As lutas do feminismo: do que tem medo o opressor mesmo?

04/02/2014 08:39

Fabiana Mathias

Não acredito que existam qualidades, valores, modos de vida especificamente femininos: seria admitir a existência de uma natureza feminina, quer dizer, aderir a um mito inventado pelos homens para prender as mulheres na sua condição de oprimidas. Não se trata para a mulher de se afirmar como mulher, mas tornarem-se seres humanos na sua integridade. (Simone de Beauvoir)

“Feminismo é a ideia radical de que mulheres são gente”, dizia o cartaz e este não era o único a ter mensagens esclarecedoras e que combatiam as ideias senso comum sobre o feminismo e suas lutas, era um apenas entre vários segurados por aquelas mulheres, algumas de peito nu, outras vestidas, algumas com seus filhos bem pequenos, outras de mãos dadas aos seus companheiros ou companheiras. O que descrevo aqui é a imagem real de uma foto de uma marcha contra as posturas que vem tomando uma parcela da sociedade, a parcela que ainda segue cegamente uma postura machista. Marchas como esta tem sido cada vez mais necessárias e despertado cada vez mais discursos inflamados sobre o que é ou não feminismo.

Não me arrisco a dar dados, mas acredito que a resistência da mulher em ser objeto da opressão tem despertado de modo bem explícito muito ódio e angústia em quem se vê sem seu posto de opressor ou oprimido alienado em perigo.

O feminismo, como dizia o cartaz, tem uma pauta bastante direta e simples que ao contrário do que alguns pensam não tem a intenção de superação de um sujeito sobre outro, a mulher sobre o homem, mas a garantia de direitos de uma parcela da sociedade. Compreendam, nada a menos para ninguém, não é a retirada de direitos, mas a adição de direitos naturais e subjetivos  a população feminina.

Dentro do feminismo podemos separar algumas vertentes, mas existe uma polarização bastante clara entre o feminismo liberal e o feminismo progressista. O feminismo liberal, fortalecido em territórios como nos Estados Unidos e Europa Ocidental, é pautado na afirmação de direitos iguais e liberdades asseguradas pela sociedade democrática capitalista. É a democracia capitalista que rege a proposta deste feminismo, por isso, houveram limites para a mulher dentro dele no século XIX como o direto a herança, propriedade, separação e liberdade sexual. Como qualquer sociedade liberal o direto ao voto era mais valorizado do que qualquer outro direito e muitas vezes o único possível de ser alcançado naquela época. Sim, houveram casos e situações de separações, bem como mulheres que herdaram posses dos pais ou maridos, entre outros direitos, entretanto, estas quando alcançadas eram a um custo bastante algo como a morte da mulher em defesa da honra do homem ou, no mínimo, a execração social.

A sociedade do século XIX foi amamentada na filosofia de pensadores como Jean-Jacques Rousseau, David Hume, John Locke, entre outros. Para Hume, os homens são chefes naturais dos lares, os porta vozes adequados da família, não lhes cabe o recato e a castidade como as mulheres. Para Locke, as mulheres não eram participantes naturais da sociedade. Rousseau, acreditava que a educação feminina deveria ser direcionada a agradar o homem. Para Anne-Louise Germaine Necker, ou Madame Staël, como era conhecida (1766-1817), baronesa, ensaista francesa e pensadora do iluminismo, quando a mulher intromete-se em política, “se jovem é considerada atrevida, se velha, repugnante”, portanto, à mulher a única paixão aceitável é o amor, e se de alguma alguma forma a mulher for infeliz o único consolo é a maternidade.

A Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, de Olympe de Gouges (pseudônimo de Marie Gouze), de 1791, mais crítica que sua antecessora a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, esta última, redigida sobre a bandeira de Igualdade, Liberdade e Fraternidade, da Revolução Francesa, 1789, é um manifesto humanista que visava garantir que “se as mulheres podiam subir ao cadafalso, podia também subir as tribunas”, possuir propriedade, ter liberdade de fala e pensamento, portanto, um avanço necessário e que abriria precedentes para a representação, mas também exposição de ideias de todas as mulheres.

Entretanto, o que resultou destes esforços pós-Revolução, representou muito mais como Staël via as mulheres do que como Gouges as via, e nenhum dos líderes da Revolução, exceto Nicolas Condorcert, falecido em 1794, se quer viu a necessidade de aceitar o sufrágio feminino, direito esse que só viria a ser efetivado em 1945, na França pós-Segunda Grande Guerra. No Brasil esse direito só viria ser afirmado em 1932, em Portugal e Suiça apenas nos anos 1970 e no Uruguai, o primeiro país Latino Americano a garantir esse direito, em 1927. A Nova Zelândia foi o primeiro país a legitimar o voto feminino no mundo, em 1893.

