Django Livre e o Mito da Princesa Isabel

09/03/2013 14:29

Walter Lippold

Meu avô João Carlos adorava o gênero western, cresci vendo filmes e revistas em quadrinhos como Epopéia Tri e Tex. Os filmes que mais me marcaram foram, em primeiro lugar o célebre Meu ódio será tua herança (The Wild Bunch, 1969) - com sua cena inicial revolucionária e de tirar o fôlego - e em segundo lugar, a história de um homem que arrastava um caixão: o Django (1966) original.  Django nasceu do western spaghetti italiano, um estranho mas potente fenômeno que se tornou popular através de diretores como Sergio Leone e os seus Por um punhado de dólares (1964) e Três homens em conflito (1966), lembrado também pelo tema clássico produzido pelo mestre Enio Morricone. Os filmes eram rodados na Europa até o final da década de 1960 quando ocorreu a decadência do bang-bang italiano.

Já neste século XXI estamos no reino da colagem pós-moderna nada mais cativante para o público do que as “homenagens” de Tarantino, este cinema-de-apud, citações de citações. Os filmes de Tarantino no início tinham um ar de submundo, produção barata e bem montada, mas sempre perpassados pelo hiperrealismo do que nos fala Žižek em seu livro Bem-vindo ao deserto do real: este gosto mórbido pela violência como sublimação coletiva consumida como mercadoria, catarse coletiva diria Fanon. Quantos riram ao ver o tiroteio em Pulp Fiction (1994) e a cena freud-fanoniana de um negro gangster sendo currado por um policial branco sado-masoquista no referido filme? Fazendo uma rápida retrospectiva dos filmes de Tarantino –  posso dizer que gostei do Cães de Aluguel, Pulp Fiction e Jackie Brown, os diálogos e situações inusitadas, roteiros e montagem interessantes. Fora as trilhas sonoras que sempre foram melhores que os filmes.

Já quanto ao Django Livre (Django Unchained[1], 2012) não posso dizer o mesmo. Com um roteiro fraco se comparado às suas outras produções -apesar do Oscar que ganhou por Roteiro Original - o que se salvou do filme foram a fotografia e a montagem, um dos talentos de Tarantino. Algumas atuações salvaram-me da perda total de duas horas e vinte e cinco minutos de vida que fiquei no cinema, principalmente a de Cristoph Waltz, que ganhou o Oscar de ator coadjuvante, mesmo que a sua atuação em Django Livre tenha sido ofuscada por sua interpretação do odioso nazista em Bastardos e Inglórios, muito mais merecedora de premiação.

Quando comecei a ver o filme logo me aparecem na cabeça (a imagem como funda de imagens) outros dois filmes da época do blaxploitation[2] na década de 1970 nos Estados Unidos:  The Legend of Nigger Charley (1972)[3] e  Boss Nigger (1974)[4] ambos com Fred Willianson. Tarantino quando era jovem ia até os bairros negros onde via filmes de blaxploitation,  “movimento” em que se firmou um cinema que de certa forma explorava a estética negra como mercadoria. Contraditoriamente este cinema blaxploitation trazia o protagonismo negro, heróis e antiheróis, rompendo com aqueles filmes onde o negro sempre morria, uma identidade positiva e ativa de-si.

O criador deste gênero, Melvin Van Peebles conta que quando da estréia de seu filme Sweetback Badassss Song (1971) [5], uma senhora negra agoniada pedia em voz alta que o protagonista do filme não morresse nas mãos dos policiais. Ela pedia isto, segundo o diretor, pois estava acostumada com filmes onde o negro não tinha protagonismo e geralmente morria, geralmente o primeiro a morrer, principalmente em filmes de suspense. No fim do filme quando Sweetback, o protagonista, consegue viver, Melvin viu que a senhora explodiu de alegria junto com a plateia. Escrevo isso sobre o blaxploitation pois Tarantino bebeu nesta fonte, inclusive contratou atores da época que ficaram nos ostracismo durante anos, jogados como peças de engrenagem velha após Hollywood se dar conta que o público negro enchia as salas para ver O Poderoso Chefão (1972)e portanto não era preciso investir no cinema negro. Por que investir no subgênero blaxploitation se os negros consomem os “filmes de brancos”? Simplesmente , de repente, diretores, atores, produtores ficaram sem emprego por muito tempo. A atriz Pam Grier, que atuou na homenagem de Tarantino ao cinema negro dos anos de 1970, o filme Jackie Brown (1997) ficou famosa no cinema blaxploitation; Fred Williamson, que atuou em The Legend of Nigger Charley e Boss Nigger, faz algumas aparições como em Drink no Inferno (1996). Estas influências de Tarantino, jovem branco frequentador de cinemas de bairros negros está presente com toda força em Django Livre, mas com um porém: o que chamamos no Brasil de Mito da Princesa Isabel, ou mito da redenção negra pelo branco, pesa no filme.

