Livro #nãodesaprendemosasonhar - Crise de Representação e seus Efeitos na Mídia de Massas

20/12/2013 08:20

#naodesaprendemosasonhar

O livro de Jorge Leão expõem o que sua lente captou das manifestações de junho na cidade de Porto Alegre. Jorge Leão já participou de outros momentos importantes como a greve do magistério em 1985 e o "Fora Collor" entre outros momentos marcantes da história na capital gaúcha, mas desta vez, a preocupação deste fotógrafo não foi apenas fazer um mero registro das manifestações mas captar as reinvidicações e os sentimentos de quem foi para a rua para protestar. Este livro é um registro vivo deste momento histórico de uma história recente que ainda está para ser interpretada com um olhar mais distanciado temporalmente. Além das imagens a obra reúne uma coleção de textos escritos especialmente para esta publicação, são textos que se arriscaram a interpretar este momento no calor dos acontecimentos.  

Entre essas reflexões temos a participação do editor d'o Fato e a História Davenir Viganon que foi convidado a participar contribuindo com um dos textos publicados na obra. O texto a seguir é a sua contribuição para este livro.

A obra pode ser adquirida diretamente com o autor, que pode ser contatado através de email -  angulodevisao@gmail.com - ou pelo seu perfil no Facebook Jorge Leão.

Crise de Representação e seus Efeitos na Mídia de Massas

Davenir Viganon

“Trata-se de um momento da vida nacional que encerra lições apreciáveis. É quando processos de comunicação jogam o papel decisivo, catalisando o desejo das multidões ou expressando as contradições das forças em confronto. Num primeiro estágio, a centelha da indignação popular espraia-se pelo país inteiro, sem que os meios de comunicação de massa refletissem ou a respaldassem. Cai por terra, ai, a crença no superpoder dos mass media, tidos como capazes de moldar consciências, ditar comportamentos. O povo emocionado improvisa formas contundentes de comunicação que superam até mesmo os instrumentos convencionais acionados pelas lideranças políticas[1]”.

- José Marques Melo em 1985 sobre o movimento dasDiretas já!”.

Observar de perto a massa de manifestantes nos protestos em junho em Porto Alegre me fez desejar profundamente que os participantes, em especial aqueles denominados “pacíficos”, quando voltassem para casa refletissem sobre o gás lacrimogêneo que inalaram, armas de uma polícia violenta; que também estavam protegendo o prédio da RBS que por sua vez incentivou através de seus meios que os “pacíficos” deveriam abaixar-se para que a polícia pudesse visualizar os “vândalos”.

Quantos têm ideia de que é esta mídia que repudia qualquer radicalização da democracia que a mesma que trabalha para a manutenção do status quo? A grande maioria ainda recebe inocentemente as noticias sem questionar seus mediadores, mas neste momento cresce a desconfiança em relação aos veículos de comunicação e foi a cobertura das manifestações que evidenciaram uma necessidade de estabelecer um debate não apenas sobre a notícia mas sobre quem dá a notícia. Não apenas aqueles que aparecem na fotos ou nos vídeos, mas aqueles que produziram tais materiais também foram vistos como atores políticos nas manifestações.

No mês de junho a mídia tradicional foi lançada subitamente em meio a ebulição dos acontecimentos, retirando-a de seu altar de imparcialidade. As diversas interpretações que se mostraram tentativas torpes de rotular os manifestantes, desmoronaram com a fluidez dos acontecimentos, e da diversidade de sua composição ideológica, evidenciou a inconsistência do discurso dos jornais e telejornais. A mudança brusca de opinião de Arnaldo Jabor e a “derrota” de Datena em sua enquête tendenciosa ao vivo em seu programa são momentos que expuseram esses “porta-vozes” da mídia, apresentados como opinadores ocasionais, ao ridículo.

A cobertura jornalística da mídia tradicional buscou ignorar o quanto possível a movimentação popular e quando não foi mais possível buscou delimitar e rotular o fenômeno para controlá-lo politicamente. É verdade que obtiveram sucesso em retirar a grande massa das ruas, fazendo-os ficarem temerosos da violência, mas os diversos movimentos, que continuam firmes, passado o boom de junho.

Os repórteres da mídia corporativa, enquanto a massa ainda tomava as ruas em junho, encontravam espaço onde podiam emplacar seu discurso maniqueísta de “vândalos x pacíficos”, mas quando as massas se dispersaram passaram eles a serem considerados personæ non gratæ nas ruas ocupadas e as coberturas jornalísticas passaram a ser feitas, cada vez mais, à distância das sacadas de prédios e de helicópteros.

As ruas manifestaram - e ainda manifestam - a crise de representação política, mas também se mostram uma crise de representação da mídia, na medida em que este passava a ser visto mais claramente como ator político. A democracia como um todo, do modo como é conduzida em nosso país, está sendo questionada o que evidencia que não se trata apenas de uma crise do governo do PT, uma vez que este governou em continuidade sob vários aspectos em relação ao governo anterior de FHC, - no qual destacamos a manutenção do poder da mídia - mas que o sistema democrático resultado da redemocratização em fins dos anos 80 estava em crise.

Esta democracia foi resultado de um lento processo se transição, conduzido pelos militares, culminando num acórdão inaugurando o período que chamamos de Nova República. A mídia passou ilesa em sua característica oligopolizada e plutocrática.

