A direita conservadora e suas verdades: ódio e mentira (Parte I)

11/06/2014 13:04

Marcos Belmonte

Existem, sem dúvida, mulheres, assim como homens, a quem a igualdade de respeito não irá satisfazer; tais pessoas não ficarão em paz enquanto qualquer vontade ou desejo, que não seja o seu próprio, não seja atendido.

- Stuart Mill

Em meados dos primeiros 500 anos do calendário cristão, no contexto da queda de Roma, um sujeito chamado Cirilo, cristão ortodoxo, fomentou o ódio na plebe da sua religião (que caminhavam com suas bolsas cheias de pedras) empunhando o seu livro sagrado reclamando a verdadeira ordem do mundo sob os auspícios de sua igreja e abençoada pelo seu deus único e proclamando o único valor a se seguir: a fé cristã. Valorosos! Sigam a palavra! Era o seu conselho (ordem) e tudo e todos fora de sua “lógica” eram considerados diabólicos. Ainda havia certa convivência com as religiões pagãs romanas, que por pura analogia doentia, eram imediatamente encaixadas no aspecto diabólico do mundo. A plebe cristã acreditava sem absolutamente nenhum questionamento. Tudo, mas absolutamente tudo, que saía do livro e dos lábios abençoados de Cirilo era a verdade divina manifesta. Era um tempo de fé cega. De fé doente.

Nesse mesmo momento – tudo acontecendo em uma das várias Alexandrias – em uma das academias de estudos – comandada quase 100% por homens – uma mulher dava aulas para os neófitos do conhecimento científico. Ela é tida como uma filósofa helenista e, como muitos ainda dizem, encaixada dentro de um hiato no que diz respeito ao “relevante” no ensino da filosofia, pois, após Aristóteles, o próximo filósofo que “vale a pena estudar” é Descartes – sim, é verdade que dizem isso. Não entrarei nesse meandro por pura falta de bagagem intelectual conceitual consistente para um embate com catedráticos calejados no assunto, mas isso não vai ficar assim. Promessa. O fato é que Hipátia dava aulas para meninos em terreno, antes, dominado exclusivamente por homens. Isso tudo desenvolvendo estudos sobre física, matemática, etc. Era uma mulher incrível, brilhante e musa de um gênio que viera a nascer mais de mil anos depois: Rafael Sanzio, o mestre renascentista do equilíbrio do Quintocentto. Basta olharmos a sua obra: A Escola de Atenas – atentando para o plano central à esquerda da tela – e veremos sua figura encarando o observador com ar de serenidade. Essa mulher era uma revolucionária de seu tempo. Arrojada para os costumes de então. Corajosa. Ela desafiara o senso das práticas pedagógicas romanas que delegavam aos homens tal tarefa de estudos em centros citadinos. Como era uma cultura com fortes bases na razão Greco-romana, essa situação, apesar de incômoda e desafiadora dos costumes estabelecidos, com muita desconfiança, cobrança e até reprovação dos setores mais ortodoxos, ela conseguia lecionar e passar seu conhecimento e amor ao saber para os neófitos.

Hipátia de branco atrás de Parmênides[1].

Mas com a insurgência e imposição hegemônica fundamentalista da “verdade cristã” – bestial -, onde, a mulher é plena e completamente submissa aos homens e legada às funções outras, que não as de destaque nas cidades e na política, essa filósofa foi perseguida pelas bestas cristãs da época, que destruíram a academia – suas obras, esculturas e, principalmente, sua biblioteca – e chegaram à Hipátia, que, pela fúria descontrolada dessas massas estúpidas, sofreu as mais brutais violências e fora apedrejada até sua morte - dando sentido para os adereços pesados nas bolsas dos homens – e talvez mulheres, também – cristãos. Tudo isso com as vociferações de Cirilo, que hoje a igreja o chama de douto. Doutor na sua religião.     

A época do Renascimento não fora essa benção da retomada da razão e da era de ouro da humanidade em contraposição à noite dos mil anos. O Renascimento é, em realidade, um híbrido com olhos no passado remoto, no passado recente e no futuro. Era o momento de um novo olhar para a humanidade. Um olhar que a colocava como centro do universo, mas não sem atribuir importância ao deus cristão: uma mente racional proveniente de deus, como dissera Pico della Mirandola[2]. Mas se trata de uma época que legou verdadeiros tesouros para nós: A Divina Comédia de Alighieri, a Madona de Leonardo, a Pietá de Miguelangelo, O Nascimento da Vênus de Botticelli; a abóboda fenomenal da Santa Maria Del Fiore de Brunelleschi e etc, Contudo não foi somente a beleza da Humanittas de Botticelli que esse período nos legou. Em 1484 é publicado o Malleus Maleficarum. Suplícios, assassinatos, torturas, fogueiras – essa última uma prática muito apreciada pelo monge Girolano Savonarola, outra praga religiosa ortodoxa -. Isso é que o Malleus recomendava para as mulheres que suspeitassem os senhores da moral, da família e da razão, estivesse em pecado ou endemoniada. Loucura plena e ódio às mulheres[3]. Em 1430 fizeram a mesma barbaridade contra Joana D’arc – ou Darc – por motivos similares. De qualquer forma, as acusações atribuídas contra as mulheres mostrava o grau de insanidade da classe religiosa da época e a propensão das populações para acreditar no absurdo e cometerem – juízes e populares – as mais horrendas purgações, tais como: ferro em brasa, água fervendo, etc. Tudo por causa de SUSPEITAS. O que hoje nossas crianças veem na televisão nos programas infantis tem um fundo histórico vergonhosamente real.

