A loucura coerente da guerra em Nascido para Matar - Full Metal Jacket

21/02/2014 08:53

Davenir Viganon

Quando se fala de filmes de guerra, a escolha do drama ao invés da comédia é a mais usual e óbvia, pois, os dilemas da guerra são uma rica fonte de dramas. Já a escolha da comédia é sempre controversa, pois, dá a impressão que não se leva a sério a situação, mas é importante entender que a comédia não serve apenas ao entretenimento fútil, todavia expõe situações onde o absurdo é a fonte do riso, no caso, o absurdo da guerra. Nesse sentido, captando o absurdo e a burrice da guerra e também do anticomunismo, Kubrick aborda a Guerra do Vietnã em “Nascido Para Matar” (Full Metal Jacket), seguindo o caminho oposto de Copolla em “Apocalypse Now” que faz um profundo drama, porém, a obra de Kubrick não se torna rasa pela sua opção de usar a comédia.

A película de Kubrick é ácida e cheia de humor, não chega a ser um filme de comédia, mas é um elemento bastante recorrente. Na obra, o humor serve para mostrar onde os personagens continuam humanizados e onde já aderiram a loucura da guerra. A critica ao belicismo e ao anticomunismo é extremamente ácida e o humor é o veículo que Kubrick escolheu para mostrar o processo e as consequências da desumanização de uma geração de jovens do período.

A obra é dividida em duas partes que parecem dois filmes separados: o primeiro, mostra o processo de treinamento dos soldados, e, o segundo, mostra o mesmo grupo já no Vietnã passado algum tempo. Contudo seria bem mais interessante se a montagem fosse alternada entre o treinamento e a guerra, para potencializar a expectativa com os personagens.

O filme dá um espaço, até então pouco habitual, para o treinamento dos soldados, no caso, metade do tempo é dedicado para mostrar a didática usada para forjar os soldados a obedecer incondicionalmente e a serem essencialmente violentos. A face desumana do processo é evidenciada principalmente pela não adaptação do recruta “Pyle” (Interpretado pelo excelente Vicent D’Onofrio) ao tratamento do Sargento Hartmann (Ronald Lee Ermey), que por sua vez, é mostrado de maneira cômica através de suas famosas piadas emplacando o tipo sargento de treinamento durão, muito copiado dali em diante. Aqui paramos para refletir que a critica através do personagem Sgt. Hartman acabou acompanhado de um efeito inverso, ou seja, dando carisma a um tipo deplorável. Algo muito parecido com o Capitão Nascimento no primeiro Tropa de Elite.

A relação entre Pyle e o Sgt. Hartman é o lado cruel de uma implacável imposição do modo violento de mostrar o mundo ao recruta. O publico obviamente que ri das piadas de Hartman e se vê posto ao lado de Pyle, o único do pelotão a rir das mesmas piadas e é brutalmente reprimido por isso. A fraqueza sentimental do recruta é usada para alertar os outros soldados do perigo que é ser mais fraco que a ameaça ideologizada do comunismo. Assim os recrutas  reprimem Pyle também, como na cena em que cada um deles o atinge com um sabonete dentro da meia enquanto ele dorme. A fireza do momento e trasmitida pelo tom azul da cena.

O inimigo que espera os soldados estadunidenses no Vietnã é sugerido pelo sargento Hartman como indivíduo determinado e parte de uma conspiração e que a fraqueza dos EUA é justamente seu sentimentalismo. A desumanização do soldado é justificada pela demonização do comunista pelo anticomunista.

