A religião se apresentando! Para que mesmo? (I)

06/06/2013 08:42

Marcos Belmonte

Deve-se tolerar todas as religiões que toleram as outras, na medida que seus dogmas não tenham nada de contraditório com os deveres dos cidadãos. Mas aquele que ousar dizer “Fora da igreja não há salvação” deve ser expulso do Estado. Jean-Jacques Rousseau

Nossa sociedade está demonstrando de maneira bastante evidente os resultados de algumas décadas de políticas não tão efetivas – para dizer o mínimo -, para desarticular os anos de desigualdade aguda entre as classes. É uma dificuldade que transpassa o presente. Não é um problema de hoje. Algumas pessoas dirão que sempre foi assim. Mas estamos chegando a um ponto perigoso. É dever dos cidadãos trabalhar para estancar e retroceder essas dificuldades e injustiças sociais para dar as pessoas uma perspectiva real de uma vida melhor e com algum prazer, tão indispensável para dar alguma cor e dignidade para nossas existências. Digo que é um momento temerário pelo fato de que tais equívocos executivos podem desaguar em um âmbito onde a “revanche” ou a “caça as bruxas” pode se apresentar como uma saída para um país, um mundo melhor.

A realidade brasileira é fruto de séculos de uma metodologia política-econômica que privilegia uma pequena parcela da população em detrimento da maioria. Como essa minoria de privilegiados detêm a imensa maioria da riqueza brasileira, logo, a maioria acaba por dividir o “resto” e o ônus dessa equação. Um dos pontos negativos que podemos ver no Brasil é a superlotação das cidades – o que leva a diversos problemas, tais como: desemprego, sem-tetos, péssimo sistema de saúde e etc. -, e resulta na logística dessa população desprivilegiada – de maneira coerciva ou não - para as periferias das cidades. De uma maneira geral, as cidades adjacentes à grande-metropole – por vezes, bairros da própria metrópole-, se constituem de maneira desestruturada, o que resulta na má disponibilização de serviços básicos, como o saneamento, mas, de um ponto de vista ampliado, o que temos é a ausência – ou escassa presença - do estado nessas localidades, o que fará essas populações se desenvolverem inconsistentemente às suas demandas. Essa situação afeta todo o tempo de desenvolvimento adequado do ser humano social. Portanto, ele fica sem condições para ter uma infância devidamente assistida, frequentar a escola, fazer algum curso técnico e/ou ensino superior e etc. Muitos desses cidadãos acabarão, por alguns motivos, com empregos humildes – muito pela falta de instrução -, pois terão que largar a escolaridade para ajudar no sustento da família e, alguns, ainda, acabarão fazendo escolhas mais “complicadas”, como entrando para a vida do crime e/ou para as drogas. É uma grande equação com diversos fatores que levará a maioria da população para uma situação difícil, por vezes, desesperadora.

Temos um governo que está fazendo reformas que estão diminuindo, em alguns aspectos, as desigualdades e contradições geradas por décadas de executivos pró-interesses das classes abastadas e do status quod. Algumas dessas medidas estão deixando aqueles que sempre governavam o país para si próprios descontentes, ainda mais com três governos de opositores e sem perspectiva de eleições pela escassez de candidatos aptos e/ou de consenso. Outros setores do país estão descontentes com as intenções de se abrir a “caixa de Pandora” dos anos de chumbo. Os jornais falam de uma violência e corrupção endêmicas e descontroladas, de uma postura internacional equivocada – quando não absurda[1] - e, junto aos setores conservadores e descontentes, pedem mudanças. Conquistas foram e estão sendo realizadas. Ainda há dificuldades a serem superadas, e muitas. Há insatisfação de um lado e certa satisfação do outro. Há um conflito de interesses. Ouço certos tambores. Explico:   

