Charles Bukowski, a imagem roubada

22/04/2013 21:54

Marcos Belmonte

Charles Bukowski, o velho safado, nasceu em 1920 em Andernach, na Alemanha e veio com seus pais para os Estado Unidos da América do Norte aos 3 anos de idade, onde morreu em 1994, aos 74 anos. Sua família sempre fora pobre e suas lembranças dos anos da crise de 29 e da Segunda Guerra Mundial são expostas em algumas de suas obras, onde, os EUA e o mundo passaram por essas crises da maneira problemática que vemos em filmes, documentários, fotos e etc. Os registros mais notórios desses períodos são os de caráter político, ou seja, o movimento macro que se estabeleceu para contornar a pior crise financeira que afetou o mundo inteiro. Alguns escritores trataram de criar suas obras retratando o sofrimento das classes menos abastadas desses períodos, como John Steinbeck, que retratou os efeitos na crise de 29 em sua As Vinhas da Ira. Alguns outros escritores membros da geração Beat, a contracultura americana, onde, grande parte acabou por conhecer autores como Marx e Freud, desenvolveram um forte senso político, e isso aparecia em suas obras de forte caráter social.

Charles Bukowski. Um dos maiores escritores “Malditos”

Bukowski passou anos iniciais de sua adolescência enfrentando empregos simples que o faziam perceber a pobreza onde as pessoas estavam enterradas e a falta de perspectiva para terem uma vida digna e com algum prazer. Não bastasse essa realidade perfídia fora da sua casa – grande parte da sua vida fora na cidade de Los Angeles, onde passou 50 anos -, Charles tinha que enfrentar um pai que era praticamente um psicopata e o agredia de maneira frequente, sempre apoiado por uma mãe submissa. Com o consolo encontrado na bebida, sua companheira até a morte, começara a escrever seus contos por volta dos 20 e poucos anos – e posteriormente poesia, aos 34 anos - e teve sua primeira publicação aos 24 anos para um jornal. A vida de Charles era deveras turbulenta e convulsionaria. A guerra pessoal que ele travou contra o mundo que explora e deprecia os pobres cobrava seu preço, tanto que esteve diversas vezes internado em hospitais beneficentes por causa de problemas vinculados à bebida e brigas; foi preso diversas vezes por perturbar a ordem, dentre outros crimes. Ainda na sua juventude, sentiu na pele, literalmente, a estranheza que causava nas pessoas, pois, além de ser um sujeito pobre, contraído e isolado, enfrentou problemas com suas espinhas, uma espécie de acne realmente severa – fase ricamente retratada em sua obra Misto Quente -. Vendo a maneira como os indivíduos ao seu redor não o aceitavam, e de uma maneira mais abrangente, como o mundo não ligava para sua classe, Charles desenvolveu um sentimento feroz. Ele não gostava de pessoas e tinha profunda descrença na sociedade que vivia.

As mulheres queriam homens que ganhassem dinheiro, as mulheres queriam homens de estirpe. Quantas mulheres de classe viviam com vagabundos de cortiço? Bem, eu não queria uma mulher mesmo. Não para viver junto comigo. (...) O que eu queria era uma caverna no Colorado com um estoque de comida e bebida para três anos. Limparia minha bunda com areia. Qualquer coisa, qualquer coisa que me salvasse do afogamento desta existência trivial, covarde e estúpida. BUKOWSKI, 2012, P. 232-233

Durante seu período de adolescência, nas escolas que frequentou, nunca tivera uma boa aceitação por parte dos colegas mais abastados. Era sempre solitário, mas às vezes deixava alguns poucos se aproximarem, geralmente tão ignorados quanto ele pelos mais populares e ricos do local. Também se unira em algumas ocasiões aos não aceitos pela sociedade, de maneira mais sociopolítica, como vagabundos, ladrões e outros criminosos. Henry Chinaski[1] mostra a trajetória turbulenta percorrida por esse grande escritor que simplesmente não se sentia a vontade com pessoas mais abastadas, como universitários, ricos intelectuais, editores de revistas e etc. Sua escrita provocava a atenção dessa classe que tinham vontade de ter esse “gênio indomável” por perto, mas como o próprio Chinaski dissera ao recusar o convite de Tally, dona de um jornal que publicara seu trabalho, para ele morar em sua bela casa para ali produzir:

(...) sou um vagabundo. O que quer que eu faça? Quer que eu escreva sobre os sofrimentos das classes abastadas? [ Isso pode ser novidade para você, mas eles sofrem também. ] Hey, baby, ninguém sofre como os pobres (...) [ Sabe. Na casa de hóspedes você pode escrever em paz. ] Hey, Tally baby, ninguém que escreveu algo com o mínimo de valor jamais o fez em paz [ Entendi, você não dá a mínima para o meu mundo ] baby, olha a sua volta, é uma gaiola com grades de ouro[2].