“É característico dos virtuosos a propensão a ver demônios, e dos piedosos que frequentemente demonstrem maior interesse pelo diabo que pela divindade. Os virtuosos não apenas são atormentados pelo mal, mas necessitam de sua presença. Não houvessem forças venais em ação não existiria a oportunidade de salvar o mundo ou a si mesmo, a ocasião para a violência orgástica que tantas vezes acompanha o ódio dos justos. Os virtuosos precisam do demoníaco porque uma identidade-papel só pode encontrar sentido na sua associação com papéis complementares.” (1)

O resultado final do treinamento é que a grande maioria dos soldados apreende a violência e a ignorância como modo de viver. O fim de Pyle e Hartman acaba com qualquer possibilidade da relação entre eles ser entendida como de pai duro e filho rebelde. O mundo do quartel retratado por Kubrick é um extremo de uma sociedade militarizada como a estadunidense e o produto final de Hartman - que em si é a personalização da ideologia anticomunista - é um Soldado Pyle psicopata belicoso que se encaixaria num perfil de um neonazista da KKK ou de um “Capa Preta” que invade uma escola e mata os colegas, reflexos de um terrorismo que na realidade concreta é domestico e muito diferente do idealizado pelo anticomunismo ou por qualquer choque de civilizações.

Na segunda parte do longa, o personagem principal só poderia ser o sobrevivente “Joker” (Mathew Modine). Ao contrário de Pyle, ele consegue sobreviver ao treinamento assumindo suas ambiguidades exteriorizando-as através de seu humor. Isso fica apontado no treinamento onde desafia Hartman com seu ateísmo, mas consegue “ganhá-lo” sendo o líder do pelotão, mas na segunda parte é escrachada quando Joker, já em solo vietnamita, ao responder a um superior o porque do broche com simbolo da paz e o inscrito “Nascido para Matar” no capacete o faz de forma intelectualizada, que é em si uma piada que não tem público entre os personagens do filme.

A banalização da violência da guerra na ocupação estadunidense do território vietnamita são a tônica da segunda parte do filme. É quando a ideologia do treinamento é posta em prática pelos soldados. A sequência final é um profundo mergulho nas profundezas do ser humano quando o pelotão de Joker se perde e vários soldados são mortos por um atirador de elite escondido num prédio. A custa de muitas baixas, Joker e o que restou de seu pelotão conseguem adentrar no prédio e localizam o atirador ferindo-o. A reação é de choque, inclusive do sádico Animal (Adam Baldwin), ao notarem que o atirador se trata de uma criança que aquela altura já estava ferida agonizando frente a eles. O discurso anticomunista de demonização encontra sua face no real. Joker enfrenta o momento em que não pode mais manter sua confortável ambiguidade e dá o golpe de misericórdia na menina. Sem mais em que acreditar Joker faz o que suas experiências lhe permitem fazer: continuar a sobreviver, como o próprio diz. “Estou num mundo de merda, mas estou vivo!”.

Nota
(1) PARENTI, Michael. A Crusada anti-comunista. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1970. p.19
 

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Comentário: A loucura coerente da guerra em Nascido para Matar - Full Metal Jacket

Data: 27/02/2014

De: Daniel

Assunto: Nada a ver

Nada a ver. O autor da crítica, na minha opinião, não entendeu nada e ainda confundiu ironia com humor. Esse último aspecto levantado é apenas uma parcela pitoresca do que há em 'Nascido para Matar', o que importa mesmo passou ao largo da visão do comentador. Aqui, fica uma outra análise para reflexão:

Possivelmente, o melhor filme realizado sobre o Conflito do Vietnã (melhor que isso, na minha modesta opinião, só um documentário como 'Querida América: cartas do Vietnã', 1987, de Bill Couturié) e, sem dúvida, um dos melhores filmes de guerra já realizados. Entretanto, observo que muitas pessoas costumam analisar ou pensar a obra em termos dos dois movimentos obviamente marcados da história e, daí, emitir uma apreciação que, na verdade, se divide em duas, respectivamente: o treinamento e a guerra. Não querendo diminuir de forma alguma essa abordagem, eu prefiro enfatizar na minha leitura a importância da combinação dos dois elementos.