No ano de 1494, na cidade de Florença, Itália, epicentro do Renascimento – nos termos comumente conhecidos – o governo dos Médici, que fora a principal e mais influente família da signoria[2] durante o século XV fora expulsa da cidade após a invasão de Carlos XVIII, rei da França – com alguma conivência da Papa  –  onde, quem assumira o comando do governo da cidade fora monge dominicano Girolano Savonarola, que segundo alguns autores, se tratava da figura de maior proeminência na cidade após a morte em 1492 de Lorenzo, O Magnífico[3]. Os discursos do monge atacavam o governo Médici e a corrupção de sua côrte. Dizia ele que as desigualdades, a corrupção, a fome e os pecados e etc., só seriam superados se, ao invés de os cidadãos seguirem as leis de uma signoria corrupta, seguissem as leis de Deus, bem como esquecerem sujeitos como Platão e Aristóteles que, segundo o monge, estavam ardendo no inferno. Após assumir o governo florentino, com a bênção do rei francês[4] - que invadira a Itália para se “prevenir” da ameaça dos turcos -, Savonarola estabeleceu um governo que alguns chamam de democrático teocrático, ou seja, a signoria continuaria a legislar e executar as leis, mas com a última palavra sendo a de Deus, ou da igreja, ou, mais especificamente, de Savonarola. Sabemos da imensa carga artística e filosófica que Florença desenvolveu no Quatrocentto, como: os estudos de Verrocchio e Polaiuollo; a filosofia de Alberti, Ficino e Mirandolla; as obras de Castagno, Ghirlandaio e Sandro Botticelli e etc., que se tratam de verdadeiros presentes para a posteridade, mas que estavam ameaçadas.

Florença promovia diversos eventos para a população – local e/ou vizinha – realizando comemorações diversas, bem como concursos, torneios e o seu famoso carnaval. Eram eventos repletos de cores e pompa reconhecidos por toda a Europa. Contudo, no ano de 1497 – que seria o penúltimo ano do governo de Savonarola – o mesmo, realizou o evento que ficou conhecido como o famoso “carnaval de Savonarola”. A manifestação era diametralmente oposta àquela proposta pela signoria dos Médici. Os relatos que se tem do dia dizem que as ruas estavam repletas de pessoas, com inúmeras crianças vestidas de branco com uma cruz vermelha em suas roupas portando nas mãos os mesmo objetos. Canções exaltando Deus e sermões eram ouvidos em todos os cantos da comuna nortista. Em determinado ponto da “comemoração”, uma parte da cidade fora escolhida para uma espécie de “purificação”. Foi então que os seguidores de Savonarola entraram nas casas das famílias abastadas, bem como nos espaços públicos, e traziam para a piazza della signoria[5] diversas obras de arte, roupas, adereços de embelezamento, faianças, utensílios domésticos, roupas, livros e etc., ou seja, tudo que Deus – ou Savonarola – considerasse como um signo da corrupção anterior e que os aglomerassem no meio da praça. É desnecessário falar que a próxima etapa fora colocar fogo em tudo.

Diversos autores da história da arte tratam esse dia como algo lamentável onde se deve ter perdido uma considerável parte do Renascimento. Mas o ataque do monge não se restringira à Florença. Girolano tinha profunda discordância, também, com a corrupção do papado, e esse fora um dos motes para seu enforcamento e reestabelecimento da autonomia da signoria, bem como o encerramento do banimento dos Médici. Mas o que temos deste fato é que um governo baseado em fé, amparado por forças internas descontentes e conservadoras, e uma potência externa sedenta de poder, “recebe” as chaves do governo para acabar com a corrupção e as “desigualdades” – fato que não aconteceu, pois, o status quod permanecera – em uma cidade na história.

Compreendo que um fato ocorrido a essa distância no tempo-espaço possa parecer anacrônico, obsoleto e de difícil relativização com nosso tempo. Como professores, sabemos das dificuldades dos alunos nessa assimilação da história como uma continuidade, como um processo passado-presente-futuro. Temos que desenvolver diversos meios atrativos para chamar esses alunos para nós para tentarmos convencê-los da importância e significância da história para o futuro deles. Passamos por dificuldades imensas. Agora imaginemos os cidadãos que não estão na escola e sim trabalhando para sustentar suas famílias, que chegam cansados e exaustos em casa. Para eles o sentido da história fica mais distante ainda. Portanto, traremos a história um pouco mais para perto. Para um momento que muitos deles, ou seus pais, devem ter vivido.

