Com a paciência torrada por super-heróis da vida real

29/10/2013 08:26

Daniel Baptista

Andou por aí uma notícia de uns beagles que foram resgatados de um laboratório em São Roque, São Paulo... Ok, a notícia já está meio fria (10 dias? Bom, nesse mundo cada vez mais veloz e ávido por consumo, chegaremos ao ponto de que notícias e fatos se tornaram obsoletos em 10 minutos...) fato que só agora pude refletir a cerca do acontecimento e para o desagrado de muitos e felicidade de poucos, também resolvi dar minha opinião. Mais uma entre milhões das emitidas desde então...

Vou deixar bem claro o seguinte: não faço apologia à violência, nem ao abuso de ninguém, tampouco a animais de estimação, mas não é incrível como se aflora a solidariedade quando se trata de bichos de quatro patas, uns latem, outros miam e outros relincham? Necessariamente nessa ordem, mas com uma disputa acirrada entre os dois primeiros...

O caso é que uma matilha de seres humanos vociferou, espumou, bradou (atrás do computador, claro!) que era um absurdo, uma safadeza, uma maldade e outras séries de adjetivos que caracterizam a brutalidade... Lá foram os valentes super-heróis do cyber espaço combater as forças malignas dos malvados laboratórios e salvar os indefesos beagles (os ratos continuam lá!)  das forças terríveis e obscuras das mentes humanas. E assim se encerra mais um episódio, os valentes super-heróis podem dormir tranquilamente, pois fizeram a sua boa ação do dia, mas continuem zelosos bem feitores!  Há muitos bichinhos por aí para vocês salvarem e vomitar arco íris em cima!

Depois de debochar um pouco da situação, o que me deixa espantado não é o tal salvamento dos cachorros, mas sim a mobilização e a repercussão que isso deu. Pelo tom já sabem aonde eu quero chegar não é mesmo? E é isso mesmo! Engraçado que muitos se comovem com um cavalo levando relhadas,  por exemplo, mas não se comovem com o homem e as crianças que estão em cima dessa carroça hipotética. Já abordei outra vez aqui mesmo que estão fazendo um esforço para tirar as carroças de circulação de Porto Alegre, e em algumas Capitais o bicho já está pegando - para quem vive e depende dos veículos de tração animal. O argumento é de que as carroças atrapalham o transito e o tratamento é desumano aos cavalos... Esse é ponto que queria chegar! Quando nós damos tratamento humano a cavalos, cachorros, coelhos e sei lá mais o que e deixamos de humanizar as relações com seres de nossa própria espécie, sim, estamos muito doentes mesmo... Aliás, é fácil para esses chatos de plantão se prevalecer em cima de carroceiros semi analfabetos e com uma renda inferior a um salário mínimo, vão lá reclamar dos cavalos encurralados na ExpoInter, ou das vacas e bois laçados em rodeios para ver o que acontece...

Um cachorro você pode abraçar, falar que nem um bebê e ainda, falar como se estivesse falando com um bebê, você pode rolar com ele e fazer cara de “óóóiiinnn!!!” com alguma traquinagem dele... Depois você enjoa e vai embora, para a frente do PC pedir a morte de presidiários, reclamar dos impostos, do Playstation, do ônibus, de deus e sabe mais lá do que... Com os pobres e marginalizados você não pode fazer o mesmo porque eles, tem vontade própria, independência, inteligência e irão te questionar diversas vezes, provavelmente reclamarão que você só está o usando quando você vai lá se esfregar nele... E vou além... Para mudar a situação desses seres humanos que a sociedade animalizou é necessário mudar muita coisa na estrutura da sociedade, isso implica sim em certos confortos e pequeninos luxos e conquistas individuais que os mesmos defensores dos pobres e inocentes beagles jamais abririam mão. A solidariedade mostrada por esses ativistas não passa de um remédio que limpa a consciência e faz você dormir com a sensação de missão cumprida, tenho orgulho de mim e todos me admiram.

Esse tipo de ação só nos mostra o quanto estamos nos tornando individualistas, mais frios aos dramas do ser humano igual e cegos por um surto de militância, onde nestes tempos em que estamos vivendo, militar em algo virou uma questão até de definir personalidade, caso não se faça nada a respeito, sua vida não tem sentido ou em piores circunstâncias você está démodé. Milite por algo nem que seja para salvar as rosas brancas do Himalaia. Ora amiguinhos, mas o mais engraçado dessa relação mesmo, é que os mesmos defensores de cachorros, gatos, cavalos e outros quadrúpedes – às vezes algumas aves – são os mesmo que depois irão tomar banho e se lavar com sabonetes e shampoos testados em macacos, para matar a fome irão a uma lanchonete comer um pão com alface, cebolas, tomate e uma massa composta de pedaços mil vacas comprimidas ali, caso passe mal com a refeição, vai tomar um comprimido que foi testado anos a fio em ratinhos antes que ele pudesse ir para as prateleiras. Vão entrar em um veículo que contém partes de outras tantas vacas e na sinaleira vai fechar o vidro para o primeiro malabarista de laranja que vier encher o saco... Porque, talvez seja por que ele não está sendo violentado em uma indústria farmacêutica ou química e creio que, nem assim algum super-herói da vida real iria resgatar ele. Ah! Ia me esquecendo! Os mesmos homens e mulheres que ficaram chocados e traumatizados com a história dos beagles  - anda circulando por aí – sugeriram que os testes de medicamentos, remédios e sei lá mais o que, sejam testados em presidiários!!! Igualzinho aos nazistas que realizaram essa prática com os judeus... Como são gentis, justos, fofuxos e “gente do bem” esse povo não é?

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