20 de Setembro: Afinal, o que temos a comemorar?

20/09/2014 14:18

Daniel Baptista

Talvez tenha ele julgado que seria esse o melhor meio de se ver livre de mim; talvez tenha sido leviandade, falta de reflexão, negligência,e sou tentado a acrediatr que esse homem, apesar de ser branco, pertence aos habitantes dessa região que têm costumes semelhantes dos gaúchos.

Auguste Saint-Hilaire, 1820.

Além do dito povo, há naquela região, e principalmente nas proximidades de Montividéu e Maldonado, uma outra classe de gente, mui apropriadamente chamados gaúchos ou gaudérios. [...] Sua nudez, suas barbas crescidas, seus cabelos sempre despenteado, sua sujeira e a brutalidade de sua aparência os tornam horríveis de ver. Por nenhum motivo ou interesse querem eles trabalhar para alguém, e além de serem ladrões também raptam mulheres. A essas vivem com elas em choças, abatendo o gado bravio para o seu sustento.

Madaline Nichols, 1780.

Neste dia e em todos os outros vinte de setembro o Rio Grande do Sul entra em festa. Nesta data nós, que aqui estamos ao norte do Uruguai, inflamos os nossos peitos e bradamos como os valentes combatentes do século XIX que somos orgulhosos de sermos um povo aguerrido e bravo. Com a certeza de 44% de escoceses comemoramos a nossa emancipação e o fim da tirania.

Como estudantes de história que somos essa data nos provoca certo desconforto e atônitos vemos desfiles que evocam e louvam um gaúcho leal, tradicional, e infinitamente diferenciado do restante do Brasil. “Somos um país dentro de um país!” “Nós temos uma cultura genuína!” Dizem os mais eufóricos, nunca fartos de um chá de origem indígena, vestido com calças turcas e enfarados com o típico churrasco gaúcho, um assado que a milhares de anos se faz em qualquer canto do planeta.

Estátua do Laçador, tão estática quanto o tradicionalismo dos CTG

Mas precisamente, porque nós gaúchos a cada sete dias antes de todo o vinte de setembro, começamos a celebrar nossas façanhas de modelo a toda a terra? Deve ser porque reproduzimos tacitamente, regras e rituais que implicam uma continuidade em relação ao nosso passado[1]. Esses rituais que evocam o espírito farroupilha servem para nos tornar coesos, legitimar instituições e reproduzir valores impostos de cima para baixo. Talvez esta última, seja mais presente em nosso meio. Em nossos festejos teimamos em mitificar o gaúcho fazendeiro, estancieiro e latifundiário, sempre sufocamos o gaúcho errante, vagabundo, peão, pobre e ignorante a este último personagem delega-se a lealdade ao patrão do CTG. Desta forma ao celebrarmos um passado idealizado, glorificamos um gaúcho virtuoso, legitimamos a hierarquização da pirâmide social, onde em seu topo estão os tutores e vigias de nossas longínquas raízes. O gaúcho era um indivíduo errante, que vivia na marginalidade, pobre, mestiço, vivia de pequenos trabalhos na lida campeira e por vezes, saqueava e roubava para manter o seu sustento nas vastidões do pampa argentino/uruguaio e sul brasileiro. Conforme a fazenda e ao latifúndio iam avançando essa massa populacional foi sendo absorvida pela lógica fundiária dos estancieiros através do conchavo e muitas vezes, da violência. O uso das características rudes desses homens do século XVIII que nos remetem ao destemor foi deslocado para uma figura alegórica que encarna em nosso imaginário como material. Os intelectuais que construíram a figura do gaúcho ao longo do século XX encontraram na materialidade substrato para alimentar a ideologia. A ideologia sustentada pelo gauchismo opera em nosso meio como a verdadeira cultura do Rio Grande do Sul.

