A religião se apresentando! Para que mesmo? (II)

07/06/2013 08:27

Marcos Belmonte

Continuação da parte I

Gostaria de trazer a história para os dias de hoje. Inicialmente, comentamos sobre a situação do Brasil, em algumas localidades menos assistidas pelo estado, que são resultado de uma sistemática secular de exploração e desrespeito à vida e a humanidade. As igrejas pentecostais estão crescendo de forma exponencial nessas localidades, que são desestruturadas e dominadas pelas consequências desse abandono estatal, que, por sua vez, gera os efeitos da desassistência social, como o abandono escolar e a falta de perspectiva para empregos com salários mais generosos. Um dado é importante e contribui na análise:

O Censo reitera o crescimento do pentecostalismo na base da pirâmide social: 64% do grupo que ganha até um salário mínimo e 42% tem ensino fundamental incompleto. “É nessas periferias desassistidas que as igrejas acabam servindo como fronteira moral, como fortaleza contra o tráfico de drogas e a violência” diz o sociólogo Ricardo Mariano, da PUC-RS[1].

Mais do que estarem se desenvolvendo nessas localidades, e de uma maneira geral, em todo o país, esse setor conservador está tendo seu número aumentado nas câmaras municipais e nas instâncias estaduais e federais. Pesquisas indicam que o número de representantes políticos pentecostais – os populares “crentes” – tem dobrado em diversas localidades em poucos anos[2]. Trata-se de um aspecto comum à democracia, onde, uma grande parcela da população escolhe seus representantes e, podemos notar certa “consciência de classe” nessa atitude, onde, o voto do “crente” é no seu real representante “crente”. Contudo, sabemos da veia conservadora e ortodoxa desse seguimento religioso – como a maioria dos seguimentos religiosos -, e notaremos certo asco, desse, contra conquistas sociais a muito reivindicadas, como: uma maior liberdade para as mulheres, os casos homo-afetivos, o reconhecimento e importância da cultura africana e indígena, a abertura do diálogo sobre sexo com as crianças e etc. Essas conquistas são frutos de anos de lutas e, o que notamos, é que estão sendo ignoradas, quando não demonizadas por esse seguimento religioso que está crescendo no âmbito político do país. O que vamos mostrar, agora, é o início das ações políticas desses grupos “crentes”, são os projetos – e suas nascentes - de parlamentares evangélicos[3]:

Lei da calcinha: Obriga as noivas a se casarem com a roupa íntima e regula o decote dos vestidos (Vila Velha – ES)

O púlpito é pop: Declara o culto evangélico um “patrimônio imaterial” da cidade (São Paulo – SP)

Lei do Pai-Nosso: Obriga professores e alunos a orar antes do início das aulas na rede pública (Ilhéus – BA)

Banheiro gay: Cria um sanitário exclusivo para quem se declara gay, lésbica, travesti ou transgênero (São Paulo – SP)

Não beberás: Proíbe a existência de bares a menos de 300 metros de uma igreja para garantir a paz nos cultos (Sorocaba – SP)

Não fornicarás: Proíbe a instalação de máquinas de camisinhas em escolas para evitar o sexo precoce (Campo Grande – MS)

Carnaval de Deus: Prevê a realização de uma “Virada Evangélica”, nos moldes da Virada Cultural Paulistana (São Paulo – SP)

Lei do versículo: Obriga a leitura de trechos da bíblia antes das sessões legislativas na Câmara Municipal (Passo Fundo – RS)

Moeda divina: Impede a retirada da expressão “Deus seja louvado” existente nas notas de real (Congresso)

Dia do macho: Institui o Dia do Orgulho Hétero no calendário, em resposta ao Dia do Orgulho Gay (São Paulo – SP)