Durante os anos cinquenta e início dos sessenta, o Brasil estava imbuído de um forte sentimento nacional e carente de reformas que deveriam ser postas em prática para a melhoria social. A questão da reforma agrária era só uma das exigências de uma população que sempre fora espoliada. Os âmbitos da saúde, do desenvolvimento, da economia, da política e etc., eram reivindicações das populações mais carentes e/ou progressistas, em oposição ao comportamento ortodoxo e conservador das camadas mais abastadas e sua sede secular de governança em benefício próprio. As produções culturais da época tinham essas ideias implementadas em suas ações e obras. O cinema brasileiro apresentara um belo e reconhecido fôlego tratando desses assuntos e deixando mensagens de esperança e luta. Terra em Transe, de Glauber Rocha, era uma dessas manifestações do cinema de mostrava os anseios dos brasileiros. Os próprios cantores e suas músicas também versavam sobre essas reivindicações, assim como os poetas e escritores. O teatro era outro grande difusor cultural engajado.

O que pode ser entendido como um dos momentos que o povo mais apoiara um representante que estava disposto a fazer as reformas de base, tão necessárias para tornar o país mais justo e dar uma perspectiva de real melhora para as camadas mais pobres fora no comício de João Goulart na Central do Brasil em 13 de março de 1964. Jango fazia seu comício para centenas de milhares de brasileiros que demonstravam apoio ao candidato. Estavam segurando cartazes de “reforma agrária já!”, “o povo quer o socialismo”, “Jango, estamos com você!” e etc. O grande evento político somado ao maciço apoio da população para com João Goulart – juntamente a Leonel Brizola no sul – despertara o desconforto de setores conservadores da sociedade brasileira e de um certo “hóspede”.

O governo Goulart representa uma ameaça ao mundo livre. Minha conclusão é que as recentes ações de Goulart e Brizola para promover a reforma agrária levará para o Brasil um governo comunista como Fidel Castro fez em Cuba. Embaixador Lincoln Gordon.[6]

Lincoln Gordon ainda complementa seu relatório sobre a situação e suas perspectivas:

Estamos adotando medidas para fortalecer a resistência à Goulart, ações secretas estão em curso para organizar passeatas, a fim de criar um sentimento anti-comunista no congresso, nas forças armadas, na imprensa e nos grupos católicos[7].

O contexto internacional mostrava a bipolarização de dois métodos político-econômicos conhecido como a Guerra Fria. Revoluções estavam acontecendo na Ásia, África, Europa, na América Latina e Central. A paranoia do medo do comunismo estava atravessando o mundo e fazendo com que os status quod dos diversos países ficassem com receio das “reformas” que estariam por vir, isso, pois, teriam sua manutenção de privilégios e perpetuação ameaçados. Era muito comum associar o comunismo à ditadura, tirania, controle absoluto, falta de liberdade, torturas, assassinatos e etc. Quem de nós não ouviu a expressão Comedor de criançinhas para designar um comunista? Logicamente, muita dessa paranoia era construída pelos EUA através de seu braço intervencionista, a CIA – especializada em campanhas difamatórias -, que por sua vez, detectava grupos insatisfeitos dentro dos países que estavam passando por reformas – o que significava que os EUA teriam seus interesses econômicos “sabotados” – em detrimento dos setores conservadores, tais como: latifundiários, religiosos, setores da imprensa, do exército e classes abastadas que se beneficiavam dessa relação de submissão aos Estados Unidos. Um dos grupos mais insatisfeitos com as reformas e mais abalados com a propaganda anti-comunista eram os grupos católicos. Para demonstrar sua insatisfação para com a “ameaça vermelha”, um evento acontecera – em oposição ao comício de Jango - que acabara por reunir uma imensa multidão. Segundo Tavares (2011), Um milhão de pessoas [estavam] nas ruas para dar graças à derrota do comunismo na marcha para a família com Deus pela liberdade[8]. O jornal Estado de São Paulo tinha uma notícia de capa após o evento, dizia: “São Paulo parou: Todos contra o comunismo[9]”. Fatos que foram relatados com certo entusiasmo por Lincoln Gordon que escrevera:

A marcha com Deus, pela família e pela liberdade, instalou um novo vigor nos conspiradores militares. Castelo Branco finalmente aceitou o comando das forças armadas agora determinadas a agir contra a dominação comunista[10].

