Do lado de dentro do muro – Entrevista

09/10/2012 08:25

A situação da palestina, apesar de muito noticiada nos meios de comunicação tradicionais, costuma retratar apenas o lado israelense da situação, justificando sua imposição sobre o povo palestino, além de alimentar estereótipos sobre a população árabe. O Fato e a História entrevistou, Érico Loyola e Eduardo Minossi, observadores internacionais que através da ONG PAEPI/EAPPI conheceram o lado de dentro do muro, dentro dos territórios palestinos.

O Fato e a História - O que é o PAEPI/EAPPI?

Érico Loyola e Eduardo Minossi - O Programa de Acompanhamento Ecumênico na Palestina e em Israel (PAEPI/EAPPI) é uma ONG surgida a partir da iniciativa do Conselho Mundial de Igrejas (CMI) e das igrejas cristãs de Jerusalém, que tem por objetivo trazer voluntários de todo o mundo para conhecer a vida sob ocupação na Cisjordânia. Assim, com essa experiência de campo, é possível ter uma idéia mais clara do que realmente ocorre nos territórios ocupados palestinos, vivenciando o dia-a-dia do conflito israelo-palestino.

 

OFeaH - Quanto tempo vocês ficaram em viagem e qual o trabalho feito por vocês na entidade?

EL - Tivemos a oportunidade de viver na Palestina por três meses, em lugares diferentes. Eu residi numa cidade ao norte da Cisjordânia, chamada Tulkarm, de fevereiro a maio de 2012. O Eduardo, por sua vez, ficou num vilarejo chamado Yanoun, nas proximidades de Nablus, de setembro a dezembro de 2011. Nossa missão, lá, enquanto observador internacional consistia basicamente em prover presença protetiva a comunidades vulneráveis e monitorar eventuais violações aos Direitos Humanos, comunicando aos organismos internacionais o que víamos e prestando solidariedade àqueles que eram vítimas dessas violações.

Nossas atividades diárias, claro, variavam conforme os acontecimentos e as necessidades dos locais onde estávamos, mas, de um modo geral, em Tulkarm tive a oportunidade de monitorar checkpoints e conhecer um pouco mais do lado burocrático e opressor da ocupação. O Eduardo, por sua vez, em Yanoun, tinha uma missão mais centrada em prover proteção a uma comunidade de 40 habitantes cercada por colônias judaicas ilegalmente instaladas em território palestino, vivenciado um pouco do aspecto religioso desse conflito.

 

OFeaH -  Os veículos de mídia, passam a idéia de conflito permanente entre Israel e os palestinos em que sempre é justificada a presença militar israelense em função do risco de ataques a bomba de palestinos. Em que momento foi possível ver diferenças entre o que vocês viam na televisão aqui e presenciaram lá?

EL - Há, realmente, uma tensão constante entre palestinos e israelenses, mas a grande questão é que essa decorre muito mais do processo de ocupação israelense do que por uma ameaça real da parte dos residentes na Cisjordânia no sentido de querer exterminar a população judaica. 

De qualquer forma - e isso eu acredito seja algo bem diferente daquilo que acompanhamos pela mídia -, existe, ainda, um consenso quase geral entre a população local - principalmente em razão do arrocho do controle de Israel depois da 2ª Intifada -  de que a violência e a extremização não são o caminho. A idéia, hoje, é a de que deve haver dois Estados, mantidas as fronteiras pré-1967, não se descartando, aliás, mesmo a existência de um só país, caso os direitos dos árabes, muçulmanos ou cristãos, sejam respeitados e haja uma efetiva participação em um regime democrático.

 

OFeaH - Vocês realizaram esse trabalho de "observadores internacionais" do conflito. Com base na experiência que adquiriram nesse assunto... Qual sua opinião em relação aos limites e possibilidades do trabalho dos observadores em relação ao conflito? É possível mudar alguma coisa?
EL - Acredito que o trabalho do observador é realmente muito limitado e, em muitos aspectos, frustrante. O grande mérito da nossa ONG, aliás, era deixar isso bem claro: nossa função era simplesmente estar na Cisjordânia, vivenciando o dia-a-dia do conflito, fotografando e comunicando todas as violações que víamos; nos fazíamos presentes em checkpoints, protestos, conversávamos com soldados, entrávamos em contato com outras organizações internacionais, mas, para além disso, a nossa capacidade de ação, de efetivamente mudar alguma coisa quando víamos uma violação acontecer, como uma demolição ou alguém sendo destratado por um soldado, era quase nula.
Entretanto, ainda assim, essa sensação de "impotência" é justamente a maior "potencialidade" desse tipo de trabalho. É isso que nos faz, por exemplo, responder às perguntas do blog "O Fato e a História" e participar da Semana Acadêmica do curso de História da FAPA; a missão o observador é justamente ver e comunicar o que viu, alertando os demais, até que, quem sabe, seja constituído um movimento maior, capaz de mudar a situação corrente. Assim, embora limitado, acredito que o trabalho do observador, seja de qual ONG for, tem a capacidade de construir algo novo.

