Aceitação e Rejeição Acrítica aos Black Blocs

06/11/2013 09:26

Lucas Fier

Tenho me surpreendido com a polêmica que os Black Blocs causaram dentro da esquerdas, e como tem sido transformados em heróis de uns e vilões de outros sem uma observação muito crítica. Se de um lado os acusam de forma leviana, de outro, acusam os críticos da mesma forma, como se toda e qualquer crítica negativa fosse inválida. Logo falarei sobre isso.

Os Black Blocs surgiram na Alemanha Ocidental nos anos 80 do movimento autonomista, um movimento revolucionário que criara, na época, acampamentos autogeridos e squats que procuravam se opor à ordem capitalista. O governo realizou uma ofensiva contra tais acampamentos. Para se proteger, os militantes enfrentaram a polícia cobrindo-se de preto dos pés à cabeça, usando capacetes e o que pudesse servir de proteção. O nome “bloco negro” foi dado pela imprensa alemã.

Os Black Blocs, portanto, nasceram como uma tática de enfrentamento com a polícia. E esta tática começou a se espalhar pela Europa e Estado Unidos ainda nos anos 80. Na década seguinte, porém, Black Blocs estadunidenses iniciaram atos de violência simbólica, isto é, começaram a destruir símbolos do capitalismo.

No Brasil a ação dos Black Blocs se iniciou no ano de 2.000 com um ataque ao prédio da Bovespa em São Paulo em conjunto à ataques em diversos países contra a reunião do FMI em Praga. Só este ano, no entanto, eles ganharam atenção da mídia brasileira, apresentado por este como símbolo de baderna e protesto violento e ilegítimo.

Eu, pessoalmente, sou favorável aos Black Blocs, mas nem por isso estou obrigado a concordar com tudo que eles façam, e apenas um fanático me consideraria um reacionário por causa disso. Eu posso, por exemplo, apoiá-los enquanto tática de enfrentamento com a polícia, mas discordar da efetividade das ações de violência simbólica. Mas se eu discordar da efetividade, isso não significa duvidar da intenção, nem significa negá-los por completo.

Com relação as críticas que são feitas aos Black Blocs, muitas são absolutamente levianas. São falsas as acusações de que eles são reacionários. Trata-se de jovens mais ou menos politizados (mais ou menos porque agregam pessoas diferentes, com entendimentos diferentes, uma vez que não são um movimento), mas que estão vinculados à uma ideologia, sobretudo, anticapitalista e em favor do povo, mantendo um espírito revolucionário.

Também não me parece convincente a alegação de que estão errados porque vivemos numa democracia e que a prática deles é antidemocrática. Convenhamos que a nossa democracia deixa muito a desejar, e não há nada de democrático na forma como a polícia militar, com sua truculência institucionalizada, abafa a voz popular das manifestações agindo como verdadeiros fascistas sob o aval do Estado.

Também é ridícula a tentativa de desmerecê-los apenas porque cobrem o rosto, como se fizessem isso porque se envergonhassem. E é falsa, acima de tudo, sua vinculação com o fascismo, como fez Marilena Chauí, que sem dúvida não tinha más intenções ao equivocar-se desta forma.

Por outro lado, os Black Blocs estão sujeitos à critica como tudo que for importante, e é do interesse deles que levem à sério tais críticas, se é que se interessam em transformar mesmo a realidade. Críticas nos ajudam a evoluir.

É preciso pensar, antes de mais nada, na efetividade de cada ação. Até mesmo a melhor das organizações pode cometer erros por conta de concepções errôneas. E assim se pode, por exemplo, mesmo com a melhor das intenções, afastar as massas, ser mal visto pela população, dar legitimidade (aos olhos e uma população desinformada) à violência da polícia.

Eu pessoalmente tenho sérias dúvidas quanto à efetividade da violência simbólica, senão em momentos muito específicos, e jamais os apoiarei se tomarem iniciativa na confronto com a polícia. Existem manifestações das quais não se deve haver enfrentamento, nem que seja por questões estratégicas; mas cada caso é um caso. Mas enquanto eles defenderem os movimentos sociais da violência iniciada pela polícia, como têm procurado fazer, acho não só legítimo, mas necessário.

Entre defensores dos Black Blocs tem corrido a falácia de que quem é contra eles é a favor da polícia. Como se o que definisse se uma pessoa é de esquerda ou de direita fosse ser adepto dos Black Blocs ou não. Mais maniqueísmo impossível.

E é compreensível que pessoas de esquerda, por mais que instruídas, se assustem com grupos mascarados, especialmente aquelas que têm uma concepção de emancipação (seja uma reforma ou uma revolução) de massas. Essas pessoas muitas vezes têm na memória nosso passado recente de terror do regime militar e têm medo, absolutamente justificado, da legalidade ser desacreditada dando suporte a um golpe. Ou que essas pessoas tenham aversão à espontaneísmos e ações individualistas, até porque geralmente os Black Blocs são confundidos com movimentos. Cabe a nós esclarecer, não atacar.

Pra finalizar, gostaria de lembrar que os Black Blocs, certos ou errados, eficazes ou não, nos lembram de que não precisamos aceitar que a violência do Estado cale as manifestações e que os movimentos sociais também podem e devem se defender. Espero que tanto as esquerdas em geral os reconheçam como eles próprios saibam melhor se articular com os demais movimentos sociais e estabelecer um diálogo melhor com a população.

Publicado originalmente em: http://esperancacritica.blogspot.com.br/2013/11/aceitacao-e-rejeicao-acritica-aos-black.html

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