No blaxploitation os brancos são sugadores do bairro negro, roubam, exploram, são policiais violentos e corruptos e possuem alguns aliados negros nesta empresa odiosa. Enfim, numa inversão, como pensava o tunisiano Albert Memmi sobre a dialética do colonizado e do colonizador, a mitologia racista expressa no cinema é agora combatida como uma contra-mitologia do colonizado, é uma identidade positiva de-si, uma negação da negação empreendida pelo colonizador. Caleban desbancando Próspero. Já no filme Django Livre, o negro encontra a liberdade pela mão do branco mais uma vez, no início Django é um joguete em um plano do dentista caçador de recompensas Schultz; depois, através de negociações em prol da liberdade eles acabam tornando-se parceiros na empresa de caça a bandidos. A luta de Django contra o escravismo é uma vingança pessoal proporcionada por um branco europeu que não gosta do escravismo e aparentemente do racismo, não é uma luta coletiva, uma irmandade que compra alforrias, um quilombo, uma fuga em massa.

Como sempre Tarantino abusou da palavra proibida nigger o que fez mais uma vez Spike Lee - que já havia criticado o filme Jackie Brown pelo uso excessivo da palavra - em seu twitter postou isso sobre o Django Livre: “A escravidão nos Estados Unidos não é um western spaghetti de Sergio Leone. Foi um holocausto." e numa entrevista para a Vibe ele declarou: “Eu não vou falar sobre o filme, porque eu não o verei. Tudo o que posso dizer é que assistir ao filme seria desrespeitoso aos meus ancestrais.” O ator Jamie Foxx, que atuou como Django, chamou Spike Lee de irresponsável em sua crítica e quanto ao uso da palavra nigger em seus filmes, Tarantino respondeu que não era ele falando e sim seus personagens. Realmente parece que os negros são infantilizados e imbecilizados no filme, principalmente na cena de introdução à fazenda sulista. Por outro lado o filme traz a tona uma tendência atual da historiografia do escravismo, a negação da reprodução do escravismo como violência pura apenas, mas também forjada por consenso e negociação entre senhores e cativos.

No meio do filme vi várias pessoas saindo da sala de cinema, cena rara de observar, ainda mais hoje com cinemas tão caros... Fiquei pensando, matutando, imaginando porque várias pessoas deixaram o filme? Era muito violento? Muito longo e cansativo? Não suportaram ver um negro batendo e matando brancos? Não sei, mas foi um fenômeno estranho. Amigos negros me relataram que gostaram de ver o negro escravizado indo a forra contra seus algozes brancos. Talvez a crítica que o Movimento Negro fazia ao Blaxploitation, apesar dos Panteras Negras defenderem o filme pioneiro de Melvin Van Peebles, caiba ao Django Desacorrentado: é que este gênero fazia a libertação simbólica do negro na tela do cinema e de certa forma era o início do retrocesso do esvaziamento do movimento real dos afro-americanos, a década do Black Power politizado dava vazão aos anos de 1970, onde a estética negra era dissociada da política negra.

Notas

[1] A tradução Django Livre perde um pouco do peso do título original, pois Unchained seria desacorrentado, assim como Prometeu Acorrentado (Ésquilo) e Desacorrentado ( David Landes).

[2] As informações sobre o fenômeno Blaxploitation foram retiradas do documentário BaadAsssss Cinema: A Bold Look at '70s Blaxploitation Films dirigido por Isaac Julien, onde vimos as entrevistas de Melvin Van Peebles, Pam Grier, Fred Williamson e Quentin Tarantino. No Youtube temos o Doc inteiro, mas sem tradução por enquanto.  Ver aqui http://www.youtube.com/watch?v=-9wdJ_lnMws

[4] Ver trailer do filme e comparar com o Django Livre: http://www.youtube.com/watch?v=bTIklFsMjjU .

 

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