A Batalha de Argel

24/07/2012 16:02

Walter Lippold

Quero abrir minha coluna CINEPRAXIS com o filme que eu mais gostei de ver na minha vida. Um filme que marcou muito minha juventude e que me fez refletir sobre o colonialismo e seus resquícios na chamadas sociedades “pós-coloniais”. Resolvi desenvolver a parte sobre o filme A Batalha de Argel do meu artigo sobre História da Argélia. Até plagiado já fui na minha análise do filme. Nada melhor que ser citado por outros autores, mas desde que coloquem a sua referência. Vamos adiante então. Sei que ficou um pouco longo, prometo nos próximos escritos ser mais sucinto.

O filme A Batalha de Argel de 1965 é uma produção ítalo-argelina, dirigida pelo diretor italiano Gillo Pontecorvo, baseada no livro de memórias de um dos chefes militares da Frente de Libertação Nacional argelina (FLN), Saadi Yacef[ 1]. É um filme que buscou romper com o cinema-clichê, em termos de roteiro, técnica, montagem e fotografia, de união entre a política e a estética. É o primeiro filme produzido na Argélia pós-Independência e dirigido por um europeu anticolonialista.  Além disso, mostra também aspectos da luta anticolonial urbana na Argélia, suas táticas e idéias. O filme é importante, pois foi feito com a ajuda do povo argelino e de figuras significativas da FLN, como Saadi Yacef, que inclusive atua no filme e é produtor associado, sendo o principal idealizador da obra: quando estava na prisão, condenado à guilhotina, Saadi Yacef escreveu o livro Souvenirs de la Bataille d'. Alger sobre sua experiência como coordenador da FLN na Casbah, em Argel. Após o indulto de De Gaulle, que o salva da morte, Yacef busca um diretor italiano, já que na França não encontrou apoio obviamente. Então se depara com o diretor de Kapo (1959) - um dos primeiros filmes sobre campos de concentração- Gillo Pontecorvo. Saadi Yacef conta estes momentos, entrevistado por José Carlos Avellar:

Quando se está sozinho na cela tenta-se preencher os dias, eu fazia filmes na minha cabeça. Eu me lembrava dos anos em que vivi em liberdade e enfatizava os eventos mais importantes, vividos pela cidade de Argel, a minha prisão, a morte de alguém, as bombas, eu fazia estes filmes na cabeça pra passar o tempo. Daí o General De Gaulle chegou ao poder, neste momento ele deu indulto aos condenados à morte e eu como condenado à morte me beneficiei do indulto. Foi assim que minha cabeça não foi cortada. Eu fui transferido para a França, para a prisão de Fresnes, lá me deram papel e caneta, então comecei a escrever minhas memórias. Então escrevi sobre todos os acontecimentos que vemos no filme, o local onde fui detido, as bombas colocadas por eles, as bombas colocadas por nós, enfim todo o confronto, tudo isso eu descrevi na minha primeira obra Souvenirs de la Bataille d'. Alger, eu publiquei pela editora francesa Julliard em 1962, quando fui libertado, escrevi uma pequena sinopse e procurei um diretor e um roteirista que pudessem traduzir o livro em linguagem cinematográfica. A França nunca aceitou participar da co-produção, por razões evidentes, então fui procurar os italianos, eles são mediterrâneos, há também o neo-realismo italiano da época, Roma Cidade Aberta, entre outros, e com o pequeno roteiro que tinha escrito fui a Itália, fui a Roma e entrei em contato com vários roteiristas. Encontrei um diretor, Gillo Pontecorvo, que fez um filme chamado Kapo, ele foi resistente, era jovem, comunista, depois deixou o partido, mas continuou de esquerda, [...]Eu mostrei o que havia escrito baseado no livro, ele me disse: -Pode jogar no lixo!. Perguntei por que? –Este trabalho é para um profissional, este não é o seu caso, não se faz um roteiro assim, vamos jogar isso fora eu aceito dirigir A Batalha de Argel. Ele me indicou um roteirista Franco Solinas, que fez Salvattore Giuliano, muito famoso, uma pessoa inteligente e ótimo escritor. Eu os levei à Argélia.[...]

