Duas Esquerdas e Uma Copa

12/02/2014 12:41

Lucas Fier

Geralmente as tragédias e violações de direitos humanos provindas dos interesses do capital privado e multinacional é motivo de união das esquerdas. A Copa das Confederações é uma exceção. Ela se tornou motivo de polarização entre duas “concepções” da prática política que deveria caracterizar a esquerda. Ou talvez “concepções” não englobe o todo das diferenças. Antes de averiguarmos a posição de cada um, vamos entender bem o caso da Copa:

Os problemas que a Copa acarretam vão muito além do desperdício do dinheiro público (que não deixa de ser um problema real). Pessoas estão sendo removidas de suas casas num ato de higienização das cidades, lançado o povo das periferias às ruas e destruindo casas, favelas e barracos. A Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa (ANCOP) estimou que o número de pessoas despejadas deva atingir aproximadamente 250 mil. A polícia está realizando as remoções de maneira truculenta, sobretudo aquelas comunidades que tentam resistir. (Vídeo)

Ano passado foi sancionada a Lei Geral da Copa que “flexibiliza” a legislação. Por exemplo: ela cria uma zona na qual somente patrocinadores oficiais poderão comercializar produtos, o que impedirá a participação dos milhares de comerciantes ambulantes que não poderão aproveitar os benefícios que o turismo poderia oferecer – o lucro deverá ser monopólio dos grandes! Também aqueles que usarem símbolos relacionados ao evento para fins comerciais poderão pagar uma pena de três meses a um ano. “Isto significa que palavras como ‘Mundial’, ‘Copa’, ‘Brasil’, ‘Canarinho’, entre tantos outros, ficam nas mãos da FIFA e de suas empresas parceiras para exploração comercial exclusiva” (fonte). A Lei Geral da Copa concede à FIFA e a suas empresas parceiras isenção total de todos os impostos brasileiros, o que deverá lhe dar uma economia de 1 bilhão. Estima-se que o Megaevento (que segundo a própria FIFA não tem fins lucrativos) deverá render 10 bilhões de reais (idem).
Para controlar as ondas de protesto, o governo vai aumentar a repressão. O governo federal já gastou quase 50 milhões de reais em armamento “não” letal, como granadas, armas de choque elétrico e balas de borracha, e uma tropa de choque especial também foi criada para atuar nas cidades-sede da Copa. Em São Paulo a “bem preparada” polícia militar também criou um batalhão especial para defender a Copa. E o mais assombroso é o direito concedido às forças armadas para reprimir as manifestações com o manual do Ministério da Defesa intitulado “Garantia da Lei e da Ordem”, que já foi até apelidado de “ato institucional n.1 da era petista”.
 
Com todos estes problemas, com as remoções no topo, os movimentos sociais fizeram o obvio: foram para a rua protestar, atrapalhando e dificultando a construção do evento e demonstrando sua revolta e indignação. Foram surpreendidos, no entanto, sendo acusados por parte da esquerda de... serem de direita, de estarem lutando contra o Brasil, isso quando não de bandidos e terroristas. 
Há algo paradoxal acontecendo: a mídia e a direita em geral, são contra esses protestos. Paralelamente há uma parte da direita, mas sobretudo uma juventude despolitizada, que participa dos protestos. Neste casos, eles encontraram uma maneira de promover a baderna com o intuito de prejudicar a imagem do governo e fragilizar o PT. Aquela esquerda que defende a Copa, ou ao menos que é hora de parar os protestos e deixá-la acontecer em paz, estão sendo rotulados, pela outra esquerda, de “governistas”, pois são em geral os simpatizantes do PT e/ou temerosos com o rumo dos protestos. Estes “governistas” estão generalizando a ação de todos os protestos, desqualificando-os chamando-os “coxinhas”, quando não “fascistas”, etc e até mesmo, em alguns casos, justificando e aprovando a repressão!
 
