Carta ao Drummond de bronze

30/12/2013 13:51

Alexander Martins Vianna

Obviamente, Drummond, seria ótimo que lessem teus livros, particularmente no Rio de Janeiro. No entanto, alguns deliberadamente esquecem que pichação também é uma forma de escrita, que diz muita coisa para quem sabe ler – e ver..., pois se vê com os recursos que se tem. Veja só, Drummond: houve muito estardalhaço na mídia contra o vandalismo em teu corpo de bronze, mas este foi também um ano de greve de professores do Estado do Rio de Janeiro, cujo objetivo era melhorar a carreira... Será que depois de tanta cobertura midiática negativa sobre a greve dos professores essa mesma mídia está acompanhando como, de fato, estão sendo feitas as reposições de aula?... Como pode haver reposições de aula em que o “grevista” é impelido a ficar na escola para cumprir carga horária sem que haja aluno?... Nenhum professor que participou da greve se furta da empreitada da reposição, mas em que condições isso está acontecendo?... Cadê a cobertura da mídia sobre isso?... Lembro do cuidado de associações de pais aparecerem na TV muito “preocupados” com a situação de seus filhos sem “aula” (como se a greve não fosse também uma forma de aula para a cidadania), mas parece que o único foco era o “professor grevista”, não as condições da escola, não a forma como, hoje, a reposição está sendo feita...

Então, Drummond, seria ótimo que lessem teus livros..., mas não somente os teus, que já se tornaram cânones literários para bom comércio na corte letrada cheia de moralismo contra o ‘vandalismo’. Até teus versos críticos já foram domados como mercadoria... Quanto horror há nisso que não se assume como horror, Drummond, porque aparentemente civilizado!... Não sê ingênuo, caro Drummond! O governo que te limpa e adora fazer frases moralistas contra o vandalismo ao "patrimônio público cultural" é o mesmo que tirou a Literatura da matriz curricular da escola pública estadual do Rio de Janeiro. Aliás, Drummond, por que tenho de celebrar Estácio de Sá? Fundador?... A politicidade contida nas escolhas de monumentos deve ser dita!... Por vezes, uma pichação é somente a voz que grita contra tal politicidade; outras vezes, é a simples reação a (ou afirmação de) algo que precisa ser conhecido mais do que, a priori, condenado... Chamar de ‘vandalismo’ é simplesmente ocultar todo o processo social de poder na imposição de um discurso único sobre passado, presente e futuro... Por que tenho de me identificar com Estácio de Sá e não com as tribos massacradas em nome da fundação?... Da mesma forma, pergunto: Por que tenho de celebrar o ‘índio’ (este conceito do colonizador) como vítima passiva da “fundação”?... Simplificar o discurso é o oposto do que deveria fazer a mídia e as escolas públicas (que não têm teu bronze, Drummond..., pois estão reduzidas a ferro carcomido e retorcido). Afinal, para que Literatura, Drummond?... Ao pobre basta apenas saber ler para sua pobreza ser funcional e poder entrar pela porta dos fundos... Pensar com literatura, para que, Drummond? Escola pública de tempo integral?... Muito cara, Drummond!... Carreira e condições decentes de trabalho do docente estadual, para que, Drummond?...

Precarizar a profissão docente na rede estadual a ponto de a greve ser a única possibilidade de negociação por dignidade no trabalho é responsabilidade desse Estado (Bestial) de Direito!... Enquanto isso, Drummond, banho de tinta é pouco para ti, pois essa tinta é, ao menos, forma de escrita que grita para algo que não se quer ouvir. A ida fortuita de teus óculos ao ‘ferro velho’ diz que teus livros não estão acessíveis na escola, sem Literatura, do Rio, pois não basta apenas ter número numa planilha dizendo que os livros foram comprados, mas viabilização de uso, tempo e interesse na escola pública (que deveria ser integral, de qualidade e com carreira docente decente que lhe corresponda em responsabilidade), o que não acontecerá sem o devido investimento e continuidade de políticas públicas. A escola não pode estar sujeita a ações episódicas (caridosas) de indivíduos, pois escola é direito – e direito é conquista, não é favor, pago com nossos impostos!... A ação pontual de um ou outro indivíduo não deveria ser celebrada como heroísmo – i.e., o herói na precariedade, pois a existência da precariedade no ensino é a prova contundente da negação do direito... Os casos focais de “sucesso na precariedade” devem ser vistos como sintomas da crueldade estrutural que não se assume como tal... A escola não precisa de “amigos da escola” ou de “heróis da exceção”! A escola precisa de poder público com política pública séria, Drummond!...

Então, vândalo é o Estado que precariza a escola e a profissão docente!... Assim, Drummond, ao invés de pichar quem picha, sai dessa gaiola de bronze da Zona Sul, descola a bunda do banco à beira mar e conheça o ferro corroído e retorcido das escolas estaduais do Rio de Janeiro. Duvido, Drummond, que tu gostarias de ter algum parente teu estudando por lá!... Lá é lá, né? Lá não é aí... No entanto, isso não dá mídia, Drummond? Enfim, Drummond, não precisamos de imperadores ou de senhores moralistas hipócritas que adoram jogar venda em nossos olhos e se acharem melhores do que o povo ao qual tratam como serviçal funcional que entra pelo porta dos fundos – e que conta com a “opinião” de parte da classe média que compactua com tanta opressão gentil e letrada... Por isso, Drummond, não termino essas precárias letras contigo, mas com uma poemática reflexão tomada emprestada de outrem:

*
(Alberto Lins Caldas)

● sua majestade nosso imperador ●
● gosta de olhar as extensões de terra ●
● do imenso e quase infinito imperio ●

● ele sua majestade nem pisca os olhos ●
● e sabemos todos q saliva demais ●
● porq cospe sempre e muito nessas horas ●

● sua majestade nosso imperador ●
● mira cada uma das coisas do seu imperio ●
● como se cada uma fossem unica e especial ●

● ele sua majestade degusta seu poder ●
● com tanta emoção q muitas vezes chora ●
● sem poder estar em todos os lugares ●

● sua majestade nosso imperador ●
● sonha sempre acordado q é mais e mais ●
● q um simples imperador mais do pode ser ●

● ELE SUA MAJESTADE SE DESESPERA ●
● SEM PODER SER MAIOR Q NOSSO TERRITORIO ●
● BEM MAIOR Q NOSSO POVO E MAIOR Q A VIDA ●

*
Enfim, Drummond, não podemos esquecer da relação assimétrica-dialética-formativa entre a “Majestade” e seu “Povo”. Podre, hipócrita, cruel e bárbara é a Majestade que não se vê no seu Povo...

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Data: 31/12/2013

De: Antonio dutra sobrinhos

Assunto: Os politicos brasiléios

A Maioria dos politicos brasileiros são lenha da mesma mata porva do mésmo barril férro da mesma sucata veneno da mesma cobra subéijo da mésma sobra e férrungém da mésma lata.

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