A morte de um é uma tragédia e a de milhões é estatística

01/10/2012 13:33

Davenir Viganon

Hebe Camargo faleceu no sábado dia 29 de setembro. A televisão deu seu espetáculo de sempre, cultuou a imagem da chamada "rainha da TV". Essa televisão não perdeu tempo e fez de sua morte um acontecimento com transmissão ao vivo do cortejo, lágrimas, um repórter narrando. Tudo simples, mas eficaz, pois o espetáculo é lembrar do acontecimento e de da história de vida da estrela principal. Santifica-se a Hebe.

Durante o dia, foram reprisados aparições em diversos programas em que Hebe era chamada em muitos de seus floreios e puxa-saquismos de "a personificação da TV", faz bastante sentido essa afirmação. Afinal o que vemos na televisão? São sorrisos, sonhos e fantasias reproduzidos diariamente que nos fazem flutuar diante da tela, tudo projetado e montado minuciosamente onde nada é ao acaso, como em todo espetáculo. Notem que não escrevo sobre o que há por traz da televisão e sim o que vemos nela. Nesse lado onde tudo é pacifico, todos mostram força diante da dor da perda, de um colega, reproduzem e imitam um sentimento comum a todos nós, logo nos identificamos rapidamente.

A televisão tem essa capacidade incrível e terrível de reproduzir, e principalmente emitir emoções. O telespectador que fica triste pela morte da "personificação da TV", sente-se como um "súdito" chora pela sua rainha ao saber que ela morreu. Se a "rainha da TV" morre e seus "súditos" ficam órfãos, quem chora por eles? A "nobreza" da TV com certeza é que não. Farão sim o que sempre fazem: um espetáculo da morte. O espetáculo respeitoso, em forma de culto, que é reservado a pessoas de seu interesse que davam audiência quando em vida (Ayrton Senna que o diga). Já a vulgaridade e banalidade que atenda a sede de sangue do cidadão comum é reservada a morte do comum e do indesejado. Esse poder que a televisão influi até na intensidade em que devemos chorar os mortos. Já dizia Stalin que a morte de uma pessoa é uma tragédia e a de milhões, uma estatística.

Por falar em morte, quantos de nós sabemos que Eric Hobsbawm morreu hoje? e o que ele fazia? Pois bem, que façam suas orações e sinta sua tristeza por Hebe Camargo e aos sonhos vazios que ela proporcionava, façam como quiser. Eu ficarei triste hoje pela morte de alguém que contribuiu para me fazer pensar, não é necessário cortejos, nem espetáculos, nem lágrimas. Nem essa tristeza precisa durar muito tempo, pois, o que Hobsbawm representava não eram ilusões nem espetáculo e sim de reflexões sobre a nossa realidade. Quem sabe refletindo sobre nosso mundo para além do espetáculo, a vida não seja linda como na TV, mas algo melhor em vista.

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