Esta visão da mulher, como ser acéfalo a ser protegido do mundo e si mesmo, ecoa ainda hoje nas falas de muitas pessoas, sejam elas homens ou mulheres, e representa o reflexo do conservadorismo das ideias geradas no século XIX e herdadas por muitas feministas liberais que não avançaram na pauta de direitos para além daquilo que o estado capitalista permite.

É inegável que a pauta da luta feminista liberal tenha sido um primeiro passo necessário para avanços e consciência que se formaria. Entretanto, o do direito ao voto não corresponde ao universo de direitos humanos da mulher que devem ser respeitados e legalizados, o voto é apenas um direito que se destina a cumprir com metas de manutenção da política liberal, existem direitos outros tão ou mais simples deixados de lado como os direitos à segurança, saúde, educação: direitos que buscam impedir a agressão física das mulheres (seja ela considerada uma questão cultural ou não, como o apedrejamento de vítimas de estupro, ou por adultério, a extirpação clitoriana, entre outras); a garantia a informação sobre os diversos tipos de partos possíveis, sem dor, julgamentos, normatização ou constrangimento existentes; o direito ao aborto; o direito a educação sexual que não recrimine as necessidades e desejos femininos que sempre foram tidos como sujos, infantis ou vulgares; ao não julgamento e discurso que torna compulsório e único aceitável o casamento heterossexual e a monogâa como formas de relacionamento; o direito a não casar; o direito a não desejar ter filhos; o direito a não ter seus corpos violentados; o direito a livre expressão sexual; o direito ao acesso a métodos de controle de natalidade, entre outros direitos que me esqueço agora, mas que simplesmente se resumem a afirmação com a qual inicio este texto, direitos a condição humana.

O feminismo liberal é um feminismo, mas é um feminismo insuficiente, pois não radicaliza e amplia as necessidades e a visão de mulher para além do plano dos deveres e direitos que dispõem nossa sociedade, não alcança e emancipa a mulher em cada uma das facetas de opressão que a sociedade patriarcal instaurou.

Não é o feminismo liberal que sofre sanções, por que contra ele não interessa lutar, por que no que ela avança serve a sociedade capitalista perfeitamente: mais força de trabalho, sujeitos que cumprem dupla e até tripla jornada de trabalho (casa e trabalho, ou casa, estudo e trabalho), a estreita participação e representação na política, a visão reduzida do que é ser mulher. A que interessa ao capitalismo isso? Interessa a ele como a tudo, manutenção e controle do sistema como um todo.

Por isso, que quando surgem manifestações de ódio apenas verbalizado ou fisicamente expressado contra posturas e opiniões em defesa dos direitos da mulher, sejam posturas  declarada ou conscientemente feministas ou não, vemos que estas surgem diante dos direitos que vão além da pauta liberal, pauta esta muitas vezes enaltecida e vista como a única legítima pelo discurso machista. “Mas vocês já tem tanto” dizem uns, “Mas agora a mulher já pode até...”, “Essas feministas, feminazi, precisam é de transar pra parar de reclamar”, “Só mulher feia é feminista”, entre outros pérolas teóricas. O medo da perda do poder de controle de um lado, o medo do mundo onde Locke, Rousseuas ou Humes não mais fazem sentido nem para uma definição de mulher, nem para definição de homem, fomenta as declarações mais absurdas e algumas vezes reforçadas por declarações de mulheres que alienadamente se identificam mais com a lógica do opressor do que percebem a sua condição de oprimidas.

O que percebe-se enfim, é que as lutas crescem de acordo que evoluem os estudos, a consciência de uma teoria feminista, de uma visão crítica política, social e econômica e se tornam elas mais radicais na mesma intesidade que radical é a  condição de vida insuportável e indigna a que são acometidas muitas mulheres pelo mundo, cresce contra toda e qualquer condição que mantenha os “privilégios e imunidades consensuais entre homens, para aliviar e perpetuar os efeitos da possessividade dos homens,” para “não assumir a forma de uma centralização dos meios de produção que afinal imprimirão a todas as coisas naturais a imagem do homem”, para “não assumir a forma de complexos psicológicos que racionalizam a agressão masculina, ou estruturas linguísticas nas quais os homens fogem à sua fisicalidade e suas necessidades emocionais” (NYE, 1995, p.269).

Referencias

NYE, Andrea. Teoria Feminista e as Filosofias do Homem. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1995.

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