A história de Pontecorvo é bastante interessante, nascido na Itália fascista, judeu de classe-média, estudou química e foi um playboy, jogador de tênis, até que em Paris conheceu amigos de esquerda, intelectuais e artistas, Picasso, Sartre, ex-combatentes da Guerra Civil Espanhola, que o influenciaram a ingressar nas fileiras da resistência antifascista e no Partido Comunista Italiano, chefiando a Juventude Comunista de onde sairá em 1956 devido a Invasão da Hungria. Tornou-se fotojornalista, até o dia em que assistiu em Paris ao segundo filme da Trilogia da Guerra de Rosselini, Paisá (1946) precedido por Roma Cidade Aberta (1945) e sucedido por Alemanha Ano Zero (1947). O neo-realismo italiano fascinou Pontecorvo, que se tornou o obstinado, contraditório e perfeccionista diretor de A Batalha de Argel (1965), Queimada (1969), Ogro (1979), entre outros.  A sua experiência na guerra influenciou seus filmes. A utilização de atores não-profissionais, influência do neo-realismo, de temas políticos e lutas anticoloniais, foi a tônica da carreira deste diretor, que faleceu em 2007. Pontecorvo fez poucos filmes, desistiu de inúmeros projetos, ele tinha que ter tudo sob controle, e a perda de poder do diretor perante os executivos das mega-empresas da indústria cinematográfica ajudou no silêncio de Pontecorvo, que para sobreviver fazia comerciais de TV.

Para Pontecorvo o cinema não é somente diversão, ele é, sobretudo, estética política, é um instrumento de crítica e de interpretação da realidade. Em 2000, quando houve o Festival Rio BR, ocorreu uma retrospectiva dos filmes de Pontecorvo, em uma reportagem do jornal Estado de São Paulo, o jornalista Merten[2] colocou um pouco da visão do diretor sobre seus filmes, pois foi feita uma entrevista por telefone. Nessa entrevista Pontecorvo diz que:

Adora o filme não só pela política, mas pela estética. Buscou um tipo de fotografia que se assemelhasse à dos cinejornais. Só que queria algo mais elaborado, experiência que repetiu em A Batalha de Argel, sobre o levante de 7 de outubro de 1957, quando os argelinos rebelaram-se contra os colonizadores franceses na Casbah. O filme reconstitui a luta do povo argelino pela liberdade. Critica os excessos, mas defende o terrorismo como instrumento de luta contra o colonialismo. Em companhia do seu fotógrafo (Gatti), Pontecorvo ficou um mês na Argélia fazendo todo tipo de experiência até chegar ao estilo de imagem que queria. Buscava a autenticidade dos cinejornais, mas queria um filme que fosse bonito ("Seria desrespeito com o público pagante oferecer-lhe algo que não fosse elaborado, esteticamente"). O filme ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza de 1966. Impressiona ainda hoje pela veracidade da reconstituição. Os argelinos foram às ruas participar da recriação, que Pontecorvo fazia, de um episódio fundamental da guerra anticolonial.

Para fazer este filme, Pontecorvo quis mergulhar na alma argelina, ficou um tempo com seu co-roteirista franco Solinas e seu fotógrafo, Gatti, conhecendo a Argélia, sua cultura, sua gente, sua história, e é isto que faremos brevemente antes de adentrar no filme.

As filmagens iniciam-se:

Começamos a filmar, eu estava presente, para dizer que aquilo tinha acontecido daquela maneira ou outra. Ali foi o lugar onde foi colocada a bomba para destruir a Casbah, é possível reconstruir o local. Reconstruímos o local que havia sido completamente destruído. Reconstruímos um bairro inteiro para destruí-lo depois. O local onde foi filmada minha prisão, La Pointe e eu reconstruímos a casa para destruí-la. [...] Havia também a multidão [...] reuni mais de 15 mil pessoas, nem Cecil B. De Mille conseguiu isso. Eram os extras nas passeatas do fim do filme, eu ajudei nas reconstituições das passeatas de dezembro. Reuni equipes de duas ou três pessoas que ficavam responsáveis por cada grupo de 50 pessoas, eles davam as dicas pras pessoas, mandavam aplaudir, gritavam abaixo o colonialismo e todos gritavam, coloquei algumas pessoas para dirigir a multidão, isto me lembrava a organização piramidal da Batalha de Argel,  pequenos grupos de pessoas estanques, o chefe nos conhece, mas não conhecemos o chefe, havia portanto um sistema piramidal [...][3]

