A Guerra Total de 1914 e a Palestina hoje

22/08/2014 10:58

Davenir Viganon

Neste ano se completa um século do início da Primeira Guerra Mundial (1914-18). Os historiadores sabem que o conflito acontecido há 100 anos é importante e mesmo não-especialistas compreendem sua importância por este evento ser bastante lembrado. Contudo não basta lembrar é preciso compreender a Primeira Guerra Mundial para que se possa contextualizar também as presentes guerras. O que um conflito tão antigo pode ter deixado de marcas na sociedade atual? Como esta guerra influência o modo que nossa sociedade percebe e/ou vive a guerra hoje?

Às vezes a Primeira Guerra fica diminuída pela magnitude da Segunda Guerra, em que a escala de mortes, recursos econômicos mobilizados e extensão da área de conflito foi muito maior. Podemos atribuir esse destaque, a preferência dos apreciadores despreocupados da Segunda Guerra[1], os aficionados, que costumam atribuir a características aritméticas a importância do evento. Um reflexo disso é o mercado que isso gera atualmente. Mercado esse que também é influenciado pelo fato dos EUA, exercerem uma influência cultural no mundo ocidental desde o fim da Segunda Guerra. O retorno triunfante do capitalismo após décadas de guerras, crises e fascismo. Em meio essa entusiasmo pelos equipamentos de guerra e estratégias militares, às vezes perdemos de conhecer e, por consequência, de refletir com mais profundidade as transformações sociais que ocorreram a partir daquele período, e nos limitamos a contemplar a estética da guerra. Em contrapartida uma história mais profunda sobre o período infelizmente não é  -  e nem pretende ser - mais atraente ao público leigo.

Artilharia britânica no Somme. Uma das funções da artilharia era saturar as posições inimigas.

Blindado de artilharia 'Paladin', abrindo fogo para saturar Gaza

O tipo de guerra que se surgiu em 1914 englobou uma parte bem maior da sociedade que os militares, equipamentos e estratégias dos generais. Hobsbawm no seu clássico A Era dos Extremos nos traz conceito de Guerra Total, onde toda a sociedade era compelida a participar do esforço de guerra. A estratégia do general em campo de batalha, dependia cada vez mais da estratégia econômica dos governos, com raras exceções como Erwin Rommel e seu Afrika Korps, que fazia muito com pouquíssimos recursos[2].

Antes de 1914, as guerras eram conflitos limitados, com objetivos limitados a um pedaço de território em disputa. Na Guerra Total, o objetivo é acabar com a capacidade de combate do inimigo e subjugá-lo completamente. Assim o alvo não era apenas o soldado que empunhava a arma, mas também a sociedade civil, que fornecia os soldados, fabricava a arma, etc.

Atualmente um conflito como a invasão dos EUA ao Iraque, é um exemplo recente de Guerra Total, pois toda a estrutura do país foi destruída e a sua reconstrução foi guiada pelo setor privado estadunidense. Seria a subjugação completa do país se não houvesse um levante árabe que empreendeu uma campanha que já retirou quase todo o Iraque da influência dos EUA. Outra novidade que surgiu na Primeira Guerra era, como aponta Hobsbawm,

“a nova impessoalidade da guerra, que tornava o matar e estropiar uma conseqüência remota de apertar um botão ou virar uma alavanca. A tecnologia tornava suas vítimas invisíveis, como não podiam fazer invisíveis as pessoas evisceradas por baionetas ou vistas pelas miras de armas de fogo. Diante dos canhões permanentemente fixos da Frente Ocidental estavam não homens, mas estatísticas (...). Rapazes delicados, que certamente não teriam desejado enfiar uma baioneta na barriga de uma jovem aldeã grávida, podiam com muito mais facilidade jogar autos explosivos sobre Londres ou Berlim, ou bombas nucleares em Nagasaki. Diligentes burocratas alemães, que certamente teriam achado repugnante tanger eles próprios judeus mortos de fome para abatedouros, podiam organizar os campos de extermínio de poloneses com menos senso de envolvimento pessoal. As maiores crueldades de nosso século foram às crueldades impessoais decididas a distância, de sistema e rotina, sobretudo quando podiam ser justificadas como lamentáveis necessidades operacionais.”[3]

