A Caixa de Perguntas - Uma conversa sobre sala de aula com Elenilton Neukamp

07/11/2013 08:34

De uma proposta pedagógica surge o livro escrito por Elenilton Neukamp "A caixa de perguntas" que relata essa experiência que vem desde 2004 e proporciona aos alunos um espaço onde podem falar tudo que lhes vem a mente e até o aluno mais tímido pode se expressar sem medo. Vamos conversar brevemente com o autor da obra sobre essas experiências.

O Fato e a HistóriaO que é a "caixa de perguntas"?

Elenilton Neukamp - A caixa de perguntas é uma experiência de sala de aula. Uma prática que deu certo. Num sentido mais simples, é uma caixinha onde os alunos colocam perguntas livres, depois o professor digita as questões e retorna com elas na sala de aula. Eu gosto desta palavra "experiência", porque lembra algo que se vive, que se experimenta mesmo. Não é uma didática que se repete simplesmente. Existe a forma de perguntar e de organizar o trabalho que se repetem. Mas cada momento de discussão das perguntas é único, e quase sempre revela novas facetas sobre um mesmo problema.

A caixa de perguntas é uma abertura para o diálogo nas aulas. O grande risco que se corre com isto é se chegar a belas abordagens filosóficas sobre a vida, o mundo, tudo que acontece... É um espaço de radicalização da democracia na escola, onde todos e todas têm o poder da palavra (mesmo não precisando literalmente falar nas aulas).

OFeaH - A ideia de colocar essa experiência num livro é bastante inspirada, mas e a ideia de fazer a "caixa de perguntas", é sua ou te inspirou em algum lugar?

EN - A ideia foi minha, mas não tenho nenhuma pretensão de que seja algo original. Vários professores e professoras fizeram e fazem uso de mecanismos de participação nas aulas. O que pensei primeiramente foi "como dar possibilidades para que todos participem, mesmo os mais introvertidos?". Depois de vários anos com a "caixinha", li relatos de práticas parecidas. O que mais me chama a atenção é que em geral se faz coisas assim apenas com crianças...como "caixas de dúvidas" ou "caixinha de sugestões". Mas é na adolescência que as dúvidas vêm com tudo. Não deixa de ser interessante que a minha experiência surja como algo tão especial, sendo no fundo algo tão simples: o diálogo, o debate, a abertura para a fala do outro.

Entretanto, é sempre bom lembrar que um dos "pais" do Ocidente foi condenado à morte exatamente por fazer boas perguntas, por sair pelas ruas de Atenas provocando os jovens a pensar.

OFeaH - O que o professor precisa ter para aplicar essa ideia, além de uma caixa?  

EN - Boa pergunta. Ele precisa ter antes de tudo abertura para o novo. Precisa ser um professor que goste do que faz, que goste de estudar, porque as perguntas que surgem vão sempre lhe obrigar a pesquisar, a tentar entender o universo de seus alunos e alunas...que são de outra geração que pensa e percebe o mundo de um jeito bem diferente.

Ele precisa ser uma pessoa altamente democrática, que muitas vezes vai ouvir alguém falar uma grande bobagem e vai ter que engolir aquilo a seco (risos), respirar fundo, elaborar uma boa questão, contribuir para que aquele aluno/a reflita sobre o que disse.

Nossa sociedade é violenta e em muitos sentidos fascista. Então uma primeira tendência seria reagir a um comentário agressivo com uma agressão. Então esse professor precisa reagir com o diálogo...

OFeaH - O professor pode usar a “caixa” o ano letivo inteiro ou deve incluir essa prática entre outras ao longo do ano?

EN - É uma escolha dele. Eu uso a caixa o ano todo, na maioria das aulas. Isto depende do que ele quer com este trabalho e de seu planejamento como professor. Pode ser parte das aulas, pode ser uma experiência eventual focada num objetivo específico. Há um mês atrás falei sobre a "caixinha" em uma universidade, e no final da palestra uma das professoras que veio conversar questionou exatamente isto. "Será que eu poderia usar a caixa numa situação específica, numa turma diferenciada que não se interessa por nada?". A resposta é sempre sim.

Nas minhas aulas de Filosofia a caixa de perguntas se tornou parte das aulas, ao ponto de no início do ano os novos alunos já perguntarem por ela no primeiro dia de aula... Já existe uma espécie de "tradição" nas aulas, e muitas vezes recebo na porta da sala algum aluno/a que foi liberado (por falta de professor) pedindo para assistir a aula. Em geral são alunos meus, mas outras tantas vezes são de outros anos que sequer têm Filosofia... Isto por um lado é emocionante, e por outro entristece. Porque a abertura para a fala dos estudantes não poderia ser algo tão "diferente" - deveria ser o lugar comum na escola.

OFeaH - Como teus colegas reagiram a “caixa”? Colaboraram? Se sentiram ameaçados?

EN - Hoje, em geral, as pessoas mostram uma grande simpatia pela ideia. Mas não foi assim sempre. Em alguns momentos fui questionado por dar tanta abertura para os adolescentes. Porém, os resultados falam por si mesmos. As pessoas mudam seu comportamento, passam a escrever, participar... Creio que uma limitação (bem pessoal) é não conseguir realizar maiores "pontes" entre a experiência da caixa de perguntas e a vida da escola como um todo. Mas isso toca também na cultura autoritária da escola no Brasil, e na pouca vivência democrática que temos como país.

Em alguns momentos consegui fazer um trabalho conjunto com colegas, onde eu tratava a pergunta de uma forma geral, e passava para uma professora fazer uma abordagem mais especializada. Isto, sobretudo nas questões relacionadas à sexualidade.

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