Conflitos na Coréia: os outros lados da moeda

04/04/2013 09:31

Gabriel Graziottin

“News” da Coréia do Norte: o perigo se aproxima

Estamos acompanhando pela mídia ocidental nos últimos dias as provocações e o clima de tensão supostamente gerado pele Coréia do Norte [1] no Leste asiático, provocando um forte clima de instabilidade para o seu vizinho, a Coréia do Sul [2] e para os Estados Unidos. E mais recentemente, nesse dia 30 de abril de 2013, a declaração de estado de guerra da Coréia do Norte para com a Coréia do Sul e os Estados Unidos. As poucas informações que nos são despejadas pelos principais veículos de comunicação – e por si só, conservadoramente tendenciosos – do governo socialista do jovem Kim Jong-um, nos levam a crer que o país por si só está tomando atitudes drásticas à segurança internacional, aqui representada pelos países acima assinalados.

Entretanto, ocultam um conjunto revelador de informações referente às medidas e prejuízos causados pela ONU e os Estados Unidos ao país nos últimos anos, ou, mais ferozmente, nos últimos meses. Assim, este artigo pretende apontar uma série de “contra-informações”, baseadas em análises acadêmicas, leituras geoestratégicas e opiniões distintas diante desse cerco midiático envolta de uma possível guerra coreana.

Tropas norte-coreanas em clima de tensões militares[3]

Os outros lados da moeda: os movimentos não tão expostos

Quando se aborda a questão de tensões internacionais entre a Coréia do Norte, do Sul e Estados Unidos, não se deve levianamente descartar todo um bojo de questões relacionadas à Guerra Fria, os conflitos regionais, a ingerência do “outrora novo e jovial Tio Sam” e seus reais interesses para com a região. De maneira sintética, o conflito originou-se pala Guerra da Coréia e a separação entre os dois Estados criados em 1948, na disputa entre norte-americanos e soviéticos. A Coréia do Sul, desse modo, virou um protetorado norte-americano, permanecendo até os dias de hoje. [4]

Assim, as feridas da Guerra Fria permanecem abertas até hoje, mesmo findado esse período histórico. A incapacidade de unificação entre os dois regimes pode ser destacado como um dos principais fatores, incluindo as constantes e infrutíferas tentativas do Norte, refreado, é claro, pelos interesses ocidentais.

Essa nova Guerra na Coréia pode ser observada nos últimos anos dois movimentos geopolíticos paralelos. Primeiramente, no Extremo-Oriente, mais especificamente situado no Leste-asiático, a ascensão econômica dos países, impulsionado pela China, fazendo com que os Estados Unidos dêem um destaque maior em suas estratégias para a região. Atrelada à esse desenvolvimento, a Coréia do Norte tem se aproximado desta, com o foco de se beneficiar com essa relação, com uma gradual abertura externa, investimento e desenvolvimento interno. Conforme Vizentini:

“De fato, um dos principais impulsos que a Coréia do Norte tem para tentar novas reformas de abertura econômica, atualmente, á a implementação do Plano Chang-Ji-Tu, projeto endossado pelo governo central chinês em 2009, que prevê a criação de ZEEs[5] nas regiões de Changchun, Jilian e Tumen, localizadas no nordeste chinês, na tríplice fronteira com a Rússia e a Coréia do Norte.” (VIZENTINI, 2012, p. 149).

Assim, por meio dessa relação com o ascendente “dragão asiático”, a Coréia do Norte procura sedimentar as suas reformas econômicas, com o otimismo de seu crescimento econômico iniciado em 2011, fazendo-a seguir o modelo chinês de desenvolvimento econômico gradual para uma abertura.

Esse fortalecimento das relações entre os dois países preocupa Washington, principalmente pela questão da autonomia da Coréia do Norte e da possibilidade de um governo socialista se recuperar dos anos de pobreza com o auxílio chinês. A Coréia do Norte constantemente nos últimos anos vem tentando reformular a sua economia, e o pior, demonstrando uma autonomia bélica que aterroriza a Casa Branca.

