A indiscriminada espionagem internacional: os Estados Unidos no epicentro da Guerra cibernética

05/11/2013 08:36

Gabriel Graziottin

Vorazes olhos cibernéticos do Tio Sam

Nossa, os Estados Unidos estão nos espionando! Nossa privacidade foi violada pela águia norte-americana? Até sobrou para a nossa excelentíssima presidente Dilma Roussef... Facebook, Google, junto com Petrobras, grampos telefônicos, e-mails e informações particulares rastreadas... e agora, quem nos salvará? O Superman? Não, espera... esse não dá, é norte-americano!

Por mais cômico que possa parecer, ditos como as acima, expressões e surpresas estão sendo cada vez mais corriqueiras, não só em países como o Brasil, como demais nações que, por incrível, ou hipocritamente, foram pegos de surpresas com as intensas denúncias de espionagem do Tio Sam, isto é, Estados Unidos. Tio Sam esse que nessa conjuntura não se apresenta como velho, ao contrário, exibi vorazes olhos cibernéticos e tecnológicos que lhe garante uma surpreendente e até inimaginável habilidade de espionar empresas, políticos e grupos internacionais.[1] Principalmente num contexto após as denúncias do ex-analista da NSA e CIA (centros de inteligência norte-americano), Edward Snowden, agora, refugiado na Rússia.

Tal contexto se efervesce pelas mais constantes reportagens de jornais e documentos secretos divulgados na esfera diplomática internacional de um gigantesco sistema de espionagem dos EUA, atingindo não só empresas e recursos econômico-estratégicos de grande valia, mas também, chefes de Estados considerados aliados. Casos como a Presidente Dilma Rousseff[2], Chanceler Angela Merkel, François Hollande e demais políticos e até cidadãos que tiveram seus telefones particulares grampeados pelo agências de inteligência. A reação, obviamente, é um clima de mal estar, acusações e desculpas justificatórias das partes.

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Porém, cabe a nós realizar um exercício reflexivo, nos indagando se tudo isso que está vindo “claramente” à tona é algo que esses chefes de Estados, governos e agências realmente já não sabiam e por que, numa perspectiva histórica do jogo entre as nações, os EUA e demais países [4]estão realizando isso, inclusive com países aliados.

A Águia vigilante

Sem dúvida alguma, as razões para o ressurgimento do debate acerca das práticas de espionagem dos EUA, após as denúncias de Snowden, são as descobertas de práticas de espionagem do Tio Sam aos seus vassalos europeus, isto é, aos seus “próprios cães” ou obedientes aliados desde o pós 2º Guerra Mundial. Recentes denúncias, principalmente de jornais como o Le Monde, The Guardian e Des Spiegel apontam um sistema de grampeamento de ligações de milhares de cidadãos europeus e presidentes aliados, como Angela Merkel[5] (Alemanha), Mariano Rajoy (Espanha), François Hollande (França), etc. Sobrou até para órgãos supranacionais submissos ou influenciados pelos EUA como a ONU[6], OEA[7], OTAN[8] e o medievum Vaticano[9].

Segundo o jornal Le Monde, em um período de 30 dias, entre dezembro de 2012 e o início de 2013, foram interceptadas 70,3 milhões de comunicações emitidas da França. O espanhol El Mundo, por sua vez, publicou ontem que a NSA espionou mais de 60 milhões de ligações telefônicas na Espanha no mesmo período.[10]

Indo no mesmo sentido, Washington Araujo aponta:

Desvelada a imensa e muito atuante rede de espionagem patrocinada pela Casa Branca mundo afora, onde milhões de cidadãos de países historicamente alinhados a Washington têm sua privacidade acintosamente violada, países como Brasil, França, Alemanha, Espanha, México, pelo menos o que já é do conhecimento público nessa última semana de outubro de 2013, tem não apenas seus cidadãos espionados, mas também seus presidentes, primeiros-ministros, chanceleres, presidentes de megacorporações e outras autoridades de outros escalões. (2013, p. 1)

Assim, a águia norte-americana mostrou, espantosamente, vorazes olhos do topo de seu Grand Canyon, espionando políticos, megacorporações e cidadãos considerados como aliados, evidenciando uma gigantesca e aparentemente, despercebida rede de espionagem a diversas nações e agentes internacionais. Entretanto, cabe agora refletirmos se, de fato, tudo isso já não era conhecido ou especulado anteriormente a esse “maremoto” de denúncias e o por quê das práticas de espionagem dos EUA para com demais nações, inclusive aliadas.