Antes de mais nada, sem entrar muito em detalhes pessoais, posso dizer que o treinamento específico de uma força de pronto-emprego, como são os Marines, é em essência, e posto de lado as óbvias licenças da teatralização, tal e qual Kubrick representou muito bem em seu filme. Mas qual o ponto em marcar tanto a preparação dos soldados e depois saltar para o meio do campo de batalha (mais precisamente, Batalha de Hue, 1968, no contexto da Ofensiva do Tet)? Primeiramente, fora que o Kubrick já utilizou a mesma técnica com um salto espaço-temporal muito maior em '2001, Uma Odisséia no Espaço' - com efeito, o maior já feito na história do cinema -, acho que uma pista está no nome original do filme: Full Metal Jacket.

Full metal jacket é como se descreve em inglês o tipo mais comum de cartucho para armamentos (a popular 'bala') que tecnicamente no Brasil é chamada 'munição real' e, mais propriamente, 'munição comum', isto é, aquela que efetivamente possui um projétil a ser lançado, em oposição ao festim, que é um cartucho sem projétil, produzindo apenas som, gases e calor e empregado em alguns exercícios e eventos. Isso, para a história, pode simbolizar o que se costuma chamar no jargão militar uma operação para valer, uma missão real, ou seja, acabou o treinamento, é 'real agora'. Pois é isto mesmo que o choque dos dois momentos da história busca, na minha opinião, colocar à frente ao mesmo tempo sutil e escancaradamente, como só o Kubrick é capaz: a incapacidade de, mesmo com o treinamento mais intenso, impedir a transformação, em todos os sentidos, dos homens na guerra.

Transformação que aliás, começa no próprio alistamento, quando a pessoa se torna um número, depois um 'nome de guerra' e, finalmente, um apelido (Joker, Cowboy, Gomer Pyle, Animal Mother, Eightball, Rafterman), até que eventualmente volte a se tornar um número, no caso, vivo ou morto. Sabidamente, essa despersonalização é típica do treinamento militar e serve a propósitos específicos, porém, a perturbação da guerra, como vemos no filme, é muito mais típica e forte. De fato, não se entende muito bem no meio civil porque a doutrinação e a repetição são tão brutas nas instituições militares.

Lembro que em situação de estresse, o ser humano tende a congelar, perder a noção, não responder adequadamente etc. Até mesmo uma ação simples, como trocar de carregador num fuzil, se torna extremamente complicada quando a pressão está lá no alto (vide Joker no momento mais decisivo). Ora, nada mais mecânico que um soldado e é isto exatamente o que seu treinamento visa idealizadamente preparar o melhor possível: resposta pronta, imediata e sem hesitar. '- Ah, mas aí o Kubrick vem com a guerra!' Felizmente, a verdade é que a maioria dos soldados no mundo nunca esteve numa guerra e, embora essa seja sua finalidade explícita, absolutamente nada pode prever se o que virá a partir do primeiro disparo é o que se preparou tão insanamente porque a própria guerra é mais insana que tudo. Aí está algo comum a tantos filmes de fato anti-guerra, pacifistas, que o Kubrick, que é um gênio, mostrou tão bem nesta obra.

Concluindo, e já que falei em insanidade, não tem como ignorar o sargento Hartman, personagem trazido à vida por R. Lee Ermey, que nada mais está fazendo do que representar ele mesmo, um veterano que foi também sargento instrutor no corpo de fuzileiros navais estadunidense! Nota também para a ótima trilha sonora, para a produção e demais tecnicidades do cinema que deixo para outros comentadores, já que acabei me estendendo por aqui. Um outro detalhe talvez pequeno, mas que fica a explorar com algumas possibilidades, é a relação em comum entre a garota de programa e o franco-atirador, como os contatos mais próximos de Joker com o 'inimigo', num sentido que não quero avançar para evitar spoilers.

Abraços!
Cosmonauta

ps. aproveito também para indicar 'Glória Feita de Sangue' (1957), ambientado na Primeira Guerra Mundial e um dos primeiros filmes do Kubrick, não tão bem conhecido, mas com uma temática igualmente muito boa.

-Daniel Caon Alves.

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Data: 27/02/2014

De: Davenir

Assunto: Re:Nada a ver

Obrigado por comentar e trazer tua reflexão!

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