Cada uma dessas propostas representa um retrocesso nas conquistas sociais brasileiras. Contudo, são atos democráticos, pois, são propostas – de caráter religioso pentecostal – de parlamentares – religiosos crentes – eleitos pelo povo – religioso crente -. A constituição prevê a liberdade religiosa. É um direito do cidadão e, é livre de impostos. Essa religião virou uma espécie de império, pois, seu patrimônio financeiro é imenso, possui rádios, canais de televisão, milhões de fiéis e forte representação política. Portanto, é passível de preocupação por parte dos setores políticos mais “progressistas”, que, nesse sistema de alianças pró-governabilidade, acaba por ter que atender a certos interesses desse setor, cometendo, assim, escárnios, como dar a presidência da Comissão de Direitos Humanos ao pastor e deputado Marco Feliciano de São Paulo, um notório indivíduo carregado de preconceito e racista, segundo o teor de suas próprias declarações e, como se não bastasse a gripe espanhola para a humanidade, possui o apoio do caricato deputado Jair Bolsonaro, que fora apoiador e torturador no período do golpe militar, e é um notório preconceituoso e conservador ortodoxo. Os setores conservadores novamente unidos, pela moral e bons costumes aos brados de: Não à união homo-afetiva! Não aos despachos de macumba nas esquinas! Não a descriminalização da maconha! Não ao comunismo!... Sim à diminuição da maior idade penal para 16 anos! Sim à família! Sim a Pátria! Sim à Deus!

O que se vê nas televisões sensacionalistas, conservadoras e cooptadas é o fracasso retumbante do atual governo, exaltando a falta de segurança, corrupção, o absurdo exposto no “impostômetro”[4] e o populismo de ações como o bolsa família e a assistência às famílias de presidiários. Doravante, não esqueçamos a história da nascente do império midiático da família Marinho – e outras famílias - e de quem eram apoiadores; não nos esqueçamos de que os veículos distribuidores de jornais da Folha de São Paulo eram cedidos para o deslocamento de presos políticos para locais de tortura na época da ditadura; não nos esqueçamos de que São Paulo – como centro financeiro do país - é um epicentro dos capitais conservadores; não nos esqueçamos de que partidos como: PSDB, DEM, PP, PSC e etc., são representantes do capital financeiro, comercial, industrial, latifundiário, midiático e tantos outros lobbys[5]... Mas, o que esses canais de televisão precisam mostrar, também, é a aceitação histórica do ex-presidente Lula e a da atual presidenta Dilma; mostrar a imensa quantidade de brasileiros que ascenderam para a classe média e a redução da pobreza; mostrar os milhares de afro-descententes e indígenas com acesso às faculdades – antes, privilégio de caucasianos e de classes abastadas – e etc.

O que se apresenta é um campo de batalha, ideológico e de interesses, exposto todos os dias na televisão, nos jornais, nas revistas, nas rádios, na internet... Contudo é clara a tendênciosidade com a qual os grandes meios midiáticos cooptados transmitem as notícias, como no caso dos protestos contra o aumento da passagem em Porto Alegre, tratando ampliadamente das nuances “negativas” do movimento, como a depredação de prédios públicos e, esquecendo-se da notável demonstração de civismo, progressista e popular de cidadãos contra os desmandos do capital. No âmbito político, mas tratando da liberdade religiosa, há uma clara perseguição às religiões de matriz africana, como no caso dos despachos em vias públicas. Ainda em Porto Alegre, mas no âmbito cultural, vemos à caça às bruxas imposta pelo atual governo – com o apoio da mídia cooptada e da classe média conservadora – contra os centros culturais da cidade, entendidos por eles como locais de tráfico, assassinatos, badernas e etc. -, juntamente, as propostas do novo Código de Postura da cidade, que será de significativa importância para a cultura de Porto Alegre e que é pouco difundida nas grandes mídias. A truculência com a qual a polícia tem tratado das manifestações populares e o apoio dos setores conservadores contra essas ações nunca foi novidade, mas, está tomando proporções mais agudas, implícitas e explícitas, e homologadas pelos porta-vozes terrenos do Deus Único.