[11]

A silenciosa guerra cibernética

Evidentemente, muitas pessoas não foram pegas de surpresa com as recentes denúncias e escândalos. Pois, como é sabido, os EUA além de ser ainda a nação mais rica e poderosa do mundo, com um gigantesco sistema financeiro, aparato militar e uma indiscutível supremacia ideológica sobre o mundo (produção cultural, hábitos, costumes, etc.), também é a nação com os mais desenvolvidos mecanismos cibernéticos do mundo, resultado do pioneirismo da Internet e de moderníssimas redes tecnológicas e de espionagens remontadas da Guerra Fria.

Na realidade, práticas de espionagem, apesar do fim da Guerra Fria e seus românticos James Bonds, tornaram-se cada vez mais frequentes, intensas e recrudescidas no jogo das nações em um recente período conhecido como multipolar, ou como alguns preferem, nova (des) ordem mundial. Assim, como as adversidades dos EUA se multiplicaram devido a grupos terroristas e opositores, as nações emergentes e do “Império do Mal”[12] lutam por um novo cenário internacional destituído de imposições hegemônicas, como China e Rússia. Desse modo, a disputa política na esfera internacional deu espaço a um jogo de competição, decadência e emergência de novos atores, havendo, inclusive, momentos de instabilidade política internacional, como o caso iraniano, norte-coreano e sírio.

Os Estados Unidos, com uma economia fraquejante e um mundo ao redor que não se curva mais as suas pretensões imperialistas, vê-se numa obrigação estratégica a curto, médio e longo prazo de espionar o instável mundo ao seu redor, para retardar o seu declínio hegemônico, incluindo aliados seus, como os países europeus. Com isso, não é surpresa nenhuma para observadores ver esses atuais escândalos com as já reconhecidas espionagens entre os EUA, Rússia e China. Na realidade, apesar de o século XXI ter iniciado sem guerras de grandes proporções, é mais do que evidente uma guerra transcendente aos mecanismos militares, isto é, a cibernética e as redes de informação no mundo, pois, como sabiamente diz Araújo, “vivemos uma época em que há muito se encontra consagrada a percepção que informação é poder” (2013, p. 3).

Os documentos sobre a maneira pela qual os EUA espionam e sobre os objetivos da espionagem pouco têm a ver com o terrorismo. Muitos têm a ver com economia, empresas e os governos, e estão destinados a entender como funcionam esses governos e essas empresas. A ideia central da espionagem é essa: controlar a informação para aumentar o poder dos Estados Unidos pelo mundo. (FEBBRO, 2013, p. 2).

A luta contra o terrorismo, conforme verificado, já não é mais um argumento satisfatório, inclusive com países aliados à Washignton, para a espionagem norte-americana. Isto é, a real necessidade dessas práticas ultrapassam interesses econômicos, políticos e geoestratégicos entrando na órbita do domínio de uma das maiores riquezas desse século de redes, tecnologias e Internet: a informação. Isso entra de encontro com a afirmação do ex- assessor do Departamento de Segurança Interno dos EUA, Stewart Baker, no The New York Times:

It's an attitide that newspaper editorialists shared. "Allies aren't always friends," wrote Stewart Baker in the New York Times. Steward was the assistant secretary for policy at the US Department of Homeland Security under George W. Bush, who was president when the NSA began tapping Merkel's phone back in 2002, according to information obtained by SPIEGEL. Without spying, the US wouldn't be able to carry out ts role in the world, he said. "That's just life and international politics. As German Chancellor Angela Merkel too knows quite well." [13] (PITZKE, 2013, p. 2)

[14]

Isso nos faz concluir que quando Obama ridiculamente se desculpa a demais países, afirmando que todos os países espiam todos, ele está sendo o mais honesto possível, ao contrário dos interesses de fortes políticos e agências norte-americanas. A questão é que os EUA chegaram num grau tão elevado no controle dos mecanismos cibernéticos, aliados à megacorporações transnacionais como a Google, Facebook, Microsoft e etc. que agora está sendo perceptível a grande população mundial.

O caso de espionagem no Brasil e da Petrobras evidencia a inexistência de uma proteção cibernética no maior país sul-americano, arrepiando o cabelo de muitos e confirmando as proposições de diversos indivíduos que já desconfiavam. Poderosos países europeus, como a Alemanha, se especulam, já conhecia esse sistema de espionagem, com a corroboração do “cachorrinho britânico”, o que faz Angela Merkel e demais políticos a reagirem é a pressão da sociedade com evidências visíveis, como o caso das denúncias de jornais nacionais e provas apresentadas. A China e a Rússia, nem se fala.

