A vitória de Hollande e a mídia no Brasil

18/05/2012 12:59

Davenir Viganon

Ainda é cedo para analisar a repercussão do resultado das eleições francesas que terminaram no dia 6 desse mês, mas podemos esperar que ocorram mudanças na política francesa e na Européia, devida á importância do país para o continente. Vamos contextualizar a recente crise da Europa, suas conseqüências na política e na classe trabalhadora européia com o recente resultado as eleições, além do tratamento do assunto dado pela na mídia aqui no Brasil.

A vitória candidato socialista François Hollande, sobre o candidato conservador Nicolas Sarkosy foi assunto de destaque na mídia. Por vezes o destaque foi para comparar a beleza da nova primeira dama com a da anterior, por vezes destacam de maneira mais “séria” o lado negativo da eleição do novo presidente francês como a reportagem do site da Globo[1].

A reportagem aborda a reação negativa dos mercados financeiros frente à eleição de um presidente socialista. O resultado das eleições na França promete acirrar as discussões sobre os rumos da política, economia e sociedade européias daqui para frente. O cenário político europeu já está abalado com a crise da Europa e com Hollande eleito aponta-se mudanças na condução da política no continente.

François Hollande, assumira uma das maiores potências da Europa. 

Vamos entender melhor essa crise. A crise européia é uma crise financeira se divida basicamente em duas fases: Em 2008 com a crise nos bancos e em 2011 com a crise nos Estados. Os mercados financeiros se desestabilizaram nos Estados Unidos, em 2008, e chegou logo depois a Europa fazendo parte de um único processo. Mas, voltando um pouco, o que é esse mercado financeiro? Um mercado financeiro é um mecanismo de compra e venda que opera em um nível complexo, apenas com movimentações financeiras, que são complexas demais para serem feitas com moeda impressa. Todos que colocam o dinheiro comprando ou vendendo partes de uma empresa, estão no mercado financeiro. Nesse sistema complexo, as grandes empresas são quem  encabeçam por serem detentoras de meios para investir maciçamente, como os bancos. Devido à descentralização do sistema financeiro, o chamamos de mercado financeiro ou de mercado. Co-existindo com os governos, o mercado muitas vezes tem interesses que contrastam com os dos governantes outras vezes se alinham com eles.

Os interesses do mercado financeiro são representados na política pelo que chamamos de neoliberalismo. Um bom exemplo é o ex-presidente francês Sarkosy, que beneficiou o mercado e mudou várias leis que beneficiavam os trabalhadores na França, buscando acabar com política vigente que é a do Bem estar-social. Os capitalistas que fazem investimentos através dos bancos, parte fundamental desse sistema, começaram a quebrar, pois eram credores de tantas dividas que seus devedores perderam a capacidade de paga-las. Como a economia depende da circulação constante de bens ela não pode fluir se apenas um lado acumula no caso os representantes do mercado financeiro, assim deflagrou-se a crise de 2008. Então o que os governos fizeram em relação a isso? Na Europa, de maneira geral, a reação foi parecida, pois a grande maioria dos governantes apóia a política neoliberal. Os governos liberaram bilhões dos cofres públicos para tentar evitar a quebradeira dos bancos. Uma vez que os Estados colaboraram para salvar os bancos, esses ficaram quebrados.

