9º Pelotão - A campanha do Afeganistão vista pelos soviéticos

08/04/2014 10:32

Davenir Viganon

A princípio ia comentar este filme junto com “Nascido para Matar” devido a algumas semelhanças. Porém, por ser pouco conhecido no Brasil, pelo filme ser da Rússia pós-URSS, e mostrar o lado soviético da Guerra do Afeganistão mereceu um texto só para ele.

O 9º pelotão (9 Pota) foi um verdadeiro sucesso de bilheteria na Rússia sendo o filme mais visto desde o fim da URSS e, mesmo assim, é quase desconhecido do público brasileiro. A produção russa, ucraniana e finlandesa de 2005 é dirigida pelo russo Fyodor Bondarchuk, que vem de uma família de atores e cineastas desde o período soviético. Seu pai foi o autor da adaptação cinematográfica de mais de 7 horas de Guerra e Paz, um dos maiores empreendimentos do cinema mundial.

A história lembra "Nascido para matar" de Kubrick. Um grupo de recrutas que vem de várias partes da União Soviética e são submetidos a um treinamento duro, que vai até metade do filme, e depois são lançados à linha de frente na malfadada campanha do Afeganistão contra os guerrilheiros Mujahedins de 1979-1989. A campanha fracassada dos soviéticos exigiu mais sensibilidade na abordagem ao contrário da também fracassada campanha estadunidense no Vietnã, que por sua vez foi abordada em inúmeros filmes. Voltando a Rùssia, os fracassos militares e políticos na Rússia costumam ser ignorados propositalmente pelos meios de comunicação do país.

Na parte do treinamento, os recrutas são treinados pelo sargento Dygala, que faz parecer o treinamento de Hartman um passeio no parque. Seus rompantes de sensibilidade e de fúria, o tornam muito instável e perigoso aos recrutas, endossando a fama do treinamento do exército russo como um dos mais violentos do mundo. Mas ao contrário do que se difundia no cinema influenciado pelo anticomunismo, não os transforma em máquinas de matar como os soldados que Rambo enfrenta no terceiro filme.

Os soldados não são retratados sofrendo nenhum tipo de lavagem cerebral como em Nascido para Matar, porém estão até certo ponto entregues a própria sorte. A situação central do filme é o abandono do pelotão no chamado “cume 3234” em meio à debandada de 1989 evidencia bem isso. Entretanto já temos apontamento dessa situação quando o soldado Chugum recebe sua metralhadora RPK com o cano torto.

Os soldados enfrentam uma batalha decisiva por suas vidas e não pela campanha que já está fadada ao fracasso. É possível notar alguns ocidentais entre os guerrilheiros afegãos participando do ataque, evidenciando a participação dos estadunidenses no conflito através da CIA.

O filme corresponde ao atual momento russo de resgate da grandeza militar dos tempos da União Soviética, através de seus símbolos [1] grande potência para fortalecimento do Governo Pútin. O diretor é um apoiador político assumido e membro de seu partido [2]

Fyodor também interpreta o Cap. Khokhol

Porém mesmo com essas influências políticas, as quais são sentidas no filme, é interessante ver a campanha soviética retratada pelos próprios russos. O filme é um bom exercício que humaniza a condição dos soldados soviéticos em contraponto a visão descaradamente ideologizada do conflito pelo cinema Hollywodiano de Rambo III, em que os soldados russos são simples maquinas de matar sádicas. A experiência é válida mesmo que os horizontes políticos da produção sejam limitados ao nacionalismo da Rússia capitalista.

Notas

[1] Por exemplo, a manutenção da estrela vermelha como símbolo nos aviões da Força Aérea Russa.

[2] http://www.theguardian.com/film/2014/feb/13/fedor-bondarchuk-stalingrad-annoyed-people

[atualizado às 13:10]

—————

Voltar


Comentários: 9º Pelotão - A campanha do Afeganistão vista pelos soviéticos

Nenhum comentário foi encontrado.


Crie um site com

  • Totalmente GRÁTIS
  • Centenas de templates
  • Todo em português

Este site foi criado com Webnode. Crie um grátis para você também!