A Liga da Canela Preta e o Protagonismo Negro

19/03/2013 16:54

Walter Lippold

Nesta última sexta-feira, dia 15 de março de 2013, participei do lançamento do documentário A Liga dos Canelas Pretas, dirigido por Antônio Textor e com a participação, através de depoimentos, do Mestre Giba-Giba, do Senador Paim, do Professor de antropologia Arlei Sander e da minha própria pessoa. Participei do documentário com depoimentos sobre o mito do “escravismo cordial”, que afirmava ter o Rio Grande do Sul  dado um tratamento diferenciado aos cativos, aqui eram bem tratados... e sobre o Mito da Princesa Isabel, onde a abolição teria sido a redenção do negro através da bondade branca (tema de nosso texto anterior sobre Django Livre) . Afirmo no documentário que a Abolição teria livrado os senhores do escravismo deixando o negro a mercê do mercado capitalista nascente no Brasil. É um documentário que busca compreender o pós-escravismo urbano e a segregação racial em espaços como o futebol.

Fiz um estudo intenso da bibliografia disponível quanto a história do negro na Porto Alegre do início do Século XX. Já que trabalhei dois anos com o Projeto Memória dos Bairros no Centro de Pesquisa Histórica de Porto Alegre, conhecia relatos, arquivos, depoimentos orais sobre a história de nossa cidade nas primeiras décadas do século XX. Fui além de nossas próprias produções, estudei as novas publicações sobre o Museu de Percurso do Negro em Porto Alegre e o livro de memória fotográfica, Colonos e Quilombolas, e artigos do livro RS:Negro, obras atuais e importantes sobre o negro em Porto Alegre.

Foto Acervo do Museu Joaquim José Felizardo

Todo produto coletivo, isso vale para um filme, tende a sair de um modo diferente do que tinha sido projetado e isso ficou patente no pré-lançamento do documentário, ao ver o filme fiz duas críticas: a primeira que o filme estava difuso quanto ao tema Liga da Canela Preta (nome pejorativo dado pelos brancos para a Liga Nacional de Futebol Porto Alegrense) e o segundo que faltavam as vozes do protagonismo negro, daqueles que participaram da história que queria ser narrada. Também chamei a atenção para a nebulosa história do veto do Internacional quanto ao ingresso da Liga Nacional de Futebol Porto Alegrense, pois no documentário ressaltou-se a aceitação do primeiro atleta negro no Internacional.

Ao acabar a projeção no Cine Bancários, o diretor abriu a fala para a platéia fazer a apreciação do filme e recebeu uma crítica ferrenha onde se afirmava que o documentário acabou reproduzindo as cenas degradantes de castigos escravistas demais e que acabou reforçando preconceitos e clichês. Esta crítica trazia também alguns elementos que já haviam sido levantados na produção do documentário: principalmente a falta das vozes daqueles que protagonizaram toda esta história.

Da pré-estreia até a nova versão oficial – que vi na Casa De Cultura Mario Quintana - houve uma melhora significativa no documentário: as cenas violentas de castigos corporais, em parte, foram situadas sob meu relato sobre a violência do escravismo na charqueada, que reproduzia a crítica historiográfica que combate o mito do escravismo cordial no RS, pois estas cenas do negro morrendo, sendo subjugado de modo passivo, que povoam novelas globais e filmes foram exatamente o tema de nosso último artigo sobre a questão do blaxploitation e a criação de uma contramitologia nas telas.

Por fim eu discordei sobre alguns pontos tocados no documentário que me pareceram reforçar o essencialismo genético, como se a ginga e o novo futebol criado pelo negro era algo próprio da genética negra... esta essencialização que Frantz Fanon combate e  crítica na Negritude de Senghor e Cesáire e que já foi criticada no livro pioneiro de Mario Filho sobre o negro no futebol brasileiro. Mas mesmo com estes limites minha crítica não buscou arrasar quarteirão, pelo contrário quis compor para melhorar esta produção que participei como depoente, além do mais, muito destas minhas críticas foram feitas olhos nos olhos e via mensagem eletrônica e já que o filme seria produzido, buscar ao máximo debater com a produção/direção a superação destes problemas do documentário...

Enfim, uma coisa é criticar cinema como tenho feito aqui na coluna CinePraxis, outra bem diferente é fazer cinema.. Não fiz cinema é claro, só fui um mero depoente no filme, mas senti na carne a crítica do outro lado, o da plateia e dos críticos críticos. Mas que historiador pode temer crítica se é da praxis e da contradição que se movimenta o conhecimento? Como diz Almir Guinéto, “em cada experiência se aprende uma lição”...

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