Adeus Araújo Vianna, eu te mando um abraçaço!

30/04/2013 08:45

Elenilton Neukamp

Era uma vez um auditório chamado Araújo Vianna. Eu o conheci em outros tempos, onde não era a oitava maravilha do mundo mas nele se podia entrar num domingo à tarde com sol.

Semana passada fomos lá ver o Caetano e seu show “Abraçaço”. O povão ficou pela rua vendendo churrasquinho e pipoca. Lá dentro senhoras respeitáveis tomavam espumante em pequenas taças de plástico e comentavam os cinquenta tons de livros da moda que haviam acabado de ler. Meninas tensas esperavam na fila para comprar a sua. O ar condicionado impressionava um senhor que ia entrando, enquanto seu amigo procurava ávido pelo banheiro. Cadeiras numeradas e pessoas gentis mostrando a cada um o seu devido assento.

Se eu fosse ingênuo diria que o Araújo Vianna ficou bonito e organizado. E ficou mesmo. Porém esta é uma constatação superficial. Com 40 anos e muitos pés de galinha na face já é tempo de deixar de ser ingênuo. Os 18 milhões que foram colocados na reforma me fazem pensar para muito além dos números nas poltronas, do brinco de ouro da mulher ao lado ou dos doze reais que cobram por uma tacinha ridícula de espumante. Nenhum problema com o dinheiro dos empresários do entretenimento e seus investimentos nem com a grana que se gasta fácil. Mas com o dinheiro público todos os problemas. Minha própria grana eu gostaria que fosse utilizada para o desfrute da maioria. A reforma era para custar 6 milhões, e estes 6 viraram 18! Quanto disso foi dinheiro da prefeitura?

Me perdoem a má vontade, não é nada pessoal. Mas não confio em vocês. Não boto fé nestes senhores prefeito, amigos, secretários e etc e tal. E ainda menos no cordão de puxa-sacos que cada vez aumenta mais. Não jogo bolinha de gude com vocês nem “às brinca”. E tenho a curiosa percepção que a grande maioria das pessoas pensa o mesmo.

Os novos donos do Araújo Vianna cobram preços de Primeiro Mundo, mas os assentos são de madeira e o som continua com problemas. Lembro de um show público, neste mesmo lugar em 1992. Moleque de Rua era o nome do grupo. Uma das melhores apresentações que já assisti e dancei. Sim, Porto Alegre era outra, eu sei. Eu dançava bem mais e nem éramos tão bundões como hoje. Talvez por isso o Caetano não nos disse nem boa noite. Quem disse “oi” foi o patrocinador, que agora dá um novo nome para o auditório: “Oi apresenta Auditório Araújo Vianna”. O publicitário que inventou isto merece um prêmio. Pior que ele, só aquele outro que criou a propaganda do curso Unificado, que diz assim: “Detone os concorrentes e passe para a nova fase da sua vida.” Este merece ser detonado com um prêmio especial e uma viagem para as Ilhas Fake só de ida. Onde ficam estas ilhas? Também não sei, e é melhor que ninguém saiba para não haver o risco de quererem resgatá-lo.

Para não soar tão feio sugiro um novo nome: “Espaço Oi”, “Auditório Oi” ou “Opus Auditório” (que é o nome da empresa que ganhou a concorrência). Mudem o nome, em nome da sinceridade nos negócios e de meus ouvidos sensíveis.

Araújo Vianna lembra um outro lugar, outro tempo, onde o acesso não era restrito à fatia da população que tem 150 ou 200 pratas para desembolsar assim no mais no meio de uma semana de outono. Mais 20 ou 30 de estacionamento ou táxi, ou mil horas de espera pelo ônibus que nunca chega. Nada contra as pessoas com condições para isto, e eu mesmo posso eventualmente ser uma delas (bem eventualmente, que fique claro). O detalhe é que estas mesmas pessoas podem pagar isto em locais privados. Há vários deles, para todos os gostos e bolsos. Por que um lugar assim no meio de um parque municipal?

Seguindo a sessão nostalgia, também dá uma certa saudade dos tempos em que existia a EPTC. Alguém lembra? Se esta empresa não fosse fictícia nos dias de hoje (servindo apenas para defender aumento de passagem de ônibus), quem sabe até poderia enviar UM de seus agentes. Ao menos para parar o fluxo em alguns momentos em frente ao Auditório Oi, para que as velhinhas e velhinhos possam também ter o direito de ir e vir sem virar alvo fácil correndo em meio a automóveis furiosos. Também não seria demais se alguém lembrasse aos taxistas o significado da cor vermelha nas sinaleiras. Mas tá, tudo bem, sei que já estou pedindo demais e nos dias de hoje é moda baixar a cabeça e deixar como está.

Nem achei maiores problemas naquela grade colocada em volta do antigo Araújo Viana. Não ficou esteticamente agressiva. Apenas gostaria de saber quanto será pago por aquela área toda, e se é mesmo legal vender uma área no meio da Redenção. Claro, irão me dizer que não há venda alguma, e que se trata apenas de um contratinho de 10 ou 20 anos. Tudo bem. 20 anos não é quase nada mesmo. Nem sei por que afinal fico insistindo nisto. Minha mente anda confusa pelo medo, e a culpa é destes estudantes que aterrorizam a cidade com seus cantos e seus cartazes agressivos.

Me disseram que ali, bem ali no Oi Apresenta Auditório... também houve um ataque de uma horda de anarquistas mascarados, que teriam atacado o símbolo sagrado da Cloaca Cola e ateado fogo a uma pobre lata plástica de refrigerante, que até então não havia feito nada senão decorar a nova cara do lugar. Os mesmos meliantes teriam também esvaziado o mascote da Copa do Mundo, maculando assim a imagem de Porto Alegre perante os bons homens da Fifa. Caetano cantou que “a bossa nova é foda”. Que nada. Foda é a Fifa, mas num sentido inverso ao da música.

Mas voltemos ao show de Caetano. 70 anos de idade e o cara vem fazendo rock and roll. Gostei. Não sei se o público que estava lá aprovou muito os solos de guitarra e a batida crua de certas composições. Mesmo assim quem não aplaudia chacoalhava as joias. Percebi que na fila em frente houve cochicho e desconforto quando ele cantou a bela canção sobre Carlos Marighella (“Um comunista”), sob uma luz vermelha e repetindo que os comunistas guardavam sonhos.

O baiano morreu, eu estava no exílio.

E mandei um recado

que eu é que tinha morrido e ele que estava vivo...”

No banheiro, alguém ouviu duas frequentadoras do novo auditório, meio bêbadas, que se perguntavam se “os comunistas” eram um jogo ou um novo aplicativo. Sinal dos tempos.

Por estas e por muitas outras é que digo: Adeus Araújo Vianna. Eu te mando um abraçaço!

 

 

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