A falência do G20: entre o capital mundial irrefreável e a emergência de novas potências

21/02/2013 08:08

Gabriel Graziottin

No último encontro do G20, em Moscou, na Rússia, nos dias 15 e 16 de fevereiro, evidenciou-se mais uma repetida inoperância dos dirigentes econômicos internacionais em conter os inúmeros obstáculos para a retomada do desenvolvimento econômico mundial e do incontrolável capital globalizado. Num ambiente de muitas vozes sobressaindo às demais; de denúncias aos “jogos cambiais” junto às estratégias de defesas financeiras nacionais[1]; infrutíferas tentativas de controle do capital globalizado e da resistência das obsoletas potências mundiais em “preservar o seu lugar ao sol”, teve fim mais um ineficaz encontro do G20. De que maneira pode-se, sucintamente, analisar a atual conjuntura político-econômica mundial sob a ótica das recentes transformações internacionais?                                      

Imagem do encontro de ministros das finanças mundiais.

O início do século XXI, ao contrário de seu anterior, não vive um período histórico de imperialismos coloniais, disputas e rivalidades maciças entre ideologias e nacionalismos exacerbados. E sim, num ambiente mergulhado num capitalismo já consolidado que engoliu os Estados e atores internacionais a meras peças de um grande e complexo[2] jogo de xadrez. Portanto, ao visualizar as relações entre diferentes órbitas interestatais, deve-se ter consciência da supremacia de um capitalismo transnacional, recrudescido, em grande medida, nas duas últimas décadas de Globalização.

Os reflexos e o contexto são visíveis em encontros como esse G20[3] de 2013, em que dirigentes econômicos internacionais tentam encontrar soluções para um capitalismo globalizado, hostil e competitivo. Ao contrário das guerras e conflitos do século XX, as “guerras” do século XXI podem ser consideradas cambiais, em que as nações, em um ambiente sistêmico de crise econômica e um comércio internacional desfavorável, superdesvalorizam as suas moedas para uma maior competitividade econômica. Ambiente sistêmico esse, cabe destacar, de emergências de novas potências, como China, Índia, Brasil e demais, que, em conjunto com as perspectivas multipolares, pressionam os órgãos econômicos internacionais[4] por reformas e novos direitos, já que grande parte do PIB dos BRICS e demais emergentes superam a metade da economia mundial.

Desse modo, no meio dessa guerra, se teatraliza um jogo de resistência de Washington e Berlim[5] a perda de poderes nessas instituições a novos polos de poder, conforme Mauro Santayana, na qual as antigas potências do pós-Segunda Guerra lutam em “preservar os seus lugares ao sol”.

Atitudes como a do ministro francês Pierre Moscovici nesse último encontro, de se efetivar um maior controle fiscal às megaempresas de tecnologia e comunicação, como Apple, Google e Amazon, são um dos muitos exemplos do contexto em que Estados Nacionais tentam controlar um capitalismo já globalizado. Pode-se analisar esse fenômeno que alicerça o G20, através da ótica de Robert Keohane e Joseph Nye[6], na qual as mudanças proporcionadas pela globalização contemporânea, envolvendo transnacionais e atores não-estatais tendem a ser recíprocos com os atores estatais, trazendo fortes consequências para as “peças” do sistema internacional. Desse modo, O Estado tende a ter uma soberania reduzida por esses novos atores não-estatais que obtêm papéis importante na reconfiguração das relações internacionais.

Charge: Perda do poder econômico para os emergentes.

Desse modo, pode-se analisar a conjuntura político-econômica mundial através das transformações sistêmicas dos últimos decênios, que, trouxeram em seu bojo, um novo processo que desaguou a consolidação do capitalismo mundial[7] por meio da globalização, da emergência de novas potências que disputam por maior espaço e participação nas instituições econômicas. Tudo isso mostra o G20 num cenário de crise econômica, protecionismo das mais diversas nações e da tentativa de algumas figuras de controlar o capital mundial, que por si só, já não pode mais ser controlado.

 

Referências

ARRIGHI, Giovanni; SILVER, Beverly J. Caos e governabilidade: no moderno sistema mundial. Rio de Janeiro: Contraponto, 2001.

KEOHANE, Robert O.; NYE JR, Joseph S. Power and Interdependence. New York: Longman, 1989.

SANTAYANA, Mauro. O Brasil, os Brics e o FMI. Carta Maior, 17/02/2013.

Valor Econômico, disponível em: http://www.valor.com.br/, acessado em 18/02/2013 às 20h.



 

[1] Ou, mais comumente conhecido como Protecionismo.

[2] E também, às vezes, indecifrável para muitos analistas.

[3] Grupos dos vinte. Encontro na qual ministros das finanças das vinte maiores economias do mundo se reúnem anualmente para discutir e “supostamente” tomar medidas em conjunto para favorecer um melhor desenvolvimento econômico internacional.

[4] Como o OMC, FMI, BM

[5] Sob a liderança da poderosa chanceler alemã Angela Merkel, que lidera as decisões econômicas da União Europeia.

[6] KEOHANE, Robert O.; NYE JR, Joseph S. Power and Interdependence. New York: Longman, 1989.

[7] Apesar da permanência da existência de alguns regimes socialistas.

Imagens:
Encontro do G20. Fonte: http://www.cbc.ca/gfx/images/news/photos/2013/02/16/hi-g20-ministers-04001977.jpg

Charge. Fonte: http://www.robmurraycartoons.com/Images/G20-PowerShift.aspx

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