A ocupação na USP (Entrevista a Hugo Scabello)

08/05/2012 17:52

por Davenir Viganon

A ocupação da reitoria da USP e suas reais demandas ficaram obscurecidas pelo véu da mídia. Essa procurava implicitamente distorcer suas demandas e a sua composição social, em outras palavras, tachá-los de maconheiros e playboys. Ouvir quem esteve presente no clima de agitação do movimento estudantil da USP contribui para melhor entender e se posicionar sobre o acontecido, pois mesmo quem desconfia do que é exposto pela mídia pouco consegue enxergar através da névoa que pairou sobre a USP durante a ocupação. O estudante de Geografia da USP Hugo Scabello, uma vez aqui no Rio Grande do Sul, conversou com o Fato e a História para contar o que viu dos fatos ocorridos ano passado (2011) na USP.

 

O Fato e a História – Qual a sua participação na ocupação da reitoria da USP?

Hugo Scabello - Eu participei das duas ocupações que ocorreram ano passado primeiro na ocupação da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas - FFLCH em 27 de outubro 2011 e ficamos lá por pouco menos de uma semana, houve uma assembléia e votamos por desocupar a administração da FFLCH e ocupar a reitoria, eu estava presente. Eu não estava presente na reintegração de posse, estava no Conjunto Residencial da USP - CRUSP então não estive entre os presos, mas participei e apoio o coletivo que estamos construindo, as mobilizações para a ocupação, que foi seguida de uma greve.

OFeaH– No momento da reintegração de posse por que tu não estava presente?

HS – Eu estava dormindo no momento nas moradias estudantis, fiquei alguns dias dormindo nas ocupações, mas no momento da reintegração eu não estava lá. Não eram todos que podiam dormir lá.

OFeaH – Qual a maior discrepância entre o que tu presenciou/participou e o que foi noticiado na grande mídia?

HS – Muitas coisas porque a mídia foi extremamente tendenciosa, beirando o ridículo às vezes, desde o inicio. Uma das coisas é que acho importante mencionar é que o movimento estudantil nunca defendeu da legalização do uso da maconha, isso nunca foi uma pauta nem no movimento de ocupação nem no movimento de greve, nem sequer foi proposto e isso foi noticiado na mídia como se fosse da nossa pauta, como se fosse parte de nossas reivindicações. Mas uma história que eu gostaria de contar, que é bem ilustrativo no papel da mídia durante a ocupação ocorreu numa noite em que estávamos em uma assembléia na frente da reitoria ocupada, na assembléia estavam umas 700 pessoas, e com aquela tensão do momento da ocupação, havia muitos jornalistas de todos os canais da mídia e durante a assembléia uma dessas pessoas que estavam acompanhando os representantes da mídia, um jornalista talvez, pegou um tasere deu um choque no estudante e todos ficaram confusos, os jornalistas filmaram a reação dos estudantes e no dia seguinte saiu nos jornais que os estudantes partiram para cima de jornalistas, então você vê uma pessoa da mídia, aplica um choque num estudante e vê o que sai nos jornais, é evidente que eles estavam muito contra nós. Viam-se muitos absurdos.

OFeaH – Quais eram as verdadeiras propostas, as reivindicações do movimento?

HS – Haviam três eixos. O “Fora Rodas”, o “Fora PM” e o fim dos processos. O primeiro era o “Fora Rodas”, reivindica a saída do reitor da universidade e junto com isso nós reivindicamos um processo de estatuinte da universidade e rediscutir a sua estrutura de poder. Atualmente quem escolhe o reitor é um grupo seleto de professores, esses escolhem entre três nomes e quem escolhe por último é o governador do Estado. E esse mesmo grupo de professores é o que faz parte do conselho universitário que é o órgão deliberativo da universidade, da autarquia. Por exemplo, no Departamento da Geografia temos um representante estudante para cerca de vinte professores e nenhum representante dos funcionários, e as proporções são parecidas com as do conselho geral, e reivindicamos rediscutir essa estrutura.

O segundo eixo de reivindicação é o “Fora PM”, como chamamos que é o fim convênio com a polícia, porque na USP não existia patrulhamento ostensivo no campus o patrulhamento era feito apenas pela Guarda Universitária, até meados de 2005. Em 2007 com a ocupação da reitoria, o patrulhamento começou a ocorrer como num bairro comum e agora com a assinatura do convênio no final do ano passado, o campus se tornou um espaço militarizado, temos a presença ostensiva de policiais militares promovendo batidas aleatoriamente e sem nenhum motivo aparente, incluindo professores que tomaram enquadro (abordagem policial), às vezes estudantes mais velhos; colegas meu que tomaram enquadro com arma na cabeça ou enquanto estavam estudando. Certa vez um colega meu que estava dormindo na praça e foi acordado para tomar um enquadro, se você dorme em uma praça em outro ponto da cidade de dia ou pela tarde, você não é incomodado, mas na USP era constante. Os policiais invadiram chegaram a uma vez o centro acadêmico da Poli e prenderam 12 estudantes da poli de Engenharia e levaram para a DP. Também, deram uma batida no centro acadêmico da ECA e no outro dia o centro acadêmico foi roubado, curiosamente. Então de uma maneira geral a presença da policia estava incomodando, e essa é uma pauta nossa o fim do convênio, pois mudou significativamente a vida no campus. Fica bem claro que o papel da policia é reprimir, cortar os espaços estudantis, por exemplo, a polícia participou ativamente do fechamento do Diretório Central dos Estudantes - DCE foi um episódio que teve até um vídeo circulando na internet, que ficou famoso, com a agressão a um estudantee quem agredia era um policial e o que ele estava fazendo ali era o fechamento de um espaço estudantil que era do DCE sem nenhum tipo de acordo com os estudantes durante as férias. Nesse período a universidade está completamente esvaziada e não poderia haver nenhum tipo de resistência, com poucas pessoas lá dentro. A própria ouvidoria da policia do estado de São Paulo já emitiu nota falando que a USP deveria fazer seu próprio patrulhamento sem a presença da policia militar.

