Ebola pra frente

12/11/2014 09:27

Felipe Faverani do Colunas Tortas

Cinco: é o número de casos de infecção por Ebola registrado nos continentes americano e europeu – quatro pacientes nos EUA, um na Espanha. Cinco mil: é o número aproximado de mortes causadas pela atual epidemia na África, que soma mais de 13 mil pessoas infectadas, segundo aponta o último levantamento da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgado no dia 7 de novembro.

O atual surto epidemiológico de Ebola no continente africano, que atinge principalmente Serra Leoa, Guiné e Libéria, é o maior da história, desde que o vírus foi descoberto, em 1976. De lá para cá, outros nove foram confirmados pela OMS. Mas foi só há alguns meses, quando os jornais anunciaram que o Ebola havia ultrapassado os contornos geográficos do continente mais pobre do mundo, que se voltou máxima atenção ao vírus. O Ebola, de fato, tinha saído dos limites!

De repente, uma onda de infográficos sobre formas de contágio, entrevistas com epidemiologistas e notícias de casos suspeitos varreu os principais periódicos do planeta. Quais as chances de o Ebola chegar ao meu país? Que medidas os governos têm adotado para evitar a entrada do vírus em território nacional? Por que permitem o desembarque de pessoas vindas das regiões afetadas? Por que não interditam os voos? Que o Ebola fique lá, aqui não!

Quando, no começo do mês passado, o comerciante Souleymane Bah, de 47 anos, recém-chegado da Guiné, foi apontado como o primeiro caso suspeito no Brasil, a doença se tornou um dos assuntos mais comentados nas redes sociais do país. Nos comentários, pouco ou quase nada que evidenciasse real absorção de informações sobre o Ebola, mas histeria, preconceito racial e de origem.

Ao mesmo tempo em que os resultados dos exames de Bah davam negativos em terras tupiniquins e brasileiros respiravam aliviados, centenas de casos positivos de contaminação pelo vírus eram diagnosticados na África Ocidental. Lá, onde a marginalização histórica de milhões de pessoas se reflete na infraestrutura precária dos serviços públicos; onde o número de médicos e demais profissionais da área da saúde, em comparação ao número de habitantes, é bem menor do que aqui; onde a ideia de aldeia global não se aplica, aliviados eram aqueles que respiravam com dificuldade pela última vez.

No momento em que escrevo esta matéria, dia 10 de novembro, nas páginas iniciais de dois dos principais jornais do país não há nenhuma notícia sobre a epidemia de Ebola que continua a ceifar vidas no continente africano. A histeria provocada pelo compartilhamento de notícias nas redes sociais passou. Afinal, o vírus está bem longe. O que são 5.000 mil mortes na África perto dos cinco casos fora dela?

Como aconselhou a Souleymane Bah um internauta brasileiro, logo abaixo notícia de que o comerciante não havia contraído o vírus: “Ebola pra frente!”.

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