A influência do neo-realismo italiano faz-se presente em A Batalha de Argel, onde havia apenas três atores profissionais, um deles Jean Martin,  o Coronel Mathieu no filme, e um ator de teatro argelino, que faz o papel de um bêbado sendo azucrinado e agredido por dezenas de crianças. Todos os outros atores são pessoas do povo argelino[4], Ali la Pointe, personagem-eixo narrativo do filme, foi representado por um pastor. Mas o protagonista do filme não é um indivíduo e sim um coletivo, um personagem-coral, como diz Pontecorvo, que vai se encontrando e se transformando no desenrolar das cenas, uma influência de Gramsci que o autor aproveitou. Mas o eixo condutor é a vida de Omar Ali, vulgo Ali La Pointe, uma espécie de Malcom X argelino, pois era analfabeto, pedreiro, boxeador, militar desertor, e quando desempregado tornou-se malandro aplicador de golpes no jogo, cafetão, freqüentando reformatórios por desordem e outros delitos menores. A metáfora da travessia em Ali La Pointe é o que nos interessa neste momento. Como disse Fischer[5]:

Um bom romance e um bom roteiro de filme não podem prescindir de pelo menos um personagem remetido à própria transformação, a uma experiência de si que o subverte, que faz dele algo diferente do que era.

O filme inicia, soldados franceses ao redor de um homem argelino semi-nú, o homem treme, o soldado está “consolando-o”, é um torturado que falou onde está escondido o último chefe da FLN na Casbah: Ali La Pointe. O homem leva os soldados franceses até o esconderijo, em meio a vergonha e humilhação, os soldados encontram e cercam Ali La Pointe. Dizem para ele se render. Então, somos invadidos de repente pelo olhar de um rosto marcante, o olhar de Ali La Pointe! Ao lado dele, no que parece um lugar escuro e apertado, estão ele, um menino, uma jovem e um rapaz, todos preocupados. Estão num esconderijo, prestes a serem explodidos por uma bomba dos franceses! Há então a utilização do flashback, a imagem torna-se desfocada, o olhar de Ali que se perde, que nos leva de 1957 a 1954, com um plano aéreo da cidade de Argel, primeiro enfatizando a cidade européia, o bairro dos colonos, depois a Casbah, o bairro dos nativos, numa referência direta a obra Condenados da Terra de Frantz Fanon, outro teórico que influenciou a luta anticolonial, principalmente na Argélia, onde atuou como médico, intelectual e representante da FLN. No bairro europeu está Ali La Pointe, aplicando o velho golpe do jogo das três cartas, mas logo é dedurado para um policial que o persegue, até Ali ser derrubado por um estudante francês que maliciosamente colocou a perna para Ali cair. Então Ali, boxeador/pedreiro desempregado desfere um direto no rosto do estudante branco, e então é linchado pelo resto dos estudantes até o policial chegar e o prender.

Na prisão Ali sofre uma espécie de transformação, seu ódio, sua violência caótica encontram uma explicação, tudo isso ocorre no momento que Ali e os prisioneiros acompanham a o trajeto de um condenado a morte, pelo corredor da prisão. O condenado[6] grita, “Viva a Argélia”, os outros prisioneiros gritam também, Allah Akbar, Deus é maior, Ali em seu silêncio prenhe de olhares que nos dizem tudo e não nos dizem nada observa atento. Ali corre para a janela, tem-se um plano geral do pátio asséptico da prisão, lá está a retilínea guilhotina, esperando com seu furo sinistro, uma cabeça argelina para cortar. O homem é enfiado deitado com as mãos atadas na guilhotina, os espectadores salivam por uma cena explícita... Nada disso, a câmera se volta para as janelas da prisão e de repente para o olhar de Ali, não vemos/vemos o que Ali está vendo, o som da guilhotina é ouvido, os olhos de Ali estalam! Este olhar é o momento da catarse de Ali, ali se inicia a travessia deste jovem “problemático”.