O(A) diferente era um motivo suficiente para “julgar” e condenar. 

Eis, enfim, o seu método de transporte pelo ar. De posse da pomada voadora, que, como já dissemos, tem sua fórmula definida pelas instruções do diabo e é feita dos membros das crianças, sobretudo daquelas mortas antes do batismo, ungem com ela uma cadeira ou um cabo de vassoura; depois do que são imediatamente elevadas aos ares, de dia ou de note, a visibilidade ou, se desejarem, na invisibilidade; pois o diabo é capaz de ocultar um corpo pela interposição de alguma outra substância (...). E não obstante o diabo realize tal prodígio em grande parte através da pomada – para que as crianças se vejam privadas da graça do batismo e da salvação -, parece que também consegue o mesmo resultado sem o seu emprego. ( KRAMER, SPRENGER, pág. 228, 1991)

O livro assassino abençoado pelo papa Inocêncio VIII, diretamente da Basílica de São Pedro em 9 de dezembro de 1484.

Sofrer nas garras da igreja e toda espécie de classe conservadora detentora da verdade e da moral – legal ou ilegalmente - não fora “privilégio” somente de mulheres. Alguém se lembra do destino de Galileu Galilei nas mãos da igreja? Do genocídio dos Maias, Incas e Astecas nas mãos dos espanhóis invasores? Do extermínio dos nativos brasileiros na época pós-invasão nas mãos dos portugueses invasores? Dos chineses de Nanquim nas mãos e baionetas dos japoneses? Judeus nos fornos de Aushwitz pelo III Reich? Do massacre de Palestinos na Cisjordânia pelos judeus sionistas? Da matança promovida por Franco na Espanha, pelos generais no Brasil, por Pinochet no Chile, pelos milicos argentinos, pela CIA na América Central, pelo xá no Irã, por Saddan no Iraque, por todos os presidentes norte-americanos pós Segunda Guerra Mundial... Os vitimados pela sede de imposição assassina da moral de outrem são demais na história. A estupidez e a maldade sempre foi uma marca forte na história. Lembram-se de Damiens?

[Damiens fora condenado, a 2 de março de 1757], a pedir perdão publicamente na porta da principal Igreja de Paris [aonde devia ser] levado e acompanhado numa carroça, nu, de camisola, carregando uma tocha de cera acessa de duas libras; [em seguida], na dita carroça, na praça de Grève, e sobre um patíbulo que ai será erguido, atenazado nos mamilos, braços, coxas e barrigas das pernas, sua mão direita segurando a faca com que cometeu o dito parricídio, queimada com fogo de enxofre, e às partes em que será atenazado se aplicarão chumbo derretido, óleo fervente, piche em fogo, cera e enxofre derretidos conjuntamente, e a seguir seu corpo será puxado e desmembrado por quatro cavalos e seus membros e corpo consumidos ao fogo, reduzidos a cinzas, e suas cinzas lançadas ao vento. (P. Rossi. Trité de droit penal, 1829, vol. III, p. 169)[4]

A maldade – institucionalizada a la Rousseau e Hobbes, ou não – sempre estivera impregnada na nossa história, e sempre foram executadas pelas mãos de quem se dizia correto, moral, legal e sacro. É preciso ser profundamente desumano para tratar um ser humano com tanto ódio e violência. Segundo Foucault, o próprio estado, e seu aparelho supraestrutural pertinente, aos poucos, deixara de praticar semelhante purgação, como no caso Damiens[5]. Apesar de essa atitude estar longe do altruísmo, fora um avanço no que diz respeito ao trato com o semelhante, quando o assunto é a punição de eventuais falhas, ou pecados, ou crimes, ou desvios, ou outros. A sociedade “carcereira” com vários níveis de “poder punitivo” diluiu e descentralizou esse mesmo poder do estado e/ou soberano[6]. Em tese, essa situação de forma-prisão, onde, as pessoas dentro desse sistema aceitavam punir e serem punidas, era para ser uma ”metodologia pedagógica menos cruel e mais educativa”.