Mas o que queriam os farrapos de 1835? Uma república ou apenas garantir os interesses de seu status? Os livros sobre o assunto nos remetem a um projeto que simplesmente demonstrava-se contraditório se caso fosse concretizado. Tocar a economia sem o modo de produção escravo no que seria a república era inviável naquela época. Uma população de negros libertos seria demasiadamente perigosa para as intenções dos apoiadores da revolução (que, diga-se de passagem, nunca foram a maioria no Rio Grande do Sul). A tirania imperial tantas vezes repetida pelos CTG’s como motor de nossa revolução e provocador de um sentimento republicano que ansiava a separação seria a mesma aplicada em cima daqueles que lutaram obrigados ao lado do estancieiro, tanto que a vergonhosa atitude em Porongos foi à saída encontrada para sanar o problema dos negros que preferiram à guerra a escravidão[2]. Há ainda quem diga que a atitude republicana dos farrapos seria na verdade, o pioneirismo de uma futura república que integraria a nação inteira, sendo que nós gaúchos preferimos ficar ao lado do Brasil e vigiar nossas fronteiras contra o intruso (conforme o escrito por alguns nomes da historiografia gaúcha da década de 1920) [3]. Os generais farrapos queriam na verdade e falando sem rodeios, garantir uma maior lucratividade em suas fazendas sem deixar de explorar os escravos e os trabalhadores livres pobres. Os ideais de liberdade, fraternidade e igualdade tão comemorados como legítimos valores farroupilhas, não passam de um delírio dos tradicionalistas atuais, ligados a instituições e regimes opressores[4].

Embora os festejos prévios que culminam no vinte de setembro exaltem - e por consequência é exaltado pela maioria desinformada – o orgulho de sermos gaúchos e idealistas, nós enquanto estudantes, não podemos deixar de possuir uma visão crítica sobre os fatos que legitimam os interesses de uma minoria. Não sinto orgulho de uma tradição fantoche que está a serviço das elites rurais, sectária, que omite o papel dos excluídos e valoriza a ganância de “heróis”. Não temos que sentir orgulho em comemorar esta tradição que é intolerante, incapaz de aceitar o diferente e vê-lo como igual[5]. Não podemos orgulhar-nos de uma hiperbólica exaltação cultural-artificial que sufoca o folclore e perpassa toda a variedade de uma população, homogeneizando-a e que se demonstra indiferente e no pior dos casos, auto-outorga-se como superior a outras vertentes culturais.  Não sinto orgulho de uma batalha que permitiu  massacre de homens sem armas. E afinal o que é esse gaúcho que tanto nos orgulha? Homens que entregaram a suas oprimidas e exploradas minorias por meia dúzia de regalias para ficarem pianinhos, depois que as tropas imperiais cruzaram com força máxima o rio Mampituba? Somos uma mescla de tradições e hábitos platinos que foram historicamente condicionados a interesses de senhores latifundiários que regem a economia? O que temos de tão especial assim a ponto de nos fantasiarmos e ir para as ruas fazer um carnaval em pleno mês de setembro? Só resta-nos uma certeza: que o gaúcho mitificado pela mídia local e CTG’s está muito distante do sujeito histórico que fora reduzido e pulverizado dentro de uma reinterpretação fantasiosa de nossa revolta imperial.

Notas

[1] HOBSBAWN, Eric. A invenção das tradições.

[2] MAESTRI, Mário. http://ujcportoalegre.blogspot.com.br/2010/09/revolucao-dos-fazendeiros.html

[3] GUTFREIND, Ieda. http://books.google.com.br/books/about/A_Historiografia_Rio_Grandense.html?id=lR0sAAAAYAAJ&redir_esc=y

[4] http://www.ihu.unisinos.br/noticias/6506-historicamente-o-rio-grande-e-multicultural-e-multi-etnico-a-integra-do-manifesto-contra-o-tradicionalismo

[5] http://www2.correiodopovo.com.br/Noticias/?Noticia=535456

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