Barfly -  Bukowski ao centro, à direita Mickey Rourke (Henry Chinaski), à esquerda Faye Dunaway (Wanda)

Bukowski vivia no meio da parte da sociedade que os EUA esqueceram. Pobres, vagabundos, prostitutas, ladrões e etc., faziam com que ele os reconhecesse como irmãos de abandono, ligados pela inércia de todos os sistemas – capitalista, socialista, comunista – em fazer com que todos possam ter uma vida digna. Ele encontrava alguma distração no boxe e nas corridas de cavalos. Em sua visão, os pobres são sempre necessários e esquecidos. Já que a sociedade gera essa “escória”, Charles, como porta-voz desses, faz com que esses indivíduos vençam em seus contos. Os valores mais elevados da sociedade que os renega, são ignorados por Bukowski, como uma espécie de troco, um contra-ataque que faz com que esses valores sejam suprimidos e vencidos pelos esquecidos do mundo. O amor por diversos momentos é derrotado pelos mais ímpios indivíduos e primários sentidos humanos, como no caso do personagem Big Bath em Pare de olhar para as minhas tetas, senhor[3]. Charles também não conseguia ver sentido na desunião da classe espoliada e, apesar de não assumir uma espécie de marxismo, ele criticara aquele Estado repressor, principalmente os lumpers e agentes cooptados que não se enxergavam como parte da classe pobre.

Fui buscar mais cerveja e ficamos ali sentados. Mesmo ali dentro dava para ouvir o rádio do imbecil do carro da radiopatrulha. 2 garotões de vinte e dois anos, armados de pistola e porrete, transformados em árbitros sumários de 20 séculos de cristianismo idiota, homossexual e sádico. Não é de admirar que se sintam tão bem com seus uniformes pretos macios e engomados, a maioria sendo funcionários público de baixa classe média que tem que comer bife na frigideira e uma esposa de rabo e pernas apenas sofríveis, em uma casinha sossegada lá pela Merdalândia – mas capaz de matar a gente para provar que Los Angeles está absolutamente certa, vamos ter que prender o senhor, sentimos muito, moço, mas não há outro jeito. BUKOWSKI, 2011, P. 199

Como vivemos em sociedade, é impossível que possamos viver solitários, isolados do mundo. Precisamos dele. Mesmo Charles Bukowski precisava viver em sociedade. Por mais que Chinaski sonhasse em sair desse mundo onde ele era ignorado e lhe era praticamente proibido a felicidade, eram essas contradições a fonte de suas produções. Apesar da crueldade do pensamento, a posteridade ganhou um grande escritor, justamente por que o mundo foi injusto com ele. Nietzsche dizia que nas grandes dificuldades nascem os maiores gênios e sentimentos[4]. Bukowski devia odiar essa afirmativa. Como todo o ser humano esquecido, a classe espoliada, ele queria um mundo justo e melhor para si mesmo. Já em sua vida pessoal, Charles viveu diversos relacionamentos conturbados, regados à muita bebida, cigarro, contos e poesia e música clássica. Viveu alguns amores, mas mesmo assim, o suicídio era uma ideia sempre presente.

Na primeira vez que ela sair do quarto, estará tudo acabado para mim. Não tinha ainda certeza de como, mas havia centenas de maneiras. Tínhamos um pequeno forno a gás. Gás era uma opção charmosa. Gás é como um beijo. Deixa o corpo inteiro. O vinho tinha acabado. Eu mal podia caminhar. Exércitos de medo e suor corriam por todo o meu corpo. No final tudo se torna bastante simples. O maior alivio possível é nunca mais ter de passar por outros seres humanos na calçada, vê-los carregando suas banhas por aí, ver seus pequenos olhos de rato, suas caras cruéis e dissimuladas, o modo como desabrocham suas bestialidades. Que sonho bom: nunca mais olhar na cara de outro ser humano. BUKOWSKI, 2010, P.185