A plástica do filme é algo envolvente, nos vemos surpreendidos toda hora pelos rostos argelinos, crianças riem para a câmera que se movimenta penetrando na multidão, numa imagem granulada que lembra os cine-jornais. O movimento da câmera faz jus ao movimento do povo argelino.

Ali La Pointe entra em contato com a FLN e ingressa através de um batismo de fogo quase mal-sucedido. Conhece Jaffar, o nome dado ao papel de Saadi Yacef e recebe a missão de “limpar” a Casbah de cafetões, jogadores e viciados. Todos conhecidos e amigos de Ali, numa espécie de teste de fidelidade. Ali se transforma em um orgânico combatente da causa argelina, e inclusive é obrigado a executar um amigo cafetão, que tinha o ajudado em outros tempos. Começam os atentados contra policiais e autoridades francesas, saques de delegacias para pegar armas, tudo com a participação de mulheres que escondiam as armas e logo desapareciam com suas roupas brancas escondendo o rosto, no meio da multidão com trajes parecidos ao olho ocidental. Mas no que concerne às bombas, na Argélia, o contra-terrorismo preconizou o terrorismo da FLN. Um bomba é colocada por radicais anti-independência na Rua Thebes na Casbah, matando e ferindo dezenas de argelinos. A FLN decide se vingar e coloca três bombas, uma em um café francês, outra no aeroporto e outra ainda num bar. Devido a isso, ao descontrole da situação, são enviados os Pára-quedistas, que vinham derrotados da Indochina. Mesmo sendo comandados por homens que lutaram na Resistência Francesa, que foram torturados pela Gestapo, a tortura tornou-se o método por excelência dos franceses, pois a rede da FLN era uma rede piramidal, em que praticamente ninguém se conhecia, somente os chefes de setores. O chefe numero 1 indicava dois militantes, cada um destes indicava mais dois, assim por diante, os subsetores não se conheciam entre si.

Na cena da bomba na Rua Thebes e na cena das bombas no locais franceses, há um belo tema de Ennio Morricone, segundo ele um tema religioso baseado em Bach. O diretor quis o mesmo tema para os dois lados, pois mesmo tomando partido pela FLN, não deixou de igualar a dor da perda de ambos os lados. Aqui vemos a importância da trilha sonora, que igualou as cenas em sua dor. Música é decisiva para Pontecorvo[7],

“[...]no contraponto entre a imagem sonora e a imagem visual em que o filme se baseia, nem sempre a imagem visual é o mais importante, as vezes a imagem é mais sonoro é mais importante e chamo de imagem sonora para mostrar a relação estreita entre ambas.”

O filme torna-se cada vez mais tenso, as torturas tornam-se cotidianas, a ONU não reconhece a Argélia, chefes são presos e executados, mas Ali continua convicto, não é mais o confuso malandro que só pensava em sobreviver, agora ele tem um objetivo, lutar pela independência da Argélia. O terror imposto pelos Paraquedistas franceses as vezes é comparado com as práticas do nazismo em campos de concentração, em uma cena do filme centenas de argelinos são conduzidos em caminhões e posteriormente em filas para os campos de interrogatório. Lembremos que Pontecorvo dirigiu Kapo (1959), um dos primeiros filmes sobre campos de concentração nazistas. Estaria ele expondo a contradição de que homens que lutaram contra o nazismo, estariam agora aplicando as mesmas práticas na Argélia? Que é o nazismo senão a aplicação de práticas colonialistas dentro do próprio solo europeu?

