Em meio ao silêncio, surge uma voz desconhecida - O surgimento do Movimento Feminista na na Ditadura Militar brasileira

01/04/2014 08:30

Cris Nunes

O Movimento Feminista no Brasil ganha maior fôlego no final dos anos de 1970, curiosamente depois da proclamação do Ato Institucional numero 5, que reprime qualquer tipo de manifestação cultural, e coloca na clandestinidade todos os lideres de esquerda. É nesse período de apatia e vazio político, que as mulheres influenciadas pelos movimentos feministas que estão em plena efervescência na Europa e nos Estados Unidos, sentem a necessidade de serem ouvidas e de questionar os seu papel enquanto sujeito histórico. Em meio ao silêncio surge então uma voz desconhecida, a das mulheres.

A Ditadura Militar brasileira tem inicio em 01 de abril de 1964, com o golpe de estado que levou ao governo o General Castelo Branco. Após o ato institucional numero cinco, o AI 5 de 1968, o Estado adquire poderes quase que absolutos e com isso diversas pessoas de esquerda tem seus direitos políticos caçados e são exilados, dentre as pessoas exiladas diversas mulheres, responsáveis pelo surgimento do feminismo no Brasil.

Devido ao exílio diversos grupos feministas brasileiros formam-se no exterior, em países como o Chile, França e também nos Estados Unidos.

Depois do golpe o povo brasileiro se via frustrado e um tanto desnorteado com o que havia acontecido. E como a censura aumentava a cada Ato Institucional lançado, os movimentos culturais tentavam encontrar uma forma de se expressar em meio a tanta repressão, como encontramos em BARROS.

Novos movimentos culturais, na musica, teatro e literatura, tentavam se firmar perante o publico, já acostumado à televisão e as individualidades da Jovem Guarda. Publicações ensaísticas inundavam as livrarias, procurando explicar os rumos da política, da economia e das tendências socialistas e do capitalismo no mundo. (1998 p.33)

O Ato Institucional número cinco foi a expressão maior do autoritarismo a partir de 1968, pois diferentemente dos outros atos anunciados até então, esse não vinha com prazo de vigência, nos seus artigos tínhamos o fechamento do congresso nacional, assembléias estaduais e câmaras municipais, caçava mais nomes políticos entre outras diversas repressões, e também previa o controle de todos os meios de expressão, sobre tudo imprensa, criações artísticas e culturais, e as instituições civis não poderiam expressar nenhuma crítica a autoridade do Estado, restava apenas a clandestinidade.

Portanto foi nessa clandestinidade que os partidos políticos de esquerda atuaram durante o governo militar no Brasil, e as mulheres que até então ficavam nos seus lares passam a também na clandestinidade fazer parte dessas organizações e também da guerrilha armada, é o surgimento do movimento feminista que da voz as personagens até então silenciadas pela história.

No Brasil o movimento feminista surge com força somente no final dos anos 70, percebe-se ai uma defasagem de mais ou menos dez anos do surgimento na Europa e nos Estados Unidos, o que se dá devido aos discursos dominantes no País durante esse período, o da Ditadura Militar e o de oposição a ele, ou seja até mesmo a esquerda não incorpora as mulheres na sua luta. Mas como esse é um período de intensa efervescência política e cultural as mulheres assumem-se como militantes nas organizações de esquerda.

A decisão de assumir a militância política em tais organizações, expressa a vontade radical das mulheres em se tornarem protagonistas ativas da historia [...]. As mulheres militantes buscavam a construção de uma sociedade mais justa. (1994 p. 55).

As mulheres militantes geralmente possuíam uma convicção e um desprendimento característico da militância revolucionária. A ponto de algumas militantes não mais permaneceram no movimento estudantil – local de onde a maioria delas saiu para trabalhar em fábricas e sentir de perto o cotidiano de uma operária. Essas eram estratégias desenvolvidas pelas organizações políticas para realizar um trabalho junto à classe trabalhadora.

Pode-se afirmar que a opção pela militância política representou uma mudança radical no modo de vida das mulheres, mas elas precisavam de um grande aperfeiçoamento teórico e o desenvolvimento de ações práticas exigiam disciplina e paixão.

A maior concentração de grupos feministas esteve às cidades de Rio de Janeiro e São Paulo, que começam a surgir em 1972, reunia-se em sua maioria mulheres que já se conheciam anteriormente e devido à repressão da ditadura possuíam um caráter extremamente privado. Alguns autores apontam que as mulheres sentiam necessidade em se organizar devido ao enorme vazio político existente no governo Médici, principalmente depois da proclamação do AI -5.

Em meio a esse vazio político, quando a esquerda sofre diversas derrotas militantes são presos e exilados, as mulheres sentiam a necessidade de se expressar de questionar sua posição na sociedade, discutir sobre seu corpo e seu prazer.

Mas essa expressão não é vista com bons olhos nem pela ditadura, nem pelos componentes dos partidos de esquerda, que as acusam de estarem se distanciando da luta de classes, da luta coletiva em nome de uma militância individual, egoísta.

Fato é que a militância feminina sempre teve que enfrentar diversos obstáculos, pois para a mulher assumir-se como um sujeito político já era um problema, imagine em tempos de perseguição e censura.

Encontram-se diversos relatos de mulheres que foram violentadas não só no âmbito político, mas também foram atacadas em seu gênero. No período da ditadura militar, as mulheres foram perseguidas exiladas, torturadas e violentadas sexualmente. Era bastante comum as mulheres serem intituladas pelos repressores de “putinha comunista”.

E hoje? Pelo que lutamos? Hoje em dia a agenda pode ter mudado mas, a luta pela nossa emancipação segue, diariamente lutamos pelos mesmos espaços que os homens frequentam, lutamos por melhores salários, lutamos para tocar nosso lar e nossas maternidades sozinhas na maioria dos casos, lutamos pelo direito de usarmos o que quisermos sem sermos molestadas por isso. Se nós fazemos e lutamos por tudo isso hoje, é graças aquelas guerreiras brasileiras da década de 1960.

Portanto essa data é importante para lembrar os diversos sujeitos que foram torturados, perseguidos e mortos pelos militares. A intolerância, truculência e falta de diálogo marcaram duramente o País que até hoje sentimos os seus resquícios em nossa sociedade. De certa forma o fantasma de outra ditadura sempre pairará em nosso cenário político. É um fantasma difícil de exorcizar. Mas que bom que os tempos hoje são outros e as mulheres de outrora nos deixaram importantes e valiosas lições. A maior delas é a de nunca, em hipótese nenhuma calar-se diante das injustiças do cotidiano. É uma pena que tantas e tantos pagaram com suas vidas, mas cabe a nossa geração nunca deixar este assunto cair no esquecimento, para que dessa maneira possamos ser respeitosos com os que foram e justos com os que ficaram.

Referência
COLLING, Ana Maria. Choram Marias e Clarices: uma questão de gênero no regime militar brasileiro. Porto Alegre 1994. 168 p. Dissertação (Mestrado em Historia) - Instituto de Filosofia e Ciências Humanas - Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre.

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