Considerações sobre as recentes transformações internacionais

07/08/2014 08:57

Gabriel Graziottin

Observamos pelo noticiário internacional, nos últimos meses, o crescente atrito entre os Estados Unidos e a Rússia no que se refere às instabilidades diplomáticas, e também o papel da velha Mídia em demonizar o que parece ser o mais “novo inimigo”: Vladmir Putin. Mas o que, afinal, está acontecendo no tabuleiro das potências? Estamos revivendo uma Guerra Fria? Realmente será que os EUA não escrevem mais sozinhos as “regras do jogo”? É também possível acreditar numa reautonomiaeuropeia no meio dessas rosnas? Algumas considerações internacionais são válidas nessa (des)ordem mundial de incessantes transformações.

Há anos (acentuadamente na administração Obama e Putin) a Rússia e os Estados Unidos trocam farpas, ameaças e competem por zonas de influências – e países – num cenário bastante semelhante à Guerra Fria, com a exceção de inexistir a antiga União das repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) como pólo alternativo ao sistema capitalista norte-americano. Líbia, Síria, recentemente a Ucrânia, e até Cuba e a Palestina são exemplos de discordância entre estas grandes potências, uma em visível declínio hegemônico e outra, reemergente no jogo geopolítico internacional.

 Por interesses geoestratégicos, a Rússia, comandada por Vladmir Putin, atua como um freio às investidas norte-americanas, utilizando o seu poderoso exército para dissuadir os interesses imperialistas de “Velho Sam”. [1] Paralelamente a isso, esse “urso russo” vem rearticulando seu antigo eixo de cooperação eurasiano, para o pavor de Washington. Desse modo, a Rússia, irrefutavelmente, é o país que defende uma ordem multipolar ao levantar seu peito novamente contra os Estados Unidos, e paga certo custo com isso.[2],

Outro fator importante que vem sendo vislumbrado pelos analistas internacionais é o recente papel pragmático da União Europeia e de países como a Alemanha e a França, em menor proporção, no tabuleiro internacional. Decorrente dos escândalos norte-americanos de espionagem a líderes europeus,novos arranjos de cooperação político-econômicos, incluindo Moscou (até as tratativas de um acordo de livre comércio com o Mercosul) e a expansão das fronteiras da Europa Ocidental para a Oriental, a“VelhaEuropa” parece limpar a própria poeira e se reerguer frente a estrita dependênciada “águia norte-americana”, contrariando a permanência perpétua de submissão pós-Segunda Guerra.

A atuação recente da Europa pode ser considerada como crescente autônoma de países até então amarrados aos interesses norte-americanos. Um exemplo disso é a irritação de países europeus quando Washington exige que estes sigam, obedientemente, as suas sanções contra a Rússia, prejudicando milhares de empresas alemãs.

Não precisa de muito esforço para qualquer observador perceber que quando os Estados Unidos não conseguem mais intervir unilateralmente em determinadas regiões do mundo, derrubar antigos “regimes bandidos”, observar os antigos parceiros gradativamente escaparem de sua antiga zona de influência, e um poderoso urso russo ter acordado e saído de sua caverna, que esse não escreve mais sozinho as “regras do jogo”. Não esqueçamos que um“dragão” no leste-asiático, de maneira mais sutil que o urso no tabuleiro internacional, se fortalece regionalmente cada vez mais. O mundo está muito grande para uma águia só.

Referências

ADAM, Gabriel Pessin. A Federação Russa: metamorfose de uma potência reemergente. In VISENTINI, Paulo;ADAM, Gabriel Pessin; SILVA, André; PEREIRA, Analúcia :BRICS: As potências emergentes. Vozes: Porto Alegre, 2013.p. 39-75.

FIORI, José Luís; MEDEIROS, Carlos; SERRANO, Franklin. O mito do colapso do poder americano. Record: Rio de Janeiro, 2008.

LUKIN, Alexander. What the Kremlin is Thinking: Putin’s vision for Eurasia. In: ForeignAffairs. July/August. 2014. Essay.

PAUTASSO, Diego. China, Rússia e a integração asiática: o sistema sinocêntrico como parte da transição sistêmica. In: Revista Conjuntura Austral, v. 2, n 5, abri.mai. 2011, p.45-60.

SOUZA, Hugo R. C. Ucrânia: o imperialismo é a guerra, em tempo real. In: A Nova Democracia. Mar. 2014. Disponível em: http://www.anovademocracia.com.br/no-127/5253-ucrania-o-imperialismo-e-a-guerra-em-tempo-real

TODD, Emanuel. Depois do Império.Rio de Janeiro: Record, 2003.     

WALLERSTEIN, Immanuel. Alemanha e EUA: distanciamento sem precedentes. In: Página 13. Julho. 2014. Disponível: http://www.pagina13.org.br/internacional/alemanha-e-eua-distanciamento-sem-precedentes/#.U9W0geNdU_w

Notas

[1]  Não é errôneo descrever o comportamento atual de Washington como imperialista, em um cenário mundial que demonstra crescentemente o uso da força e a defesa unilateral de seus interesses, mesmo quando não mais possível. Segundo Fiori, Medeiros e Serrano (2008), de 1947 a 1970, os EUA exibiam uma hegemonia benevolente; de lá para cá atuam num imperialismo agressivo.

[2] Sanções econômicas e suspensão em rodadas diplomáticas como o G7 é um exemplo disso.

 

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