Conclusão

Foi possível, assim, verificar que os interesses norte-americanos em realizar práticas de espionagens, incluindo a países aliados no bojo de sua lista de alvos, é a manutenção de seu poderio no jogo internacional numa nova fonte de riqueza do século XXI, a informação, retardando o seu declínio hegemônico num mundo multipolar através de seus moderníssimos mecanismos cibernéticos e tecnológicos oriundos da Guerra Fria. O mundo tornou-se tão instável, a ponto de se reconhecer que até aliados não são sempre amigos.

É evidente que as práticas de espionagem já eram percebidas por muitos indivíduos, analistas, agentes e governos muito antes de surgirem as recentes denúncias através de jornais de diferentes países. Estamos num período histórico no qual a guerra cibernética já está aberta e sendo travada por diferentes potências, umas declinantes e outras emergentes, tornando contornos cada vez mais nítidos conforme, frequentemente, observamos pela grande mídia.

Referências

ARAÚJO, Washington. “O Grande Irmão está nu”. In: Carta Maior, out. 2013. Disponível em: http://www.cartamaior.com.br/?/Opiniao/O-Grande-Irmao-esta-nu/29396

FEBBRO, Eduardo. “Greenwald: espionagem dos EUA pouco tem a ver com terrorismo”. In: Carta Maior, out. 2013. Disponível em: http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Greenwald-espionagem-dos-EUA-pouco-tem-a-ver-com-terrorismo/6/29276

MOREIRA, Assis. “UE quer trabalhar com Brasil no caso da espionagem dos EUA”. In: Valor Econômico, out. 2013. Disponível em: http://www.valor.com.br/internacional/3318482/ue-quer-trabalhar-com-brasil-no-caso-da-espionagem-dos-eua

PITZKE, Marc. “US on Spying Scandal: Allies Aren't Always Friends”. In: New York, out. 2013. Disponível em: http://www.spiegel.de/international/world/us-commentators-defend-nsa-surveillance-of-allied-leaders-a-930410.html

REDAÇÃO. “Espionagem em Espanha e França foi feita pela inteligência desses países, diz jornal”. In: Opera Mundi, out. 2013, Disponível em: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/32124/espionagem+em+espanha+e+franca+foi+feita+pela+inteligencia+desses+paises+diz+jornal.shtml

Notas

[1] Aqui o destaque primordial será a espionagem a grupos e agentes internacionais, indicando-se também, a existência da espionagem doméstica do governo ianque para com a sua população “patriótica”.

[2] Sendo visível o descontentamento de Dilma, ao cancelar a sua programada viagem aos Estados Unidos em outubro, enfraquecendo visivelmente as relações bilaterais Brasil-Estados Unidos.

[3] Montagem cômica do Presidente norte-americano Barack Obama espionando a quase nua chanceler alemã, Angela Merkel. Fonte desconhecida.

[4] Mesmo que às ocultas, nos bastidores do poder.

[5] Como o escândalo do grampo de seu próprio telefone celular.

[6] Organização das Nações Unidas.

[7] Organização dos Estados Americanos.

[8] Organização do Tratado do Atlântico Norte.

[9] O Vaticano, diga-se de passagem, foi um dos países espionados, pois, apesar de a Igreja Católica há séculos ter se desvinculado de assuntos políticos, é sabido, principalmente nos meios acadêmicos, que exerce uma diplomacia secreta pelo mundo. O caso de desarticulação dos países socialistas do Leste-europeu durante a Guerra Fria é apenas um dos muitos exemplos disso, revelando que o papado não se preocupa unicamente com “objetivos espirituais da humanidade”.

[10] OPERA MUNDI, Acessado em 29 de out de 2013.

[12] Termo apregoado pela administração Bush para designar países com regimes antagônicos a Washington, como Irã, Síria, Cuba, Coréia do Norte, etc.

[13] Tradução: É uma atitude que jornais e editorialistas compartilharam. “Aliados não são sempre amigos”, escreveu Stewart Baker no The New York Times. Stewart foi o secretário assessor do Departamento de Segurança Interna de George Bush, que foi presidente quando a NSA começou a grampear o telefone da Chanceler Angela Merkel em 2002, de acordo com as informações obtidas por Spiegel. “Sem espionar, os EUA não seriam possíveis de manter o seu papel no mundo, afirmou. Isso é simplesmente a vida e assuntos internacionais. Como a Chanceler alemã Angela Merkel sabe muito bem.

[14] Imagem de recentes protagonistas do escândalo da espionagem norte-americana. Presidente Barack Obama, Chanceler Angela Merkel e o ex-analista da NSA e CIA, Edward Snowden. Disponível em: http://im.ft-static.com/content/images/d9958d62-8941-46eb-b461-26a54205fd87.img

 

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