O terceiro eixo é referente ao fim dos processos. Atualmente existem aproximadamente 73 processos criminais mais 12 e cerca de 90 de estudantes respondendo processo criminalmente, mais uns 30 processos administrativos e muitos mais sendo ameaçados a tomarem processo. Incluindo casos novos, faz aproximadamente umas duas semanas e tem saído um processo novo por semana e desses processos seis já foram julgados e os estudantes eliminados da universidade.

OFeaH – Eles foram expulsos?

HS – Eles foram eliminados, é diferente, pois esses eliminados não podem prestar vestibular na USP nunca mais, e em outras universidades mantidas pelo Estado de São Paulo por alguns anos, não podem trabalhar na USP nem de professores nem de qualquer função, em resumo é vetado qualquer vinculo com a USP pelo resto da vida. Um deles, por exemplo, é estudante da geografia que já tinha concluído todos os créditos e estava entregando a sua monografia e mesmo os professores do conselho de geografia se reunindo e declarando que ele já estava formado e não havia motivo para eliminá-lo, o pedido dos professores foi vetado e ele perdeu todos os créditos que fez e perdeu também a liminar do processo e dos seis apenas um conseguiu reverter a eliminação. Dos que já respondem aos processos judiciais, quase todos os diretores do Sindicato dos Trabalhadores da USP - SINTUSP, mais um pouco mais de meia-dúzia estão sendo processados e um deles já foi demitido por justa causa por motivos políticos e todos os processos são por motivos políticos. Também dois professores ligados a ADUSP (Associação dos Docentes da USP) estão sendo processados por calúnia, por terem publicado uma matéria acusando o Rodasde mau gerenciamento de verbas sendo que o próprio ministério público acusou o Rodas pelo mesmo motivo. Também abrangendo a questão da repressão, defendemos os espaços estudantis, que são o DCE que foi fechado agora nas férias e era o da “Moradia retomada”.

OFeaH – O que é o Moradia retomada?

HS – Na USP existe o CRUSP, que são os prédios onde ficam os estudantes que não tem condição de bancar uma moradia e precisam de vagas.  Ano passado cerca de 800 estudantes pediram e não conseguiram vaga é muito difícil e os processos não são claros por questões políticas interferem para se conseguir uma vaga e é visto como um mérito do que um direito. Diante da falta de vagas alguns estudantes se uniram e ocuparam uma das vagas em um dos blocos que de fato era uma moradia estudantil e foi invadido pela burocracia universitária e estava sendo usado como escritório, uma vez ocupado os estudantes transformaram aquele espaço novamente em moradia estudantil, inclusive uma das salas e disso ninguém sabia antes da retomada havia sido cedida ao banco Santander. O que foi surpreendente, pois um espaço de moradia estudantil com um déficit absurdo vagas cedido a um banco privado que é apenas o maior banco da América Latina. Essa ocupação durou até fevereiro, esse espaço foi reintegrado pela policia de choque entre outras tropas da policia militar. Seriam esses os três eixos de reivindicações.

OFeaH – Qual o balanço que tu faz do movimento estudantil, após o desfecho das ocupações e da greve?

HS – Depois da ocupação, houve a greve de depois as férias e não conseguimos nenhum tipo de resposta. Perdemos a greve no inicio do ano em grande parte por interesses eleitorais em grande parte por desgaste e também por causa dos calouros que entraram e não viveram o que estava acontecendo o ano passado. Agora aconteceram as eleições, e os ataques continuaram vindo, rolou um refluxo com o fim da greve e estamos assistindo as aulas. Os interesses dos partidos no movimento estudantil agora estão bem mais voltados para manter os aparatos, a postura é bem mais voltada para as eleições. O bloco que fez as ocupações ano passado são basicamente grupos trotskistas, um pessoal mais libertário, que esta se organizando mais recentemente de maneira independente, por ter pedido a greve ficou um pouco desaminado. Estamos meio parados, para falar a verdade. Agora em maio é o mês de dissídio, dos trabalhadores e dos professores então pode ser que aconteça alguma coisa a partir dos trabalhadores que estão sofrendo muitos ataques. A remo, que é uma comunidade, uma favela dos trabalhadores em que boa parte deles vive lá, que nasceu com a USP está com um processo de reurbanização, sofrendo ameaça de despejo e eu acho muito importante os estudantes tentarem se envolver, mas continua o clima de normalidade, com as aulas e as eleições para o DCE, talvez alguns centros acadêmicos tenham eleições, o do meu curso, Geografia, provavelmente vai acontecer também. O comando de greve fraquejou um pouco. Vamos ver o que acontece, mas o problema é que se não fizermos nada vamos entregar todo esse pessoal para os processos. Agora está sendo enfiado goela a baixo uma reestruturação na pós-graduação da USP, que introduz um mestrado profissionalizante e que piora o mestrado retirando a clausula que diz que o mestrado não pode ser pago, abrindo um precedente para que o mestrado se torne pago o que seria privatizar a universidade. Temos um programa novo de avaliação para os trabalhadores que é péssimo para eles. Temos ataques a pós, aos professores, aos trabalhadores, esperamos poder voltar à se mobilizar novamente, no mínimo voltar a fazer uma greve e quem sabe ocupar novamente por que a situação está feia.

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