Aqui jaz a noite porto-alegrense

27/11/2012 08:19

Daniel Baptista

Na noite do dia 16 de novembro fiz algo que há tempos não fazia: sair à noite, dar um rolê, dar uma banda, uma volta... as gírias são as mesmas para o mesmo objetivo: como o Fato e a História é lido por muitas pessoas no  Brasil vou tentar descrever qual foi o itinerário da noite, busquem auxílio, se quiserem claro, no Google Maps para se situarem melhor.

Um dos redutos da noite de Porto Alegre é o Bairro Cidade Baixa, e as suas ruas mais movimentadas – é a Lima e Silva, a João Alfredo e a José do Patrocínio. Nesta última, há meses atrás, possuía uma aglomeração de pessoas que, dava ao ambiente um aspecto de que algo muito importante estava para ocorrer a qualquer momento. Volto a frisar, era uma massa humana muito grande, chutando um cálculo bem simplório o número de indivíduos girava em torno de 2 a 3 mil. Gente dos mais variados tipos que vocês possam imaginar: negros, brancos, punks, metaleiros, mauricinhos, reggaeiros, hippies, mendigos, catadores, gays, funkeiros, o pessoal do verde, caretas, intelectuais e os pseudos, enfim um sem número de “tribos” convivendo harmoniosamente. Era realmente uma festa! Pegávamos cervejas de um litro no cachorro do Hélio ou no Mister X e ficávamos ali, na rua, junto com a agitação plena do bar Opinião e assim a noite seguia.

Para variar um pouco a caminhada, dávamos uma volta na João Alfredo e ver o movimento, tanto dentro quanto do lado de fora das agitadas casas noturnas que existem por ali e assim passávamos a noite, quem tinha mais pique estendia a caminhada para o Bambus, outro bar distante uns 3 ou 4 quilômetros em outro Bairro, no Independência, na avenida com o mesmo nome. Foi um tempo bom esse... me parece que não volta mais...

Essa pequena passagem mostra como era a Cidade Baixa aqui em Porto Alegre, até que chegou o (ex) secretário Valter Nagelstein comandando a SMIC e decidiu fazer uma limpa na cidade a partir do ano passado... diversos estabelecimentos foram fechados sob a alegação de estarem com os alvarás vencidos ou então os estabelecimentos estariam sem licença. Essa foi à alegação.

Para gringo ver?

O que existe por trás dessas ações não é somente isso obviamente há um claro processo de higienização, elitização, exclusão - lembrem, por exemplo, da lei que proíbe a circulação de carroceiros e carrinheiros em Porto Alegre, começa a vigorar ano que vem. Reza à lenda, eu não tenho como confirmar isso - é apenas conversa de bar - mas aqui tem várias reportagens: “Moradores decidem por manter funcionamento de bares na Cidade Baixa até a1h[1]ou esta: “Vereadores de Porto Alegre discutem conflito na Cidade Baixa[2] e mais esta: “Assinado decreto que regulamenta horário em bares da Cidade Baixa”[3], e existem outras tantas! Mas voltando a lenda dizem que um estabelecimento muito caro foi colocado ao lado do cachorro do Hélio, um local caro que precisava de “gente qualificada” para frequentar (pessoas que votam no PSDB, que fazem cirurgias plásticas, que andam de Audi, que vão pra gramado no inverno, que correm atrás dos papéis dos avós italianos para possuírem “dupla cidadania”, etc. etc.) e esse estabelecimento era na José do Patrocínio, local frequentado pelo povo do submundo. Muito influente que era, ela (a dona do estabelecimento muito caro) deu coro a associação dos moradores da CB e a caça a bruxa começou as vésperas da copa... coincidência?

Só para lembrar, os comentários das reportagens é que são os mais raivosos possíveis... mas voltando ao assunto, toda essa novela se estende desde novembro do ano passado e gradativamente vemos os espaços para a população mais pobre da cidade serem maquilados e esterilizados... eu não sei o que ocorre nas outras capitais, mas creio que o processo é semelhante no Rio, com as suas UPP’s e por último as internações forçadas para a desintoxicação do crack - na verdade os albergues destinados para o tratamento, mais parecem uma prisão ou um campo de concentração, onde as crianças vivem dopadas com medicamentos fortíssimos[4] - e em Sampa temos essa guerra causada nas periferias, graças aos grupos de extermínio daquela cidade que agia livremente.

Foi uma noite triste a do dia 16 de novembro, eu esperava ver a velha cidade baixa de sempre e o que eu vejo? Uma cidade moribunda com meia dúzia de heróis da resistência sem o mesmo ânimo de antes... até o mister X teve que se remodelar para atender as novas exigências da lei citadina, teve que se adaptar... o lugar parece um Mcdonald’s! e o preço é claro que sobe... isso afasta o cliente mais pobre que fica sem opções e quando saímos de nossas casas parece que estamos em uma cidade sitiada com uma viatura a cada quadra... para proteger? Para reprimir, como atestou um colega meu na mesma noite, que disse que deu uma volta lá pela meia noite e meia no largo Zumbi dos Palmares (também na CB) e quando começou a aparecer uma galera, chegaram “os hômi” e dispersaram todose todas. Decidi ir a pé ao Bambus e no caminho vinha refletindo e em voz alta disse (não para ofender): “olha só... quanta gente branquinha e cheirosa... só classe média...” e falei olhando para as várias mesas de um bar a céu aberto e um dos guris da mesa ouviu, eu segui andando mas ouvi ele falando para os outros amigos dele: “bah?! Viu só que arriada?!”

Público selecionado?

O problema não é ser branquinho e cheiroso, ou ser classe média... o problema é que você classe média, não tolera o diferente, o que está fora do “padrão globo de qualidade”, não tolera o que está a margem da sociedade ou o cidadão que não aceita os padrões estabelecidos por vocês. E pior não toleram que estes, desfrutem do mesmo espaço que vocês, preferem exterminá-los, aniquilarem, preferem manipular leis e criar códigos de condutas e imposição de horários malucos para que gradativamente a cidade fique mais “civilizada” mais “limpa” porque somos a “Europa do Brasil” e temos que fazer jus a essa alcunha. Mas lamento em dizer para vocês classe média, que esse tipo de ação é a mesma coisa que varrer a sujeira para debaixo do tapete, nós continuamos ali, e quando vocês menos esperarem nós vamos aparecer de novo...

Contradição: Porque eles podem?

Curiosamente caros amigos, outro bairro Boêmio da Cidade, o chiquérrimo Moinhos de Vento continua com seus restaurantes, bistrôs e pub’sbombando de segunda a segunda até altas horas... mas lá, o público pode se dar ao luxo de pagar R$20,00 por uma caipirinha, ou então R$300,00 uma garrafa de Möet&Chandon, eles podem desfilar seus brinquedinhos importados na Padre Chagas e as vezes, fazer piadinhas com a cara do garçom... se a lei é municipal, porque ela só é aplicada e fiscalizada com rigor na CB?

Sabe, eu não sei como ficará até Junho de 2014, mas minha esperança é que depois dessa Copa tudo volte a ser como era antes, mas isso é mais um desejo do que uma possibilidade, até lá teremos que continuar vendo os espaços públicos sendo covardemente higienizados por um braço forte do governo, que é respaldado por uma elite preconceituosa, megalomaníaca e insensível, que quer fazer nas ruas o simulacro de seus shoppings centers, mas sinto por eles... Porque nós somos reais e estamos vivos, não somos marionetes... apenas recuamos mas em breve voltaremos para tomar o que é nosso por direito e a noite de Porto Alegre vai ressuscitar...  

 

 

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