O segundo movimento constitui-se por um desgaste da credibilidade internacional dos Estados Unidos, como exemplo: incapacidade de resolver o conflito entre palestinos e israelenses, a incerteza no cerco político-econômico-militar ao Irã, e principalmente o fracasso da Guerra do Iraque. Desse modo, os EUA gradativamente estão reduzindo a sua presença bélica no Oriente Médio para se deslocarem a um espaço geoestratégico muito mais dinâmico e com um crescimento desenvolvimentista “assustador”. Combinado a uma redução de seus gastos militares, a águia se desloca para o pacífico, se aproveitando de conflitos regionais para pousar as suas “garras”. Conforme afirma Raymond T. Odierno, chefe do Departamento de Exército dos Estados Unidos:

“The service will have to adjust to three major changes: declining budgets [...], a shift to emphasis to the Asia-Pacific region; and a broadening of focus from counterinsurgency, counterterrorism, and training with partners to shaping the strategic environment, preventing the outbreak of dangerous regional conflict […]. (2012).” [6]

A Coréia do Norte, como regime hostil a Washington na região, é a que mais vem sofrendo com o recrudescimento da presença do Tio Sam, já impossibilitada de efetivar uma unificação com o seu vizinho e implementar algumas reformas econômicas, esta é rechaçada pela Comunidade Internacional e pela ONU[7] com fortíssimas sanções e constantes provocações militares de Washington e Seul[8] nas bases militares da Coréia do Sul e no Oceano Pacífico. É inegável que a Coréia do Norte carrega consigo um arsenal nuclear que causa insegurança aos seus vizinhos, porém, esta tem consciência, de que sem proteção e defesa nuclear, seu destino estará fadado como o Afeganistão, Iraque e Líbia, não podendo possuir autonomia política, como aponta Gabriel Martinez.

As mudanças e os novos posicionamentos do líder Kim Jong-um são motivadas pelo endurecimento das sanções internacionais ao seu país, decorrente de seus testes militares, que por si só, são decorrentes da necessidade de garantir uma proteção e autonomia militar frente às provocações norte-americanas e sua “protetorada” [9] Coréia do Sul. Através de uma análise mais aprofundada das mudanças mundiais e dos movimentos do Pentágono, pode-se afirmar que é vital para os EUA assegurarem o seu controle militar sobre as bem sucedidas economias sul-coreanas e japonesas, com um sistema antimísseis apontado para ninguém menos que a Rússia e a China, com legitimação na ameaça exagerada de uma Coréia do Norte controlada por fanáticos inconsequentes.

Desse modo, quando acompanhamos diariamente essa nova guerra na Coréia pelas notícias midiáticas, deve-se sempre ter essas “contra-informações” em mente para não nos reduzirmos a simples telespectadores manipulados pela mídia ocidental. A Coréia do Norte deve ser lida através de si mesma, e das transformações econômicas recentes vividas pela Ásia e, pelo “novo” movimento geopolítico dos Estados Unidos. Conforme nos ensina Emmanuel Todd (2003), fixar-se em micropotências, como Iraque, Irã, Coréia do Norte, Cuba, etc. é única maneira de os EUA continuar politicamente no centro do mundo. Enfrentar atores menores para legitimar o seu papel mundial, propagando a ilusão de um planeta instável e perigoso, é o seu papel, com seus limitados recursos econômicos, militares e ideológicos.

Referências

LOCATELLI, Piero. Jovens brasileiros disseminam apoio à Coreia do Norte. Jovens brasileiros disseminam apoio à Coreia do Norte. Carta Capital, 2013 mar. 28; Caderno Sociedade, v. 742. Disponível em: http://www.cartacapital.com.br/sociedade/jovens-brasileiros-disseminam-apoio-a-coreia-do-norte/.

ODIERNO, Raymond T. The U.S. Army in a Time of Transition. Foreign Affairs, May/June, 2012.

OPERA MUNDI. Disponível em: http://operamundi.uol.com.br/.

VIZENTINI, Paulo Gilberto Fagundes; PEREIRA, Analúcia Danilevicz; MARTINS, José Miguel Quedi; RIBEIRO, Luiz Dario Teixeira; Grohmann, Luis Gustavo Mello. Revoluções e regimes marxistas: rupturas, experiências e impacto internacional. Porto Alegre: Leitura XXI, 2013.

TODD, Emanuel. Depois do império. Rio de Janeiro: Record, 2003.


[1] Em seu nome oficial, República Democrática Popular da Coréia.

[2] Ou República da Coréia.

[4] Incluindo as bases militares dos EUA no país.

[5] Zonas econômicas especiais.

[6] “O serviço terá que se ajustar a três maiores mudanças: orçamentos reduzidos [...], um deslocamento com ênfase na região Pacífico Asiático, e ampliação de foco da contra-insurgência, contra terrorismo, e treinamento com parceiros para moldar a estratégia geográfica, prevenindo o surto de conflitos regionais hostis”.

[7] Controladas e mobilizadas pelos Estados Unidos.

[8] Capital da Coréia do Sul.

[9] Para não dizer marionete.

 

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