A Direita Brasileira: Do Imaginário Político à Política Imaginada

17/11/2014 11:13

Ronaldo Queiroz de seu Blog

O pensamento político de Direita é universal e empolga a dupla revolução moderna, na forma de produzir [Revolução Industrial] e nas relações de poder [Revolução Francesa]. Diante do solapamento revolucionário das estruturas feudais engendrou-se uma postura política moderna que consiste em conservar o poder nas mãos da vanguarda industrial-burguesa. Em substância. trata-se de visão negativa do homem e da sociedade [natureza imutável], da defesa da tradição e de restrição da igualdade à lei e à formalidade. Há também a concepção da sociedade a bloco unívoco sem contradições de gênero, de raça e de classe. A função do Estado – em geral – corresponde essencialmente ao poder de manter a segurança e de assegurar a propriedade privada. A liberdade é sempre do indivíduo abstrato e isolado que no interior do mercado deve exercê-la no limite de seus méritos pessoais. A desigualdade social infere-se como fruto da natureza humana que pode ser corrigida com a suspensão de qualquer modelo de auxílio social [medida artificial e perniciosa] e a positiva pressão do mundo do mercado sobre os indivíduos.

Há na política sempre elemento cultural e histórico que regionaliza as práticas de poder. A especificidade da Direita brasileira está – sem dúvida – no tardio estabelecimento do contraponto político advindo do proletariado moderno e do jacobinismo igualitário que no choque político proporcionou – nas nações avançadas – o equilíbrio importante para o nascimento das democracias liberais modernas. Aqui – por exclusão da maioria da população do campo político – a democracia por um longo tempo sempre foi um simulacro de modernidade. O Brasil nasce em 1822 no calor da dupla revolução, mas independentemente das forças revolucionárias modernas o pensamento político dominante no país foi o de adaptação elitista do moderno às estruturas de poder tradicional. Não há povo como realidade política. Assim, a latifúndio e a escravidão mantiveram-se como fenômeno que indicia o elitismo brasileiro impregnado nas instituições e que marca a desigualdade como o imenso atraso do Brasil. Ainda hoje a escravidão e o latifúndio estão, sob o véu da modernidade, presentes na matriz das desigualdades de toda a ordem no país [trabalho doméstico sem garantias modernas, trabalho infantil, trabalho escravo não são meros acidentes]. Dessa forma, no discurso político da Direita brasileira não há qualquer oposição entre desigualdade social e modernidade econômica. Há no imaginário político da Direita o medo da alteração da ordem social engendrada pelo mercado e que naturalmente empurra os indivíduos para a prosperidade. A Direita brasileira pontua seu imaginário na naturalização das desigualdades no país. Como os pobres no Brasil estão ainda ligados aos desdobramentos do escravismo a saída ideológica consiste em negar qualquer reparação histórica. Efetivamente, o fim do escravismo foi muito mais ato de eliminação da vergonha das elites nacionais frente às nações liberais modernas do que política ética de emancipação e integração dos afro-brasileiros. Na caixa de pandora das elites políticas está o preconceito e a visão negativa frente às massas empobrecidas.

O Brasil é atrasado – segundo a Direita brasileira – por preguiça e falta de inteligência do povo. Ideia que está entrelaçada ao racismo nacional, pois a imagem do povo é a do negro ou mestiço. No imaginário do gigante há direta e indiretamente o racismo, que, além de preconceito, reproduz a dominação política sorrateiramente. Como o povo brasileiro, por longo período da história do país, assistiu aos desdobramentos da política nacional diante da porta de um teatro do qual não era permitida a sua entrada, o imaginário político de Direita não o reconhece como ator político independente. É possível sempre – nesse raciocínio – manipular os eleitores pobres, mas as Elites nunca. Os pobres são percebidos como corpos de baixa cidadania e deslocados de liberdade efetiva. Não tem liberdade, pois desejam calorosamente a servidão. É a velha imagem de dominação escravocrata que permeia em resíduo importante na política brasileira. Nessa perspectiva, a política imaginada pela Direita brasileira encontra-se na modernização conservadora. Modernizar as estruturas produtivas sem abrir mão da conservação das estruturas de desigualdade social. O Brasil deve persistir moderno e desigual. As formas de dominação conservam a tradição escravocrata. Logo, a distância e a assimetria abissal entre pobres e ricos é a regra geral. O pensamento de Direita não se encontra restritivo à elite bem-nascida, pois está disseminado nas instituições e no próprio imaginário político na forma de cultura autoritária. Nossa tradição política dorme na consciência do gigante que acorda sempre quando se sente ameaçado pela transformação social.

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