Assim sendo, em tese, novamente, as coisas ficariam assim: o pecado era punido pela Igreja através de orações, jejuns, entre outros, os desvios e faltas morais pelo castigo dos pais, faltas ou desobediências no trabalho eram punidos com a “dolorida mão no bolso do operário” ou demissão, contravenções e crimes contratuados nas constituições dos estados nacionais eram punidos pelo seu braço jurídico com privação de liberdade e/ou assistida. Pode-se ver que as punições tem o caráter mais educativo – ou mais branda -se em comparação com os malditos suplícios que se apresentavam como a punição potencialmente adequada em resposta à uma centralização desse poder e posse do que era entendido como “verdade” em diversos âmbitos. Portanto, se um âmbito social se posta como o “centralizador” e abalizador do que acreditarem ser o “correto e justo” para toda a sociedade, esse “poder exacerbado” punitivo novamente centraliza-se, o que dá o “direito” de punir de maneira exacerbada. Esse sentimento de autoimagem de verdade única e/ou fronteira do que era correto era a gasolina das bestas cristãs de Cirilo; era o mesmo do papa Inocêncio VIII e de Kramer e Sprenger; o mesmo dos soberanos franceses até a primeira metade do século XIX; o mesmo dos invasores ibéricos com o continente americano; das forças coloniais imperialistas da primeira metade do século XX, etc.

A ciência da história está aí para nos mostrar nosso passado e os erros que cometemos. As atrocidades que mancharam a terra de sangue. Ela é uma das principais responsáveis para formar seres humanos melhores e conscientes. Devemos aprender com a história. Mas e as bestas donas da verdade? Isso é coisa do passado? Superamos essa fase animalesca? Enfim percebemos que somos seres humanos criados dentro de um sistema exclusivo e cruel e que necessita de um mundo realmente humanista e igualitário para todos em todos os níveis? Saímos da fase egoísta da “minha verdade” e entramos na da “nossa verdade”? Estamos livres de toda ordem de bestas donas do correto?

[segue na segunda parte]

Notas

[1] Cópia da famosa Escola de Atenas, de Rafael Sanzio.

[2] “ Nada é grande na terra, a não ser o homem. Nada é grande no homem, a não ser a mente e a alma (...). À ti, ó Adão, não te temos dado nenhuma sede determinada, nem um aspecto peculiar (...). Eu te coloquei no centro do mundo, a fim de poderes inspecionar, daí, de todos os lados, da maneira mais cômoda, tudo que existe. Não te fizemos nem celeste, nem terreno, mortal, nem imortal, de modo que assim, tu, por ti mesmo, qual modelador e escultor da própria imagem, segundo tua preferência e, por conseguinte, para tua glória, possas retratar a forma que gostarias de ostentar. Poderás descer ao nível dos seres embrutecidos; poderás, ao invés, por livre escolha de tua alma, subir aos patamares speriores que são os divinos”. (MIRANDOLA, 2001, pág. 53; IPUD BOTTON, Flávio. Vênus e Marte: O Triunfo Renascentista. 2008.)

[3] “As grandes teses que permitiam esse expurgo do feminino e que são as teses centrais do Malleus Maleficarum são as seguintes: 1) O demônio, com a permissão de Deus, procura fazer o máximo de mal aos homens a fim de apropriar-se do maior número possível de almas. 2) E este mal é feito prioritariamente através do corpo, único “lugar” onde o demônio pode entrar, pois, “o espírito [do homem] é governado por Deus, a vontade por um anjo e o corpo pelas estrelas” (parte I, questão I). e porque as estrelas são inferiores aos espíritos e o demônio é um espírito superior, só lhe resta o corpo para dominar. 3) E este domínio lhe vem através do controle e da manipulação dos atos sexuais. Pela sexualidade o demônio pode apropriar-se do corpo e da alma dos homens. Foi pela sexualidade que o primeiro homem pecou e, portanto, a sexualidade é o ponto mais vulnerável de todos os homens. 4) E como as mulheres estão essencialmente ligadas à sexualidade, eles s tornam as agentes por excelência do demônio (as feiticeiras). E as mulheres tem mais convivência com o demônio “porque Eva nasceu de uma costela torta de Adão, portanto nenhuma mulher pode ser reta” (I,6). 5) A primeira e maior característica, aquela que dá todo o poder às feiticeiras, é copular com o demônio. Satã é, portanto, o senhor do prazer. 6) Uma vez obtida a intimidade com o demônio, as feiticeiras são capazes de desencadear todos os males, especialmente a impotência masculina, a impossibilidade de livrar-se de paixões desordenadas, abortos, oferendas de crianças a Satanás, estrago das colheitas, doença nos animais e etc. 7) E esses pecados eram mais hediondos do que os próprios pecados de Lúcifer quando da rebelião dos anjos e dos primeiros pais por ocasião da queda, porque agora as bruxas pecam contra Deus e o Redentor (Cristo), e portanto este crime é imperdoável e por isso só pode ser resgatado com a tortura e a morte. MALLEUS MALEFICARUM, pág. 16.

[4] IPUD, FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. Pág. 9. 2007

[5] Ibid.

[6] Ibid.

 

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