A redemocratização manteve os setores privilegiados da sociedade civil assumindo completamente a política no país enquanto os militares retornaram aos quartéis[2]. Os barões da mídia, como parte desses setores, por sua vez não só permaneceu no controle das comunicações do país como também teceram sua teia em diversos níveis da política brasileira. Como consequência da manutenção desses “latifúndios midiáticos” a próprio processo democrático já recomeça comprometido  apesar das eleições livres, através do Marketing Político, que já era uma realidade em paises que estavam passando pelo mesmo processo de abertura e redemocratização[3], a mídia passou a ter uma forte influência nas decisões políticas frente a população, como pudemos notar nas atribuladas primeiras eleições presidenciais e o processo de impeachment de Collor. Desde então o período democrático atual, o maior em toda nossa história - 24 anos -, passou sobre a constante influência da imagem para a política e de um discurso moralizante que sempre acompanhou as forças reacionárias do país. Este discurso embandeirado pela mídia no “combate a corrupção” enxerga a classe política como o elemento máximo das mazelas do país, retirando seu caráter sistêmico do capitalismo e atingindo o sistema democrático como um todo.

Devemos levar em consideração esse pequeno histórico da mídia no País para entender melhor as manifestações em junho. Uma crise de representação da democracia que por sua vez foi resultado de uma reforma no sistema político, benéfico por instituir eleições livres, que apesar disso, está entrando em crise pelas próprias contradições que vão contra a democracia justamente pelas estruturas que se mantiveram intactas no acórdão democrático de 89, entre elas a mídia e a polícia, são as instituições que mais reprimem e repudiam as manifestações, a segunda aberta e fisicamente e a primeira distorcendo e descontextualizando-a. Fica mais claro perceber que os protestos em junho se transformaram numa “grande feira de reivindicações populares[4] que se estendem, no leque político, desde o desejo de uma a volta da ditadura até uma radicalização da democracia.

Entre coletivos e jornalistas ativistas da comunicação, que lutam por uma democratização da mídia, buscam que no mínimo a pauta seja estabelecida para a sociedade. A crise de representação do discurso midiático da imparcialidade estende-se por uma crise material, que tem afetado em especial a mídia impressa com demissões cada vez mais frequentes e o encolhimento do mercado jornalístico. Não se trata de um fenômeno exclusivamente brasileiro. Ignácio Ramonet, mesmo longe dos eventos no Brasil deixa bem claro que:

 “Os grandes meios de comunicação representam um real problema para a democracia. Eles não contribuem mais para ampliar o campo democrático, mas para restringi-lo e mesmo para pretender substituí-lo. Os grupos midiáticos se tornaram os cães de guarda da desordem econômica estabelecida. Esses grupos se tornaram os aparelhos ideológicos da globalização. Eles não se comportam mais como meios de comunicação mas sim como partidos políticos. Eles se ergueram à condição de oposição ideológica”.[5]

Na França assim como no Brasil, a mídia também é propriedade de poucas famílias, mas no mesmo artigo, Ramonet vê uma ponta de esperança quando diz que, “em um mundo cada vez mais complexo, em busca de referências, a imprensa escrita de qualidade, que permite a diminuição dos pontos de vista expressos honestamente, as análises aprofundadas, tem um belo futuro diante de si[6]. Nesse quadro emerge as mídias alternativas que há muito tempo atuam e lutam por espaço, e ganharam mais destaque a partir de junho. Com a rejeição da mídia corporativa dentro das manifestações, a mídia alternativa teve em julho um marco considerável, na ocasião em que o tradicional Jornal Nacional, teve de usar o material da Mídia NINJA (Narrativas Independentes Jornalismo e Ação) para veicular uma reportagem, em outras palavras, a Globo foi constrangida a utilizar a Mídia NINJA como fonte. Após esse acontecimento os NINJAs ganharam destaque nacional e logo depois ganhou também, junto com grupo de ativistas culturais Fora do Eixo, uma série de acusações veiculados fartamente pela mídia corporativa, baseados no mesmo discurso moralizante característico de que “se entra nisso tudo apenas para ganhar dinheiro, poder e nada mais”. Se tais acusações surtirão o efeito desejado, só futuro vai dizer.

O importante no momento é observar com um mais de atenção esta nova proposta de mídia pelo seu potencial democrático e não pelo cunho moralizante para assim ter uma noção mais nítida da ameaça que este grupo representa para o modo batido de mídia que consumimos atualmente. Quem sabe não é esta a mídia que fará com que aqueles manifestantes reflitam sobre a polícia e a própria mídia?

Notas

[1] MELO, José Marques de. (Org.). Comunicação e transição democrática. Mercado Aberto. Porto Alegre, 1985. p.6.

[2] FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp, 2000.

[3] O filme “NO” de Pablo Larraín (2012) retrata este momento no qual o Chile estava em seu processo de redemocratização e a influência do Marketing Político no processo.

[4] BAPTISTA. Daniel. Quando o caldo começa a entornar. In: O FATO E A HISTÓRIA. Jul, 2013. Disponível em: http://ofatoeahistoria.webnode.com/news/quando-o-caldo-come%c3%a7a-a-entornar/

[5] RAMONET, Ignácio ."L'Explosion du journalisme. Des médias de masse à la masse des médias. Em: http://www.editions-galilee.fr/f/index.php?sp=liv&livre_id=3333 Acesso em: 8/8/2013.

[6] Idem. RAMONET.

 

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