Eles sabem o desgaste que isso vai acarretar ao PT. E, tentando compreender esta posição pela perspectiva mais à esquerda possível, podemos admitir que se o PT não vencer as eleições, vencerá um partido mais à direita, e que talvez descontinue as conquistas do governo petista, sejam estas conquistas pequenas ou grandes, sejam necessárias ou somente insuficientes – não cabe discutir isso nesse texto. Existe o fato de que não foi a Dilma nem o PT quem decidiu que a copa seria aqui e, sem dúvida nenhum deles teria força pra impedi-la. Enfim, a copa foi um desastre, inclusive para o PT, pois ele provavelmente nunca mais será o mesmo depois dessa copa.
A tecla que esses “governistas” mais têm tocado é a respeito da violência das manifestações. De rebeldes e confrontadores da ordem existente, passaram denunciar o vandalismo e exigir ordem, muitas vezes usando argumentos que tradicionalmente pertenceram à direita. A já em moda rejeição aos Black Blocs (leia um texto sobre isso aqui) tomaram proporções ainda não vistas e os casos do fusca incendiado e da morte do cinegrafista da Band só ajudaram a fomentar o ódio geral pelos manifestantes.
 
É preciso esclarecer algumas coisas. Em primeiro lugar aqueles que generalizam alegando que os protestos estão sendo articulados pela direita estão enganados ou mentindo. Como disse Igor Ojeda, “No mundo onde cresci, protestar contra violações é ser de esquerda”. Há gente de direita protestando? Há. Mas há gente de esquerda que não está fazendo mais do que sua obrigação de cidadão. E essas pessoas não são todas dos Black Blocs, nem dos Anonymous, nem do PSTU, nem de uma coisa só e toda essa generalização é inventada e reproduzida para confundir e convencer as pessoas através de um discurso difamatório.
 
Em segundo lugar o caso do fusca e do rojão na cabeça do cinegrafista foram sim casos isolados e nunca caracterizaram as ações dos Black Blocs ou dessas manifestações em geral. Mesmo que tenha sido membros dos Black Blocs que o fizeram (se é que foram) foram erros, os responsáveis devem pagar, mas é desonesto desqualificar os protestos em função destes casos. Os protestos são legítimos em nome das violações que foram apontadas acima e a violência policial tem deixado muito mais vítimas, como está sendo o caso de tantos jornalistas e ativistas baleados – porque não deslegitimam a própria Copa ou o governo em função dessa violência policial?
 
Voltemos à Copa em si. Os interesses da FIFA estão acima da população, pra você? Será que vale tudo pra apoiar o PT? Será que os valores da esquerda são negociáveis? Será que compensa manter o governo que você defende à custa dos direitos humanos, do povo pobre nas favelas? Se o PSDB estivesse no poder, os petistas estariam na rua, denunciando essas violações e admitindo que a desordem e vandalismos  provindo dos protestos eram inevitáveis, pois a luta era justa. Sejamos francos, por favor.
 
Quando apresentei o vídeo acima a estes “governistas”, alguns ficaram até mesmo embaraçados, mas admitiram que haviam protestos justos e protestos injustos, e que sua luta era contra os protestos injustos. Mas será mesmo? Por que ficar apenas bradando contra os “coxinhas” nas manifestações, quando os protestos são justos e legítimos, e quando o Estado e a FIFA estão destruindo nosso patrimônio e nossa soberania, quando estão despejando pobres e reprimindo a população, criminalizando os movimentos sociais, etc? Agora são vocês que exigem que aceitemos calados, pois trata-se de uma mal necessário, que não pode ser evitado? O que vocês mesmos, que votavam no PT nos anos 80, diriam desse tipo de discurso?
 
Eu sei que nem toda ação realizada nas manifestações é justa, e até pode ser que a esta altura do campeonato os protestos não vão impedir a copa de acontecer e talvez nem sejam produtivos, e também me preocupa essa violência, sobretudo aquela que se abate sobro lado mais fraco. Mas faz parte da dignidade humana não aceitar calado estas violações, e que deve-se mostrar para os violadores que não deixaremos barato e, se possível, que pensem duas vezes antes de cometer esse tipo de injustiça. Enfim, temos que mostrar que o povo brasileiro tem voz e que é capaz de reagir. De que lado você está?


Publicado originalmente no Blog Esperança Crítica

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