Sabemos que o movimento posterior, que fora embalado pela Marcha com Deus, pela família e pela liberdade fora o golpe militar de 1964, que deu início à um governo militar e ditatorial de 21 anos. O que alguns estudiosos analisam hoje é o fato da facilidade com a qual os ideias progressistas e populares, que tornariam o país mais justo – principalmente para os menos favorecidos – foram tornados ações maléficas e completamente contrária aos “ideais cristãos” – e religiosos em geral - de “justiça” e “amor”. Como essa parcela da população fora tão vulnerável à acreditar em mentiras? Os próprios golpistas militares que se diziam nacionalistas se uniram ao Imperialismo norte-americano. Onde estava o sentimento nacionalista nessa relação de submissão? O próprio baluarte ideológico do golpe – a Folha de São Paulo - colocava na sua primeira página: O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil[11].

A invasão de capitais norte-americanos fora a tônica dos anos do golpe no Brasil. A presença de políticos, empresários, agentes secretos dos EUA nas ruas e instituições – privadas e estatais – brasileiras era enorme. Personalidades americanas eram consideradas personas muito mais ligadas, a história da política brasileira do que a do próprio país, como Lincoln Gordon. A ideia difundida nesse período era de que os militares estavam garantindo a democracia e a liberdade para o povo brasileiro, em oposição a ditadura comunista de Goulart que enjaularia a população. O que se viu foi, em realidade, a extinção da democracia e a posterior imensa prisão amparada nos Atos Institucionais – os AIs -, tendo como o mais cruel o AI-5. As produções culturais anteriores ao golpe, carregadas de senso nacionalista e progressista foram tolhidas de sua liberdade e caçadas. Prisões, torturas, assassinatos foram instaurados contra todos aqueles que eram contra o regime. A censura imperava e órgãos como o CCC – comando de caça a comunistas - agiam impunemente-. O próprio general Carlos Guedes dissera numa entrevista: Nós só devemos amar a Deus, e se não amarmos a Deus, devemos temer a Deus, de modo que aqueles que não amam a revolução, devem ao menos temê-la[12]. Uma associação tremenda entre religião e política. Fora um período macabro na história brasileira – uma das maiores ditaduras temporais da America latina. As obras da cultura brasileira foram seriamente abaladas e muito do brilhantismo da época fora perdido. O que temos estabelecido então é que, uma potência externa, sedenta de poder, invade uma nação para se prevenir da ameaça oriental comunista, e é amparada pelos setores mais conservadores e o regime por ela escolhida é recebido como grande libertador pelos setores religiosos mais ortodoxos. Alguma semelhança com a Florença de Savonarola?

Continuação na parte II

Notas

[1] Como no caso do Brasil apoiar o desligamento da Paraguai do MERCOSUL quando do golpe contra Mojica; ou como ao apoio explícito à Hugo Chávez, e agora seu legítimo sucessor Nicolas Maduro; ou do apoio à Argentina de Cristina Kirchner e sua posição para com a mídia e suas reformas; ou os apoios à Bolívia e ao Equador – governos de esquerda -; ou sua vinculação com a China; ou com as conversas com Marmud Armadinejhad e etc.

[2] Nome dado ao governo da época. HIBBERTI, 1993

[3] O filho de Lorenzo, Piero, não tinha o mesmo reconhecimento do pai, do avô e do bisavô, que sempre foram as figuras de maior destaque da cidade e com enorme competência para os negócios.

[4] É importante ressaltar que Savonarola contara com o apoio de uma série de famílias ricas de Florença que queriam assumir o governo para implementar suas reformas, mas sempre eram derrotadas pelos Médicis. Essas famílias, em boa parte, eram as que dominavam Florença no século XIV. Eram basicamente aristocratas que tinham o apoio dos magnatis e dos grandis; em oposição aos Médicis, que cresceram com o apoio do popolo minuto. Carlos XVIII, após invadir a Itália, chegando á Florença, fora saudado como um libertador por Savonarola, que o chamava de “enviado de Deus” para salvar a cidade da corrupção e do pecado.

[5] Praça do governo, ou Praça da prefeitura.

[6] Texto oriundo de um documento enviado ao presidente dos EUA, John Kennedy, pelo supracitado embaixador no Brasil. Retirado do documentário “O Dia que Durou 21 Anos” de Flávio Tavares, 2011.

[7] Ibid

[8] Ibid

[9] Ibid

[10] Ibid

[11] Ibid

[12] Ibid

 

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