OFeaH - Qual o papel da ONU na mediação desse conflito? e o que puderam observar de ações concretas desse órgão nas regiões visitadas?
EL - Para responder à essa pergunta, acredito é necessário diferenciar duas coisas, que poderíamos chamar de "ONU abstrata" e  "ONU concreta".
A "ONU abstrata", aquela do Conselho de Segurança, da Assembléia Geral, embora fundamentais para a resolução do conflito, realmente não têm papel relevante em termos efetivos. Aliás, o fato de não termos constituído, até hoje, um Estado Palestino, é a prova de que algo está errado, principalmente quanto à implementação das decisões tomadas por este órgão quanto a questões como a legalidade das colônias na Cisjordânia e a construção do muro em território ocupado.
No entanto, a "ONU concreta", aquela dos órgãos subsidiários, das agências especializadas, etc., por mais incrível que pareça, funciona relativamente bem. Tivemos bom contato, por exemplo, com o UN Office of Coordination for Humanitarian Affairs (UNOCHA), que tem como objetivo levantar dados acerca da situação humanitária em regiões de conflito, subsidiando o Secretariado, a Assembleia Geral e o Conselho de Segurança, por exemplo, nas medidas por eles implementadas. Outro exemplo é o UN High Commissioner for Refugees (UNHCR), agência da ONU responsável por prestar auxílio a refugiados, como aqueles que residiam em Tulkarm, que, graças a essa agência, tinham acesso a uma gama de serviços básicos, tais como educação e saúde. Além disso, também me surpreendeu as campanhas desenvolvidas pela UNICEF contra a prisão de crianças e adolescentes em prisões israelenses, que é uma situação muito grave. Quer dizer, embora a ONU pareça falhar onde precisa ser mais enérgica, no campo concreto, pelo menos, podemos ter alguma esperança.


OFeaH - Apesar das divisões existentes entre Palestinos e Israelenses no tocante a território, cultura e etc.. Sabemos que ambos coabitam uma região comum e que a manutenção da região e das sociedades que alí vivem tem de ser feita pelo estado. Como se dá o acesso dos palestinos À: Educação, saneamento, moradia, saúde e  trabalho? E quem regula estas atividades?
EL - Os acordos de Oslo, de 1993, previam a constituição gradual de um Estado Palestino, dispondo, ainda, de uma espécie de princípio cooperativo, em que as autoridades palestinas e israelenses compartilhariam informações em áreas-chave, como segurança, educação, serviços públicos, etc. Um dos símbolos desse princípio seriam os chamados District Coordination Offices (DCO), que buscariam uma coordenação entre as autoridades dos dois lados em assuntos que fossem de interesse mútuo. A realidade da ocupação, no entanto, revela que esses órgãos são meramente burocráticos, pois todos os aspectos da vida da população palestina estão, na prática, sob o controle do exército e de empresas de Israel.
Os livros usados nas escolas mantidas pela Autoridade Palestina, por exemplo, devem ser previamente aprovados pelo Ministério da Educação israelense. Isso, aliás, acaba gerando uma situação absurda, onde um mesmo Ministério pode aprovar dois livros de História com tendências completamente diferentes, um para ser usado no sistema educacional israelense, e outro para ser usado nas escolas palestinas.
Quanto ao saneamento, por sua vez, há que se ter em mente que é uma empresa israelense a responsável por vender água à Autoridade Palestina. Ou seja, essa empresa explora os recursos hídricos dos territórios ocupados e vende-os à população local, o que por si só já é absurdo. Além disso, a forma de acesso a esse bem igualmente varia conforme os interesses envolvidos: uma colônia israelense consome três vezes ou quatro vezes mais água do que uma vila palestina equivalente. Essa diferença, claro, acaba sendo notada na questão do saneamento básico; em Jerusalém, por exemplo, é gritante a diferença existente entre a infraestrutura disponível à parte ocidental, judaica, e à parte oriental, árabe, que convive com constantes faltas d'água, problemas no recolhimento de lixo, etc. Ou seja, embora todos sejam consumidores, há uma evidente discriminação nesse campo.
A moradia é outra questão complicada. Os Acordos de Oslo  dividiram a Palestina em três zonas: A, B e C. Somente nas áreas consideradas A e B, que compõem a menor parte do território, têm os palestinos liberdade para construir, enquanto na área C, sob controle civil e militar israelense, sequer é possível montar um cercadinho para galinhas sem prévia autorização do exército. Dessa situação resultam que as moradias estão concentradas em áreas densamente povoadas, com reflexos no fornecimento da infraestrutura que vínhamos falando, como educação, saneamento básico, etc.
Aliás, uma das maiores campanhas internacionais atualmente em curso para desafiar a ocupação é estimular os Estados a cooperar com a Autoridade Palestina na construção de estruturas - como escolas, infraestrutura elétrica e hídrica, etc. - em áreas denominadas C. O Brasil, por exemplo, é um país que ainda engatinha nessa matéria, estando a sua ajuda humanitária mais direcionada às regiões A e B.
O trabalho é outro aspecto cuidadosamente controlado por Israel. Como as oportunidades de emprego na Cisjordânia são reduzidas, muitos buscam do outro lado melhores salários. Para isso, no entanto, é necessário que o trabalhador obtenha prévia permissão do governo para cruzar um dos checkpoints (postos de controle) existentes na fronteira, submetendo-se a situações extremamente degradantes, tudo em nome da segurança. Aqui há outro paradoxo: o governo Israel parece tratar cada palestino como um "homem-bomba" em potencial, mas, ao mesmo tempo, não consegue ver-se dissociado da força de trabalho desses "terroristas" e do amplo mercado consumidor que ele oferece.

