Algumas divagações

21/09/2013 14:31

Luis Oliveira

Sobre hipocrisia, função e veracidade das letras

Quando Adorno exclama, e de certa forma reclama, sobre a música popular (de entretenimento, música-mercadoria) e sua tentativa de ser ferramenta de protesto ele entra no embate letra/sentido x utilidade pública e se a letra poderia influenciar o pensamento e as atitudes das pessoas ou não.

Interessante essa questão, por que uns dizem que a letra (em um sentido geral) tem "força própria" é capaz de "comover", Fábio Jr. cantou "Alma Gêmea" mais vezes do que casou?! Para quantas "almas gêmeas" ele cantou?! Quantas pessoas acreditam que exista o tal "Cara" que Roberto Carlos se diz ser em "Esse cara sou eu"?! Penso que ele mesmo acredite ser o tal "Cara" e viva um complexo idealizado fantasioso.

Não penso que a letra seja capaz de tamanhas modificações no pensamento humano, se acompanhada por uma melodia que aparentemente vai na contramão intencional como em "Assim caminha a humanidade, com passos de formiga e sem vontade..." de Lulu Santos, onde a intenção da música parece festiva e comemorativa e a letra (esta parte da formiga especificamente) é pessimista e trágica, tudo isso ocasiona contradições entre letra/sentido x melodia/intenção musical.

E as letras supostamente intelectualizadas da MPB? Quem sabe o que Djavan quis dizer com "O luar, estrela do mar, o sol e o dom, quiçá, um dia a fúria, desse front virá lapidar, o sonho até gerar o som..."? E mesmo assim há milhares de pessoas cantando enlouquecidamente essa letra com uma interpretação no mínimo, duvidosa.

Parece-me que sentido e veracidade são tipos de ferramentas pouco esperadas e alcançadas na música popular (em um sentido amplo e talvez, demasiadamente generalizador), onde nem o intérprete da canção é verdadeiro com o que interpreta e nem o ouvinte é verdadeiro com o que ouve.

Sobre o processo de composição, compositor e ouvinte.

Quando o compositor está em processo de composição, seu desafio e sua sina é soar diferente daquilo que sempre soou, mas sem perder sua característica, sua peculiaridade, a sua "identidade musical", o que o torna um compositor excepcional.

Do outro lado da história, o ouvinte está preparando para um tipo de sonoridade, um tipo de encadeamento de ideias musicais para dar continuidade as suas sinapses, seu ouvido quer "caminhar" por um tipo de som, ele busca padrões e é nisso que a maior parte da música de toda a história se baseia, a formação de padrões.

Como compor é construir (musicalmente) algo, podemos pensar como um construtor, que quando pretende fazer uma casa com um único andar não cogita a possibilidade de colocar um elevador, mas sabe que um piso será fundamental, da mesma forma, o compositor deve também saber onde pisar as suas ideias, qual o alicerce de sua criação, onde ele pode se apoiar para erguer seu monumento musical, sua produção mais duradoura.

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Sobre Critérios para o Gosto Musical

A vida é permeada em categorizações daquilo que nos é marcante, daquilo que é marcado como sendo de interesse perceptivo e o que não é, em elevar aquilo que nos eleva e menosprezar ou abandonar aquilo que achamos que nos diminui ou desagrada (base do preconceito), em alimentar as sensações com que mais nos identificamos, como se nos sentidos houvessem vazios a serem preenchidos, com uma boa comida, com um toque delicado e sensível, com um belo quadro de arte, com uma bela música.

O que te toca quando você ouve uma bela música?

Uma série de conceitos, expressões e sensações são estranhamente buscadas para se expressar diante dessa pergunta a fim de respondê-la, são calafrios, são gesticulações de prazer e de sentimento para com a música, algumas palavras são criadas para suprir as poucas que existem para expor tais sentimentos, em inglês há uma expressão chamada coloquialmente de "eargasm", uma espécie de orgasmo do ouvido.

Há quem se sinta "tocado" por uma música com uma harmonia simples e com poucas notas, há quem precise de grandes movimentações harmônicas, contrapontos e contracantos para se sentir envolvido com o prazer musical, existem certos limites que os músicos procuram obter para não serem desesperadamente técnicos ao ponto de serem robóticos e não causarem o tal "eargasm", eis uma tarefa árdua tanto para o músico quanto para o ouvido, não se emocionarem ou consideraram como sentimental ou belo algo que é automatizado, é uma busca contínua entre destreza e bom gosto, uma busca que tem de ser feita por todo ser ouvinte da arte dos sons e silêncios.

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