Em 2011 começou a segunda fase da crise. Os Estados para cobrir essa perda, adotaram as chamadas medidas de austeridade, que são leis que diminuem os benefícios dos trabalhadores, e encargos sociais, como pensões, investimentos em hospitais, escolas, visando poupar gastos coma população, em outras palavras, os trabalhadores, que sustentam o Estado, pagando impostos, e também às empresas, trabalhando para elas e consumindo seus produtos vão pagar a conta. Em alguns países, como na Grécia, as medidas foram aplicadas com muita severidade. No caso da França na época de Sarkosy, uma das muitas medidas, foi o aumento do tempo de contribuição para a aposentadoria em dois anos. O que no cenário brasileiro seria aceito mansamente pela grande parte da população, na terra da Torre Eiffel causou muitos protestos e greves pelo país. A conseqüência política dessas medidas foi o resultado da ultima eleição que deu a vitória para o candidato socialista François Hollande. Em sua pauta, estão: a não obediência cega aos mercados e investimentos no Estado e não nos bancos. Essa situação promete gerar tensões entre o novo presidente francês e a chanceler da Alemanha Angela Merkel, que representa mais firmemente que Sarkosy a política neoliberal. Então as duas maiores potências da Europa continental, França e Alemanha terão papel principal no debate sobre o andamento da política para a Europa daqui em diante.

E como as noticias tem chegado ao nosso país? A Globo preferiu destacar o impacto negativo da eleição de um socialista, que “desagradou o mercado”. Mas por que um presidente deve agradar o mercado? Não deveria agradar a população que o elegeu? Por que não houve esse alarde por parte da Globo a época da eleição de Sarkozy? Já não é a primeira vez que a Globo se mostra insatisfeita com a eleição de um candidato de esquerda sobre um candidato neoliberal.

No Brasil a politica neoliberal também tem seus representantes e quando eles não são eleitos eles também “provocam reações negativas nos mercados”. A politica neoliberal foi implantada profundamente no Brasil, desde Fernando Collor de Mello e a rede Globo que apoiou à ditadura também apoiou Collor desde sua candidatura, adotando uma postura de privilegiar a direita não importando se é autoritária ou neoliberal. Quando o presidente Lula, de um partido de esquerda foi eleito, a Rede Globo, que apoiava o candidato neoliberal, José Serra, noticiou ao publico que o “risco Brasil aumentou”, o que de fato se provou infundado. Até com a eleição da presidente Dilma tentaram aterrorizar a população da mesma maneira o que ficou mais bizarro visto que a atual presidente ser uma economista de caráter enérgico. A pergunta não muda. A eleição do presidente Lula deveria ter agradado a quem, os mercados e seu índice de “risco Brasil” ou a população que o elegeu?

Mas não é apenas desqualificando políticos de esquerda que a Globo influência em seus jornais, também o faz mostrando o lado humano de seus políticos preferidos. Voltando a França, foi noticiado na mesma semana da eleição francesa, que o ex-presidente o Sarkozy foi respeitoso para com Hollande numa cerimônia[2]! Se Sarkosy é tão educado assim, por que não exibiu dias antes o mesmo Sarkozy sendo agressivo e desrespeitoso com o então candidato socialista chamando de “canalha” entre outros ataques?

Talvez pelo mesmo motivo que em nosso país, a Rede Globo procura constantemente passar uma boa imagem de seus políticos favoritos. Por exemplo, José Serra, sempre apresentado como um senhor gentil, doce e educado e principalmente como um competente administrador. Quando na verdade as conhecidas qualidades de Serra estão ao alcance de um clique, mas obviamente longe das telas da Globo.

Em suma, os favoritos da Globo, são os favoritos do mercado e suas noticias não mudam muito. A eleição de Hollande é a resposta, muito significativa, através do voto que a população francesa está contra o favorecimento dos mercados, e não sendo a única, nas eleições de cargos provinciais e parlamentares pela Europa já mostra perdas significativas de cargos eletivos públicos dos neoliberais para partidos social-democratas, comunistas e até fascistas. O que podemos dizer com alguma segurança é que apesar dos mercados, os políticos neoliberais não estarem satisfeitos com a vitória de Hollande, a população da França apostou suas fichas nele para que ele não repita os mesmos erros de seu antecessor. Quanto a nossa mídia de massa podemos sempre contar com sua parcialidade mal disfarçada de fundo neoliberal.

 

 

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Comentários

Data: 25/05/2012

De: Carolina Araujo

Assunto: Clareza

Bom texto.
Simples e objetivo, como tem que ser!

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