 

OFeaH - Quanto a estrutura política... Sabemos que Israel tem um premier, ministros e toda uma estrutura política organizada em torno do estado. Porém, como funciona essa lógica no lado palestino que não é um estado reconhecido? De que maneira se organizam politicamente?

EM - Qualquer tipo de organização palestina torna-se complicada em virtude da ocupação e da dificuldade de locomoção. Na questão política, o Tratado de Oslo de 1993, assinado por Arafat e Rabin, definiu a divisão dos Territórios Palestinos em três Áreas: A, B e C. Sendo a “C” e “B” com controle militar israelense em diferentes níveis, e a “A” teoricamente gestionada pela Autoridade Palestina (criada a partir desse tratado). Essa Área A de fato, equivale somente as grandes cidades, onde a Autoridade Nacional exerce algumas funções de estado, como saúde, policia etc. Para definir o partido representante da Autoridade Palestina (ANP), existem eleições, com diversos partidos, os mais fortes são o Fatah (Representando a corrente histórica de lutas do Arafat) e o Hamas (de cunho conservador islâmico), e à partir disso, são indicados os representantes municipais. Esse governo da ANP é o que representa os territórios nos organismos internacionais, como por exemplo, a UNESCO, Órgão em que a Palestina foi aceita em 2011.

EL - Também é curioso notar a fratura existente entre Hamas e Fatah, que de alguma forma simboliza essa consolidação do "Arquipélago Palestino". Embora a ANP seja controlada pelo Fatah, Gaza é praticamente uma unidade política autônoma gerida pelo Hamas. Aliás, há uma rivalidade muito grande entre os dois grupos; enquanto vivia em Tulkarm, por exemplo, dominada pelo Fatah, uma das piadas mais comuns, quando deixava a barba crescer um pouco mais, era se eu pretendia me filiar ao Hamas. Aparentemente cada partido tem sua base territorial bem definida, e isso dificulta o desenvolvimento de um "consenso" em algumas áreas comuns, especialmente no que diz respeito às negociações com Israel.

 

OFeaH - Do ponto de vista sócio-cultural... Israel possui emissoras de televisão privada e estatal responsáveis por uma ampla oferta de programas, rádios, jornais e toda uma estrutura de radiodifusão, notícias e entretenimento que são responsáveis pela criação, manutenção e difusão de aspectos culturais muito grandes. E no lado palestino? Existem emissoras de TV e todo esse aparato? Qual informa os palestinos? Qual a procedência do setor jornalístico?

EM - Pelo que pude observar no contato diário, os palestinos tem um hábito muito grande em assistir aos programas jornalísticos, talvez por historicamente dependerem muito das decisões políticas para o dia-a-dia, os telejornais parecem ter grande audiência. Existem sim canais palestinos, tanto privados como estatais, que informam sobre as notícias do país, recentemente, algum canais foram alvo de invasões por parte do exército israelense (http://www.brasildefato.com.br/node/8934), o que demonstra algum tipo de controle. Além disso, há uma grande influência do canal Al-Jazeera do Qatar no setor de notícias, que é sinal aberto tanto na Palestina quanto em todo mundo Árabe. No setor cultural, os canais palestinos reproduzem muito as novelas egípcias e turcas, grandes difusores culturais do Oriente Médio.

OFeaH - Como suporte a divulgação do trabalho de observador, vocês trouxeram várias fotos tiradas na região. Qual a imagem que vocês destacariam e por quê?

EL - Nos nossos últimos dias por lá tivemos um encontro entre todos os times para falarmos um pouco da experiência que nos havia sido mais marcante em termos pessoais. E eu escolhi uma. Aí, quando voltei ao Brasil, minha família me fez essa mesma pergunta e eu identifiquei outro momento. Meus amigos voltaram a me questionar acerca disso e eu referi outro fato...
Quer dizer, de um modo geral, tudo é muito marcante. No entanto, agora, se eu pudesse citar um instante fundamental para mim foi quando eu, passando uns dias de descanso em Belém, na Palestina, resolvi fotografar o muro que corta a cidade. Fazia tempo que eu não sentia uma tristeza tão grande, e foi graças aos berros de um comerciante que me convidava pra entrar na loja dele que eu consegui conter um choro que há muito tempo estava pra chegar. Acho que o muro é o resumo da paranóia da segurança, que oculta o lado trágico de uma ocupação injusta, desproporcional e desumanizadora. Era realmente opressivo saber que eu, enquanto brasileiro, poderia passar para o outro lado para aproveitar o resto do dia em Jerusalém, enquanto milhares de outros palestinos não conseguiriam fazê-lo. Mas nada dura para sempre, e o muro, um dia, irá cair.

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