Para contribuir nessa nova função dos soldados o ódio nacionalista e/ou ideológico, serviu muito bem a esse propósito. Esse modo de se fazer guerra, produzindo mortes em escala industrial, também se exportou para as guerras que se travaram no chamado terceiro mundo durante a Guerra Fria. Muitos desses conflitos são subprodutos das guerras mundiais. Inclusive os que vemos hoje na televisão, como por exemplo o que travam Israel e Palestina.

O Estado de Israel foi fundado após a Segunda Guerra Mundial, como um lar para os judeus, povo que foi a principal vítima do holocausto. Contudo, desde esse período, a ocupação do território da Cisjordânia por judeus não caminhou para um relacionamento de coexistência, assim como em outros territórios de colonos europeus no mundo colonial em desmanche na Guerra Fria, (como na África do Sul) mas de conflito com os palestinos que já habitavam ali. Os muros que cercam as populações mostram um estado de Apartheid promovido por Israel[4].

Mesmo que nos pautássemos em outra visão que tome o Estado de Israel como mera vítima, a descrição da “Guerra Total” se aplica ao conflito travado neste momento contra a Palestina. Os objetivos ditos pelo próprio primeiro-ministro israelense, são os de eliminar os túneis, não encontram justificativa para o fato de que civis acabem se tornando vítimas abundantes - mais do que Israel admite[5] . Bombardeios de instalações para quebrar a estrutura da população de Gaza[6], mostram que o objetivo não é apenas o de mera defesa, tampouco se trata de uma guerra de objetivos limitados, mas sim uma “guerra sem limites”.

A Segunda Guerra trouxe um grande número de mortes, porém a carnificina da Primeira Guerra gerou um choque maior pela novidade que representava. A Primeira Guerra produziu um grande movimento pacifista enquanto a Segunda Guerra consagrou a violência. Se para quem executava as ordens, um distanciamento e impessoalidade eram uma realidade, afinal só “obedeciam a ordens”, como disse Adolf Eichmann em seu julgamento (sobre o qual Hannah Arendt desenvolveu o conceito de “banalidade do mal”[7]).  De certa forma esta impessoalidade está impregnada na sociedade. Afinal quem decide tomar uma atitude concreta em relação ao conflito na Palestina depois que vê uma das várias fotos das vítimas infantis palestinas dos bombardeios israelenses? Ou ainda, estaríamos nós mais próximos daquele que aperta o botão?

Notas

[1] Livraria abre espaço para aficcionados em guerra. Em: http://acervo.estadao.com.br/noticias/acervo,livraria-abre-espaco-para-aficionados-em-guerra,10266,0.htm

[2] mesmo esse não resistiu a uma politica que desistiu de defender o norte da África.

[3] HOBSBAWM, Eric. A Era dos Extremos: O Breve Século XX. São Paulo. Companhia das Letras, 1999. p.56-57

[4] Como o papa Fransico expôs a brutalidade do muro do apartheid de Israel. Em: http://www.revistaforum.com.br/blog/2014/05/como-o-papa-francisco-expos-brutalidade-muro-apartheid-de-israel/

[5] Israel admite que um terço dos palestinos mortos era civil. Em: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/25503/israel+admite+que+um+terco+dos+palestinos+mortos+em+gaza+era+civil+.shtml

[6] Bombardeio israelense atinge usina e deixa gaza sem energia. Em: http://oglobo.globo.com/mundo/bombardeio-israelense-atinge-usina-deixa-gaza-sem-energia-1-13415066

[7] Eichmann na faixa de Gaza. Colunas Tortas. Em: http://colunastortas.wordpress.com/2014/07/21/eichmann-na-faixa-de-gaza/

 

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