Outra função do aparelho ideológico é o de oferecer entretenimento para a população. Todos nós concordamos que um pouco de prazer é necessário nossa para vida. Contudo, o que a televisão cooptada tem feito é apresentar simulacros inacreditáveis – e lucrado grandemente com os merchandisings - que anestesiam as populações exaustas de suas rotinas de trabalhos, transportes lotados e etc., contundentemente, até deixá-los como uma espécie de zumbis, para posteriormente inocular suas notícias tendenciosas, que por sua vez são acatadas sem maiores questionamentos, como se a televisão não fosse capaz de mentir; consequentemente, após “drogar” os telespectadores e apavorá-los com seus pontos de vistas políticos, a religião vem para salvá-los das desgraças, claro, mediante o bendito dízimo. Não lembro se já falei isso, mas, o que temos posto, é um setor religioso conservador que se apresenta como solução para as desigualdades e que é fortemente apoiado por grupos conservadores que visam garantir e perpetuar seus interesses.

Como falado anteriormente, há setores satisfeitos e insatisfeitos. Há um conflito posto. Newton disse que toda a ação gera uma reação proporcional e inversamente polarizada; Aby Warburg disse que no Zeitgeist[6] encontrar-se-ão a bipolarização apolínea e dionisíaca pela força do nachleben[7], onde, uma nova concepção nascerá. O que entendo é que, como na Florença de 1494, a religião mostra-se como a única heroína de um sistema social em dificuldades, com o apoio de forças internas insatisfeitas e externas ambiciosas; que no Brasil dos anos 60, há um espelhamento ideológico e classista similar da situação sociopolítica da florentina quatrocentista; e, o que temos hoje é um “espírito de época” numa espécie de processo alquímico de confronto de interesses com uma certa “vida póstuma” que está acordando em reação à uma ação. Falta a intervenção da potência externa sedenta de poder para a contenção de alguma ameaça ideológica contrária a sua. Alguém a viu por aí? O que eu sei é que uma religião está novamente se apresentando. Para que mesmo?

Fontes

O Dia que Durou 21 Anos – Conspiração, Golpe de Estado, O Escolhido. Flávio Tavares. 2011. Documentário. 1h19min9seg

Carta Capital – Política, economia e cultura – Ano XVIII. N°734. 13 de abril de 2013

HIBBERTI, Christopher. Ascensão e queda da casa dos Medici – O Renascimento em Florença. Tradução: FEIST, Hildegard. Editora Companhia das Letras, São Paulo, 1993
Notas:

[1] Carta Capital – Política, economia e cultura. Ano XVIII. n°745 – 17 de abril de 2013. Pág.23

[2] Ibid

[3] ibid

[4] O Impostômetro mostra a quantidade de dinheiro arrecadado pelo governo. Está situado em São Paulo e foi colocado lá pelo setor do grande capital industrial e comercial privado, órgão, esse, forte apoiador da intervenção norte-americana e dos golpistas durante a ditadura. Esse apoio era devido a imensa quantidade de capital dos EUA despejado no Brasil, principalmente em São Paulo, destinado ao desenvolvimento econômico do país. Sobre a câmara do comércio de São Paulo, o historiador da Universidade de Brow, dos EUA, James Green afirma: Interessante é observar a reação da Câmara de Comércio de São Paulo. Eles afirmavam por unanimidade que apoiavam sem restrições o AI-5, que isso era uma medida necessária para garantir a estabilidade econômica e investimentos no Brasil e, portanto, davam total apoio à Costa e Silva e aos Atos. Isso mostra claramente como as multinacionais se alinharam irrestritamente às forças repressivas que estavam torturando cidadãos e violando direitos democráticos. O DIA QUE DUROU 21 ANOS. Flávio Tavares. 2011.  

[5] A política de Lobbys, conhecida metodologia norte-americana, que legaliza os financiamentos de campanhas de seus representantes políticos em troca de apoio e formulação de leis pró seus interesses, fora proposta para sua aplicação no Brasil em 1994, aproximadamente, por Marco Maciel e, hoje, está em tramitação no planalto para torná-la legal no Brasil.

[6] Expressão alemã e conceito de Warburg e significa Espírito de uma Época.

[7] Expressão alemã e conceito de Warburg e significa Vida Póstuma. Designa algum aspecto que sobrevive do passado e que ganha força em determinado momento histórico

 

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