Ainda existe Luta de Classes?

06/02/2014 08:09

Lucas Fier do Esperança Critica

O entendimento de que as sociedades de maneira geral são divida em classes é bastante antiga, e estas classes foram compreendidas de maneiras diferentes. A definição de classes que se tornou mais conhecida e aceita até os dias de hoje foi a do filósofo alemão Karl Marx, que pareceu ter compreendido de maneira mais ampla esta questão. No entanto, ele nos deu esta definição no século XIX e o mundo já não é mais o mesmo. Podemos nos perguntar: aquela definição permanece válida ainda nos dias de hoje?

De fato inúmeros teóricos alegam que já não existem mais as clássicas classes do capitalismo (burguesia e proletariado), ou ao menos que não têm a mesma natureza, e que esta concepção está ultrapassada. Para Marx a sociedade capitalista está dividida em apenas duas classes: a burguesia e o proletariado. A burguesia é a classe dos proprietários: são os donos de fábricas, proprietários rurais, governantes, banqueiros. Já o proletariado é composto por pessoas que não tem outra propriedade senão a força de trabalho, a qual ele vende à um burguês. Os burgueses, então, são empregadores: compram a força de trabalho para a produção de alguma outra mercadoria, da qual ele venderá e lucrará em sua venda. Ele tira o seu lucro da mais-valia, o conjunto de horas não pagas do trabalho proletário (procurar teoria da mais-valia). Já o proletário não terá lucro: ao contrário, ele receberá menos do que o seu trabalho produziu. Assim, a burguesia é uma classe exploradora: ela explora o trabalho do proletariado. Isso diz respeito ao funcionamento do capitalismo, e vale ainda para hoje. Mas isso não é tudo.

Existem, dentro de cada classe, diversos grupos com diversos interesses. Se pensássemos que cada classe é um todo homogêneo, estaríamos sendo demasiado simplistas. Algo que podemos observar a existência de uma classe média também chamada de pequena burguesia. Ela é composta por pequenos proprietários e funcionários bem remunerados. De fato, alguns funcionários recebem um salário que até o permitem ser empregadores de outros trabalhadores. E existem também os indigentes e criminosos, excluídos da produção, mas não do sistema: são o lumpemproletariado. É importante observar que a classe é uma categoria econômica e existe independente de as pessoas se sentirem membros de uma classe ou mesmo saber que elas existem.

O papel de cada um na sociedade determina vários fatores da vida. A burguesia, por exemplo, sempre teve, de uma forma ou de outra, acesso à uma melhor educação, à uma saúde com mais qualidade, mais segurança, conforto, etc. O proletariado, em sua pobreza, esteve, na maioria das vezes, entregue a sua própria sorte. Pensemos num exemplo atual: a vida nas favelas, com a ausência do Estado e de direitos básicos, como saúde, segurança, com uma educação e uma moradia precária. Apenas alguém muito cínico ou muito ingênuo negaria esta desigualdade.

Marx deixou suficientemente demonstrado as classes possuem interesses diferentes. Para a Economia Clássica, o funcionamento “correto” do capitalismo beneficiaria a ambas as classes. Não foi assim que aconteceu, e até a época de Marx a riqueza produzida pelos operários os levou à miséria. Em O Capital temos uma triste coleção de exemplos. As classes, portanto, são antagônicas. O capitalismo só funciona, aos olhos de Marx, com a exploração de uma classe pela outra. Para abolir a exploração seria necessário a abolição do próprio capitalismo, transformando os meios de produção em propriedade coletiva. Este era o plano que libertaria o proletariado. A compreensão de que as classes são antagônicas é perturbadora: revelava que as coisas não poderiam continuar como estavam, e que não se poderia resolver a exploração através de uma conciliação das classes, como sonhava o bom burguês. Ou se mudava o próprio modo de produção, ou as coisas continuariam injustas.

Acontece que no tempo de Marx a divisão das classes era bem visível. De lá para cá muita coisa aconteceu: o mercado tomou proporções cada vez mais globais. A disputa por mercados levou à primeira guerra mundial; países inteiros passaram a ser explorados por empresas multinacionais; surgiu uma nova forma de colonialismo através do endividamento de uma nação para outra. Na segunda metade do século XX os países industrializados começaram a transferir sua indústria para países em desenvolvimento; a classe média cresceu em proporção e tomou um corpo jamais visto; diversas tecnologias ficaram cada vez mais acessíveis aos pobres. A linha que separava uma classe da outra tornou-se quase imperceptível.

Mas isso não significa que elas não existam, e eu pretendo demonstrar isso através de exemplos. A burguesia nascente, em seus primórdios, defendeu o Estado absolutista em sua luta contra a nobreza feudal. Depois, quando o rei já não lhe servia, defenderam o liberalismo, ou seja, a não interferência do Estado na economia, que lhes permitiu o crescimento econômico. No início do século XX, diante das crises crônicas do sistema e da ameaça comunista, a burguesia, em geral, defendeu a existência de um Estado que interferia no mercado, seja fascista ou socialdemocrata. Quando os Estados socialdemocratas começaram, ainda que de maneira limitada, a beneficiar a classe trabalhadora, quando a crise já estava resolvida e o comunismo já não ameaçava tanto, a burguesia passou a defender, mais uma vez, a não interferência do Estado na economia, o neoliberalismo, tendência que vem se realizando cada vez mais. Estaria esta burguesia se contradizendo? De maneira alguma: em todas estas vezes elas estavam atendendo ao seus interesses: ela não é, a priori, nem contra nem a favor do Estado. Ela defende o Estado quando é de seu interesse, e o ataca da mesma forma. 

Quando, no ano de 2012, a justiça de São Paulo determina a retirada de 9.000 pessoas que já moravam no local há oito anos para devolver as terras da empresa falida de NajiNahas, terra da qual ele não pagava imposto e cometia, assim, um crime, isso é um conflito de classes. O governo, representando a classe burguesa, perdoou as faltas do burguês levando 9.000 proletários às ruas. Quando os governos europeus determinam medidas de austeridade, removendo direitos da população para tentar salvar os bancos da crise, crise criada pelos próprios bancos, temos um conflito de classes. Se estes governos mantivessem os direitos que o povo reclama, os bancos iriam à falência. Os exemplos são inúmeros.

O fato mais relevante, no caso, é que, dentro do capitalismo, quando alguma coisa é do interesse do trabalhador, não é da burguesia, e quando é da burguesia, não é do trabalhador, no que diz respeito à política e economia. A reforma agrária, por exemplo, beneficia quem? A regulamentação da mídia? Assistência social, saúde gratuita? A ideia de que é possível conciliar as classes, por exemplo, pode beneficiar apenas a classe dominante, pois mascara a realidade.

Publicado Originalmente em: http://esperancacritica.blogspot.com.br/2013/02/ainda-existe-luta-de-classes.html

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