Podemos também conhecer alguns comunicados da FLN que são citados no filme, como o que determina pena de morte para traficantes, cafetões e viciados da Casbah que não largarem a vida do crime. A obra ganhou prêmios como o Leão de Ouro do Festival de Veneza e é considerada um dos filmes políticos mais importantes dos anos 60 do século XX. O filme também nos apresenta alguns aspectos da crise política pós-independência, pois como foi rodado na época do governo Boumedienne, nenhuma referência é feita a Ben Bella, que foi derrubado por Boummedienne, sendo isso um conteúdo latente[8] do filme.

O filme traz a tona vários elementos importantes que fizeram parte do contexto de luta pela independência argelina: o ódio racial do francês para com o árabe, as diferenças gritantes entre a “cidade européia” e a Casbah, a tortura aplicada pelos franceses e os atentados terroristas da FLN. Mas o que não fica explícito no filme são as ligações da FLN urbana com o campo, já que a luta originou-se na zona rural e depois atingiu a cidade. Em alguns momentos fica claro que o filme é de 1965, mesmo ano da queda de Ben Bella. Em um determinado momento Ali La Pointe, protagonista do filme, conversa com o líder Ben M´Hidi que diz algumas palavras sobre como é mais difícil continuar uma revolução do que começá-la. Completa sua fala dizendo que quando acabar a guerra, aí sim começarão realmente, os tempos difíceis, numa alusão clara às dificuldades do pós-independência argelina. A riqueza do filme é tão grande que além de comunicados oficiais da FLN, em alguns momentos são expostas as táticas e estruturas de funcionamento dos setores urbanos da FLN. A ação repressiva e humilhante dos paraquedistas com seus métodos “pouco convencionais”, como explodir militantes dentro de seus esconderijos, também é ressaltada no filme. Devemos lembrar que estes militares estavam com bastante raiva dos “povos inferiores”, já que haviam sido derrotados em Dien Bien Phu em 1954, precisavam agarrar-se à Argélia, “se a França quer continuar na Argélia, que se aceitem as conseqüências!” diz o coronel Mathieu à imprensa no filme.

A travessia de Ali, é a travessia do colonizado exposta em Fanon e na obra do tunisiano Albert Memmi, onde a violência do colonizador e a contra-violência do colonizado impregnam o ambiente, onde o ato de violência do colonizado é uma espécie de terapêutica que desintoxica, numa metáfora do lumpenproletariado que se reabilita, do prostrado que se levanta violentamente. A própria geografia do filme é construída em cima do maniqueísmo colonial, eles e nós, Próspero e Caleban, Robison Crusoé e Sexta-feira, pied-noirs e bicots, a Casbah e o bairro europeu, onde o acesso é controlado por soldados, cachorros e arames farpados.

Nos minutos finais, três anos após a morte de Ali La Pointe, o crescendo das cenas de multidão, que vinha de desenvolvendo desde o início do filme, chega ao seu ápice. São as manifestações de 1960 que vão mudar o rumo da Guerra da Argélia, que terá sua Independência dois anos depois. Neste trecho milhares de pessoas protestam, tanques nas ruas, soldados, a câmera balança, em meio a fumaça e gritos. Uma cena é a síntese das relações entre o olho/ouvido/eu europeu e os outros corpos não-ocidentais, o jornalista francês diz que gritos assustadores e incompreensíveis vem da Casbah na noite.

Como no flashback de Ali La Pointe, voltamos ao início do artigo, que buscou

[...]pensar a formação docente seguindo as trilhas de olhares, gestos, sonorizações, roteiros, silêncios, enunciações – preferencialmente aquelas trilhas que de alguma forma jogam o mínimo possível com a linguagem da dominação, com o aprisionamento aos clichês do espetáculo tecnológico ou melodramático.[9]

Ali La Pointe morre no fim, a morte como metáfora da liberdade do personagem, ele decide ficar no esconderijo e é explodido pelos franceses junto com o menino Omar, e seus camaradas. Mas a morte de Ali não é a morte do personagem-coro de A batalha de Argel, pois a travessia de Ali La Pointe é também a travessia do povo argelino que sob as lentes de Gatti, do roteiro de Solinas, da música de Morricone, da produção de Yacef e direção de Pontecorvo, movimenta-se incessantemente, e o faz, principalmente nas cenas de multidão eisensteinianas[10], onde as vezes o foco é um rosto, mas que nos faz perder nosso olhar no meio dos corpos no seu frenesi. Uma contra-análise da História, outras Histórias, que talvez ajude em nossa própria travessia...