Charles escreveu mais de quarenta obras, entre romances, contos, poesia e etc., onde, diversas delas, não foram traduzidas para o português. Mas seu último livro, Pulp, chegou até nosso idioma. Logo após o término desse livro ele morrera em São Pedro, Califórnia, de pneumonia, decorrente do tratamento de leucemia. Podemos notar em sua obra o modo como ele via a sociedade posta e seus sentimentos para com as classes abastadas que ignoravam as pessoas do seu mundo. Não digo que os escritores de alguma linha teórica, status econômico, político ou filosofia e etc., não sejam lidos por todo mundo, mas a apropriação de certos nomes e lógicas para a promoção de algo diametralmente oposto à essência dos mesmos é temerário. Contraditório. As pessoas acabam por esvaziar uma imagem de todos os seus significados, e, de maneira junguiana, a preenche de outros. Imagens e nomes são mais significativos que sua essência. O nome e a imagem de Charles Bukowski são associados à bebida, não à sua feroz, às vezes bem-humorada, crítica à sociedade que exclui, à um sistema desigual e à uma classe abastada que espolia os pobres. Mas essa injustiça não é mérito unicamente de Charles.  

Já conversei com pessoas que usavam uma camiseta do Che Guevara que não tinham à mínima ideia de quem foi e o que fez – até vi seu rosto num biquíni na SFW e, para meu espanto, sendo adorado por neonazistas que o comparavam com Hitler -; já ouvi pessoas dizendo que se você gostasse de comunismo, então era para dar um de seus carros ou um quarto de sua casa para qualquer vagabundo na rua; já vi gente usando a camiseta do Barack Obama e chamando-o de um “cara diferente”, um homem da paz – recebeu até um Nobel -; já vi um cantor negro chorando de emoção por estar na frente do republicano Bush; já vi uma revista estampando na capa um loiro famoso de olhos azuis, caído no crack, despertando pena num país – mas os pobres da favela não -; e estou cansado de ver nos filmes a Rússia – antiga URSS – como o maior monstro da terra...

Sabemos que a modernidade desenvolvida no século XX deu uma importância exagerada para a imagem e diminuta relevância, quando não esvaziamento, para seus significados. As consequências são que, além tirar-lhes os significados, essas carcaças que sobram podem ser utilizadas ideologicamente, ao mesmo tempo que se oculta as verdades por de traz das imagens. Isso se tornou comum em nossa sociedade. Pessoas esclarecidas ou não cometem esse erro crasso. E como não podia deixar de ser, Bukowski teve sua imagem e nome roubados de seus significados. Pessoas e lugares, que Chinaski teria asco, se apropriam e enriquecem embasados num símbolo contrário à tudo que esses significam. Não sei quem é mais contraditório e incoerente. Se eles que os usam – ignorando sua essência – ou os que frequentam esses mesmos lugares – e que veem isso.

A velocidade de nossos tempos – segundo alguns autores, iniciada na Revolução Industrial - transformara o mundo. A necessidade de respostas rápidas suplantam respostas mais elaboradas e complexas. O conhecimento é preterido à informação; o conteúdo à forma; Uma vida inteira de luta à imagem e/ou nome. Figuras como Bukowski devem estar rolando de raiva em seus túmulos.   

Referências:

BUKOWSKI. Charles. Ao Sul de Lugar Nenhum. LP&M: Porto Alegre, 2010

BUKOWSKI, Charles. Fabulário Geral do Delírio Cotidiano – Ereções, Ejaculações e exibicionismos – Parte II. LP&M: Porto Alegre 2011

BUKOWSKI, Charles. Misto Quente. LP&M, Porto Alegre, 2012

BUKOWSKI, Charles. Hollywood. LP&M: Porto Alegre, 2012

NIETZSCHE, Friedrich W. Humano Demasiado Humano. Escala: São Paulo, 2007

BARFLY. Produção de The Cannon Inc e In a Golan-Globus production. Mickey Rourke, Faye Dunaway. Edição de Eva Gardos. Direção de Barbet Schoeder. Escrito por Charles Bukowski. Duração: 1h39min43seg.

Notas:

[1] Alter-ego de Charles Bukowski. Está presente em diversas obras suas.

[2] Trecho de diálogos retirados de Barfly. Filme baseado na vida de Charles Bukowski retratado no livro Hollywood.

[3] Conto de Bukowski no livro Ao Sul de Lugar Nenhum.

[4] Humano Demasiado Humano, obra de Friedrich Nietzsche.

 

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