafísico-liberal de “livre escolha”. Escolhas são estruturadas e estruturantes ao mesmo tempo. É somente neste sentido que eu entenderia a orientação sexual como “escolha”, mas não como “opção”. A minha orientação sexual não é uma “opção” (“a livre escolha” de correr o risco) de ser objeto de escárnio e violência – estes são índices sociais-comportamentais estruturados e estruturantes de processos de socialização bem específicos, que normatizam o que é “normal” e “anormal”.

O meu principal fator de incômodo em toda essa discussão é o pressuposto tácito de que a "homossexualidade" seria um defeito genômico (determinismo genético) ou moral (uma escolha mal feita); ou ainda as tentativas políticas de buscar uma explicação biológica desindividualizante para se pleitear o direito à diferença de orientação sexual. Quem segue este caminho acaba por ratificar uma visão reducionista da condição humana – e, no fundo, quer buscar numa noção (contestável) de “verdade científico-genética” a base para a proteção civil em face às ameaças confessionais e civis contra a sua orientação sexual. Ou seja, para se fugir da frigideira quente acaba-se caindo no fogo. É todo esse jogo autorreferente de violências simbólicas e efetivas que deve ser contestado e combatido. Deve ser combatida toda visão de mundo que simplifica a condição humana!

Na pergunta “QUANDO VOCÊ ACHA QUE VIROU GAY?”, há o pressuposto tácito da discriminação hierarquizadora do que seja "normal" na sexualidade (ou seja, a heteronormatividade) quando alguém pergunta ao trans ou homossexual em que momento que “ele acha” que virou “isso” ou “aquilo”. Por que a pergunta não é feita ao heterossexual? Embora isso possa parecer uma brincadeira, a pergunta feita em tom de galhofa para @s homossexuais já carrega a violência normatizadora na linguagem da pergunta, pois a pergunta supõe que alguém “vira algo” (a sexualidade considerada “anormal”) por escolha ou determinação biológica (isso vai depender para onde pende a balança da simplificação da matéria humana), enquanto os outros sempre “são algo” (a sexualidade normal), ou seja, são aqueles que perguntam de um lugar supostamente “neutro” e superior (e que esperam a cumplicidade do riso de escárnio contra o “anormal” ao fazer a pergunta).

Enfim, sempre acho que meus alunos e ex-alunos podem ser mais do que o “erro” de seus pais. Estes precisam estar em paz consigo mesmos e apoiar os seus filhos gays num mundo ainda hostil à sua orientação sexual. Os filhos gays precisam de pais que não tenham vergonha deles; precisam de pais corajosos que provoquem a vergonha nas pessoas que querem que sintam vergonha de seus filhos. Os pais precisam ser firmes e corajosos para não serem cúmplices do riso escarnecedor da sexualidade de seus filhos; precisam estar atentos ao que ocorre na escola – e se esta combate a homofobia com a mesma firmeza com que combate o racismo.

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