Referências

A BATALHA de Argel; Direção de Gillo Pontecorvo; Produção de Yacef Saadi; Argel: Casbah Films/Igor films, 1965. 2 DVD.

DITADURA da verdade. Documentário sobre Gillo Pontecorvo. Apresentado por Edward Said, 2002. 1 dvd

FERRO, Marc. O Filme: Uma contra-análise da sociedade?. LE GOFF, Jacques; NORA, Pierre. História: Novos Objetos. 3ª Ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1989.

FISCHER, Rosa Maria Bueno. Cinema e TV na Formação ético-estética docente. 30ª Reunião Anual da Anped, 2007.

O inimigo íntimo. Documentário Direção de Rotman, Epidódio 3 Estados Armados , 2002

MERTEN, Luiz Carlos. Retrospectiva de Pontecorvo é destaque no festival Rio BR. O Estado de São Paulo. 5 de outubro de 2000. Disponível em: Acesso em: 12 de fevereiro de 2008.

SARTRE, Jean Paul. O colonialismo é um sistema. Les Temps Moderns, nº 123, março-abril de 1956. IN: Colonialismo e Neocolonialismo. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1968, p.27

Notas:

[1] O nome já foi encontrado de três modos: Saadi Yacef, Yacef Saadi e Saadi Yassef. Até o momento não sabemos qual grafia é a certa.

[2] MERTEN, Luiz Carlos. Retrospectiva de Pontecorvo é destaque no festival Rio BR. O Estado de São Paulo. 5 de outubro de 2000. Disponível em: Acesso em: 12 de fevereiro de 2008.

[3] Entrevista de Saadi Yacef por Jose Carlos Avillar.

[4] “A população que estava presente, tudo era novo para eles, o filme foi feito em 1965, a Independência foi em 1962. A ferida ainda estava aberta e sangrando, o que chocou um pouco as pessoas no início, mas depois eles acharam engraçado, foi ver o uniforme dos Paraquedistas, as pessoas pensaram:  ‘eles voltaram! Foram escurraçados mas voltaram!”’A gente achava graça disso” diz Saadi Yacef em sua entrevista.

[5] FISCHER, ibdem, p.5

[6] Como afirmou Saadi Yacef em sua entrevista, “Aquele homem que é levado à guilhotina. Há um homem levado à guilhotina cuja boca é tapada para que não grite “Viva a Argélia”,  este homem foi realmente condenado à morte, ele foi chamado para representar, e representou bem porque entrou no espírito da época, que havia sido condenado à morte.” Vemos nos olhar do condenado o desespero que invade nossos frágeis corpos, a morte é certa, ele grita para seus companheiros, a cena é poderosa.

[7] Ditadura da Verdade. Documentário sobre Gillo Pontecorvo, apresentado por Edward Said, 2002.

[8] Baseamo-nos, para a análise do filme A Batalha de Argel, na metodologia de Marc Ferro, onde a partir do conteúdo aparente do filme devemos buscar o conteúdo latente que pode mostrar-nos uma zona de realidade (social) não visível. É necessário conhecer aspectos externos do filme, como por exemplo, o histórico do diretor, além também de averiguar o impacto que o filme causou nas platéias. Outro aspecto importante quanto à metodologia para a pesquisa em “filmes históricos” é a clareza quanto à relação passado-presente na produção cinematográfica, ou seja, todo filme que retrata uma determinada época passada, trará conseqüentemente traços do seu próprio tempo. Mesmo no caso de um filme como A Batalha de Argel, que foi lançado poucos anos após os acontecimentos que se propõe a retratar, podemos observar conteúdos latentes que denotam aspectos da época em que o filme foi rodado.

[9] FISCHER, op. Cit., p.9

[10] Referente ao diretor Serguei Einsenstein.

 

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